A liberdade melhora a performance desportiva das nações


Sérgio de Almeida Correia,

(créditos: Helsinki Times)

Marcados pelas medidas extremas relacionadas com a pandemia, pela falta de neve natural, um boicote político por parte de alguns países, a ausência de público, as más condições oferecidas a alguns, uma comida que ficou a desejar, a subserviência do COI aos interesses económicos, o impedimento e a criação de obstáculos ao livre acesso dos participantes à informação e à Internet, e uma intensa máquina de propaganda, os Jogos Olímpicos de Inverno chegaram ao fim.

Tal como em edições anteriores, não faltaram momentos de alegria e de drama, os recorrentes casos de doping, muitas lágrimas e sorrisos. E também choveram medalhas.

Se no tempo da Guerra Fria era por via dessa contabilidade medalhística que os blocos de então se procuravam afirmar para justificarem a superioridade dos modelos políticos e sociais que representavam, não menos verdade será que nos dias de hoje e com o reavivar de tensões à escala global se volte de novo a esse padrão.

É por isso inevitável, perante as bandeiras que foram agitadas e as acusações mútuas de politização dos Jogos, agora que as competições chegaram ao fim, que se volte a olhar para os quadros. Muitos balanços e análises poderão ser feitas, embora seja previsível que se termine sempre a olhar para as medalhas.

E quanto a estas há sempre duas maneiras de olhar para elas. Há quem privilegie o número total. Há quem prefira colocar a tónica apenas nas medalhas de ouro.

Olhando apenas para o total verifica-se que a Noruega sai a ganhar com 37, logo seguida da Rússia, com 32 – dizer que a Rússia não pode participar e que quem participa é o Comité Olímpico Russo é uma falácia do COI para enganar os tolos –, da Alemanha com 27, do Canadá com 26, dos EUA com 25, da Suécia e da Áustria ex aequo com 18, e dos Países Baixos e da Itália, ambos com 9. 

Pela contabilidade dos ouros, a Noruega volta a vencer com 16 medalhas, seguida da Alemanha com 12, da China com 9, dos EUA, Suécia e Países Baixos todos com 8, da Áustria e da Suíça com 7, da Rússia com 6 e da França com 5.

Não deixa de ser curioso que países com uma população reduzida, e alguns também de pequenas dimensões, consigam estar à frente de outros muito maiores e mais poderosos que sentem uma necessidade quase permanente de vincarem o seu nacionalismo e patriotismo. A Noruega tem apenas 5,379 milhões de nacionais, a Suécia, a Suíça e a Áustria têm menos de 10 milhões, os Países Baixos menos de 18 milhões, enquanto a China tem 1,4 mil milhões, a Rússia 144 milhões, os EUA 329 milhões. 

E se estabelecermos o paralelo com os Jogos Olímpico de Verão, em Tóquio, verificamos que aqui os EUA ficaram à frente tanto em medalhas de ouro (39) como no total (113), com a China em segundo lugar (38 ouro, 88 no total), surgindo logo a seguir o Japão (27 de ouro, 58 no total), a Grã-Bretanha (22 de ouro, 65 no total), a Rússia (20 de ouro, 71 no total), a Austrália (17 de ouro, 46 no total), os Países Baixos (10 de ouro, 36 no total) e a França (10 de ouro e 33 no total). 

Há, todavia, uma contabilidade que nestes tempos conturbados que atravessamos também não pode deixar de ser feita. Porque se a Guerra Fria ficou lá atrás, se não faz muito sentido ver estes números em termos de blocos e alianças, há, todavia, uma comparação que se torna inevitável, posto que é essa que já no presente define as nossas escolhas e estará cada vez mais presente no futuro.

Trata-se da contabilidade entre os resultados obtidos por países democráticos e não-democráticos ou autocráticos. Por mais que nos tentem atirar areia para os olhos, ditaduras e totalitarismos não são conceitos diferentes de democracia. Não é possível falar de liberdade onde os nossos passos são permanentemente vigiados, seguidos e controlados, o acesso à informação é limitado, a liberdade de imprensa não existe, onde não é permitido o livre exercício de direitos básicos fundamentais consagrados internacionalmente, o número de filhos é controlado pelo Estado, onde é impossível afastar os incompetentes que exercem o mando e criticar o partido no poder ou o seu líder é um crime contra a segurança nacional e dá direito a prisão.

E quanto à contabilidade medalhística entre as democracias e autocracias, a verdade é que as primeiras dão uma cabazada às segundas. Até para proporcionarem condições de treino. O que só prova que também no desporto é necessária a liberdade para se garantir a prevalência de bons resultados. Por mais bandeirinhas que se agitem, por mais esmagadora que seja a propaganda, ou por todos os dólares que selem a “amizade” com os responsáveis do COI.

12 comentários em “A liberdade melhora a performance desportiva das nações”

  1. Significativo como não usou a palavra Liberdade em vez de Democracia…
    Entretanto os jornalistas continuam a censurar o que se passa naquela Democracia no Canadá. Será para aí que também iremos parar…

  2. On February 24, 2020, a former judge of the Supreme Court of India, Justice Deepak Gupta, delivered a lecture to the Bar arguing that “the right to dissent is the most important right granted by the Constitution.”
    Gupta took the ancient idea of challenging authority and gave it dignity: “To question, to challenge, to verify, to ask for accountability from the government is the right of every citizen under the constitution,” he said. “These rights should never be taken away otherwise we will become an unquestioning moribund society, which will not be able to develop any further.”

    Canadian Prime Minister Justin Trudeau would have done well to study Gupta’s address. When he responded to truckers protesting vaccine mandates by saying they had “unacceptable views,” he was undermining the fundamental right to dissent. He was saying, in essence: You have no right to think this way.
    He could have argued against unacceptable actions, to the extent that those existed. But instead, he uttered two words that, more than any others, corrode free societies: “unacceptable views.”
    https://jewishjournal.com/commentary/columnist/editors-note/345227/the-decline-of-free-societies-is-rooted-in-these-two-words-from-justin-trudeau/

  3. Pois. É por isso que Portugal e Espanha, países onde existe a tal liberdade(?) vão buscar atletas a Cuba ( ditadura feroz ) para os nacionalizar à pressa e ganharem algumas medalhas. Com a liberdade que existe cá, salvo raríssimas e honrosas exceções. não há nada para ninguém. Quanto aos EUA é melhor lembrar que a grande porção de medalhas são dos Afro-Amerianos, que por sinal gozam da liberdade nas ….cadeias. Estão cheias deles.

  4. “A liberdade melhora a performance desportiva das nações”. Não é bem assim tendo em conta que o esquiador finlandês – talvez o da foto – só com as forças benéficas da natureza conseguiu endurecer o pau.
    https://24.sapo.pt/desporto/artigos/pequim2022-esquiador-finlandes-revela-ter-ficado-com-o-penis-congelado-numa-prova

    Eu sei que a democracia, introduzindo o feminismo, tudo tem feito para proporcionar que a malta fique com o pau mole.

  5. Deve ser uma grande chatice um país totalitário, ou melhor dizendo sem eleições com partidos políticos, obrigar a população a praticar desporto.
    Quer o Dubai e outros Emirados ou Cuba se tiverem êxitos no desporto serão sempre considerados para efeitos políticos, dado que não têm partidos políticos/eleições e não são democracias.
    Qual é a diferença fazer parte da politica governamental o desporto escolar na Bielorrússia e a Finlândia, e, depois, serem escolhidos os melhores para continuar e mais tarde seleccionados para os Jogos Olímpicos?

    1. A ignorância é má, mas a ignorância atrevida é ainda pior. Em Cuba há partidos! E há oposição, e crítica, e liberdade de imprensa, e protestos. O que não há são as chamadas “eleições liberais”, mas há eleições socialistas, onde se votam em listas de pessoas com grande ligação ao local onde são eleitas, e isso é de certa maneira muito mais representativo do que aquilo que temos cá com uma “elite” em listas fechadas de partidos completamente alheados das realidades locais e só focados em Lisboa e Porto e no caciquismo em torno de cada líder.

      Repare que não estou a elogiar o regime. Estou só a informá-lo de algo para o qual você revelou ignorância.
      Se fosse analisar o regime, eu, enquanto Social-Democrata apreciador do Modelo Nórdico, e portanto eleitor do BE, teria de começar por criticar o facto do governo ser baseado num partido único: o comunista defensor da Constituição. Mas repare bem, esta crítica é exatamente a mesma que se pode fazer aos EUA, pois também aí há um regime em que o governo é baseado num partido único: o capitalista defensor da respectiva Constituição.

      Aliás, até na propaganda se vê isto. Enquanto a fonte de mentira e manipulação chamada “imprensa livre americana” actua em total liberdade nas redes sociais, há órgãos de comunicação social bem mais sérios e honestos que são censurados ou “flag-ados” nas redes sociais. O resultado é que quando a CNN finalmente desistiu de difundir a mentira de regime de que os EUA tinham bombardeado terroristas do ISIS-K no Afeganistão, já eu sabia com 15 dias de antecedência (ou seja, no próprio dia do bombardeamento) que o alvo dos EUA foi civil: uma família cheia de crianças. Mais um crime de guerra… Eu fiquei a saber graças à TeleSUR, financiada por Venezuela e Cuba. Você continuou burro mais 15 dias graças à CNN financiada pelo establishment dos EUA. Quem é mais livre? Este exemplo já deu a resposta!

      Quanto ao que eu prefiro, sou mais adepto de modelos mistos, com os bons exemplos do Socialismo e os bons exemplos do Capitalismo. O Modelo Nórdico, com a sua Flexigurança, é isso mesmo. De um lado a segurança do Estado forte e de direitos laborais como a Regra de Ghent, do outro lado, a facilidade contratar/despedir e grande liberdade para o negócio.
      Este modelo misto funciona de forma exemplar, e quem lá vive recomenda-o!

      Aliás, a economia que será líder Mundial neste século, a China, tem um pragmatismo comparável pois diz na sua mais recente Constituição: não interessa se é Socialismo ou Capitalismo, interessa que funcione.
      A diferença para mim, é que eu, enquanto simpatizante de vários dos ideais do Liberalismo Clássico (não confundir com a Iniciativa NEOliberal, pois o Liberalismo clássico é algo que em maior ou menor grau está na base do programa vivo (não no histórico) de todos os partidos portugueses dentro do arco da Constitucionalidade, ou seja, o Chega é a exceção) só posso ser crítico da realidade Orwelliana em que se tornou o regime de permanente vigilância da China.

      O problema é que na comparação entre mim (pessoa informada) e você (um desinformado como a maioria dos que se “informam” na TV/jornal generalista/mainstream), eu sei que os EUA são iguais à China, enquanto você e outros ingénuos sofredores de lavagem cerebral acham que os EUA são um “exemplo de liberdade”… Então não são? O Assange e o Snowden que o digam… se sobreviverem.

      E a UE vai a passos largos por este mau caminho… repare que um dos pilares do projecto OrdoLiberal Europeu é a “liberdade” de transferir dinheiro sem escrutínio de e para offshores, não é o Estado Social (o qual aliás serve para recebermos castigos e puxões de orelhas devido aos “elevados custos” incompatíveis com a nossa permanência no €uro). Isto é liberdade? Para quem?

      Finalizo com um facto disponível no site Pordata: antes do €uro haviam 3,7 milhões de portugueses em pobreza (antes de apoios sociais), agora, após 20 anos de €uro, liberalização, privatizações, ataques aos direitos laborais, e cativação do investimento, esse nº passou para 4,3 milhões. É um “sucesso” do caraças desta nossa “democracia” europeísta/€urocorna.
      Depois, como já alguém aqui disse, é só encomendar um Pichardo de Cuba, e cá está a medalha de ouro… Ai se a falta de vergonha matasse! Eram só €urocornos e NATOm*rdas por aí deitados.

  6. Ganhou o país que é realmente democrático (pois é soberano) e resultado do que Portugal seria também se fosse governado pelo BE. A Noruega tem muito estado, muitos direitos laborais, muita distribuição de riqueza, é intolerante para com o patronato facho, tem moeda própria, está fora da UE, e não tem um offshore. E no caso da Suécia, para além de tudo isso, tem a diferença de estar dentro da UE mas felizmente fora da NATO.
    Ah, e ambos com Regra de Ghent que leva a percentagens de sindicalizados 6x a 7x mais alta que em Portugal. Por cá, se o BE propuser algo assim, até “estalinista” lhe chamam. Aliás, para o fachedo tuga (“elite” do PS incluída) lhe chamar isso, basta o BE propor coisas bem mais moderadas, como um salário mínimo que não seja de miséria, a recuperação de direitos e rendimentos laborais pré-troika, salvar o SNS, triplicar investimento público, ou renacionalizar coisas que noutros países nunca foram privatizadas (como REN, ANA, e CTT).
    E nenhum desses países compactua com a existência de presos políticos ou perseguição a jornalistas, como os EUA/NATO fazem com os denunciantes Snowden e Assange.
    A Noruega é tão exemplar que foi o país que recusou fazer bullying à Venezuela e serviu de moderador entre governo e oposição, contribuindo para a solução ao contrário de uma Europa corrompida pelos intere$$e$ de Washington e vergada perante Trump, como se Maduro fosse o mal maior entre os dois.
    Ah, e ambos os países foram claros a criticar os presos políticos em Espanha, ao contrário de Portugal.
    Por falar em Portugal, é um país a caminho de ser uma colónia de Washington e Frankfurt, com CNN e CM”foxnews”TV e sempre com a mesma manipulação e opinadores do costume, em vez de jornalismo independente e garante da democracia. Vai correr tão bem…
    Mas desta contabilidade, nem uma palavra. Não interessa à facharia tuga, que vai desde os iludidos do PS, aos radicais da IL e aos trambolhos do CH, passando pelos envergonhados sem-vergonha do PSD. É que não se aproveita um…
    Depois de 30 anos a liberalizar, a privatizar, a desregular, a atacar quem trabalha, e com moeda estrangeira que nos prejudica, os ignorantes (não percebendo que a ditadurandas “regras” do €uro só beneficia uma “elite” rentista) insistem em mais uma década com a mesma receita. Quando o BCE voltar à estupidez como fez em 2010-2011, depois digam que a culpa é do Sócrates, que não foram avisados, e que quem propõe o regresso à normalidade (país com moeda própria, tal como Noruega, Suécia, Dinamarca, etc) é “estalinista” e é quem apoia os piores regimes…
    Mas felizmente a vossa estupidez já não me prejudica mais. Emigrei para um desses países exemplares, e com bilhete só de ida.
    F*dei-vos uns aos outros, que a mim não me f*deis mais!

    1. “Europa vergada perante…Trump” ?! Nada podia estar mais longe da verdade o “establishment” e a cleptocracia europeia (maioritáriamente não-eleita, ao contrário dele) tudo fizeram para deturpar, denegrir, diminuir, desacreditar, sabotar a administração americana do dito cujo cabeça laranja.
      Quiçá porque… (também) Ucrânia ?
      Não era ele o presidente que “ia lançar a 3ªGuerra Mundial” ?
      Agora, aguentem-se.

  7. nao sei se é o Autor a sugerir, se eu a imaginar, jogos para pobres e jogos para ricos, para democraticos, assim assim e os nao.

    gostei da clareza, evidencia da ideologia : o numero de filhos é controlado pelo estado.
    Nao prefiro os que acham que parir deve ser animalesco, irresponsavel.

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