A importância de ser um guru capaz de prever os cataclismos


Pedro Correia,

 

O que Nouriel Roubini disse sobre a crise em geral e Portugal em particular:

 

Julho de 2009

O pior da crise já está para trás: recessão acaba este ano.

 

Junho de 2011

Uma “tempestade perfeita” pode afectar a economia mundial a partir de 2013. (…) Dívidas da Grécia, da Irlanda e de Portugal precisam de ser reestruturadas o mais rápido possível. Adiar essa decisão pode resultar num processo de default mais desordenado.

 

Junho de 2011

A zona euro encaminha-se para uma ruptura, com a saída dos membros mais fracos, incluindo Portugal, com a actual abordagem à crise.

 

Setembro de 2011

Portugal e Grécia são os países da zona euro com maior probabilidade de abandonar a moeda única, podendo fazê-lo num horizonte de três a cinco anos.

 

Setembro de 2011

A zona euro é uma fonte de risco sistémico. Se existir uma situação de desordem na zona euro, será pior que o Lehman Brothers.

 

Março de 2012

A Grécia sairá da zona euro, talvez no início de 2013. Portugal também pode abandonar a moeda única.

 

Julho de 2012

Hipóteses de Portugal e Grécia saírem do euro é de 85%

 

Julho de 2012

Zona euro vai desmoronar-se dentro de seis meses

 

Setembro de 2013

Se o Tribunal Constitucional chumbar mais medidas no corte da despesa em Portugal, um segundo resgate pode ser inevitável.

 

Novembro de 2013

A dívida de Portugal precisará de uma reestruturação. A situação de Espanha é insustentável.

 

 

O que o mesmo especialista diz agora (teme-se o pior):

 

Janeiro de 2014

A zona euro já está no ponto de viragem no que toca à superação da crise das dívidas soberanas na região e os riscos de um país abandonar o euro são hoje menores. O pior da crise já passou.

 

Gravura: “quadradinho” do álbum Le Devin, de Astérix (Uderzo/Goscinny)

20 comentários em “A importância de ser um guru capaz de prever os cataclismos”

  1. Um que dizia que havia vida para além do défice declarou hoje que Portugal se encontra perante uma pesada encruzilhada.

      1. Isso já não sei ao certo. Só sei o que assinalei porque é título de jornal. Quando começa a falar e se enreda em discursos enovelados, intermináveis e sem ponta por onde se lhes pegue, rapidamente desligo.

  2. Os comentários de N. Rubini, analisados com referência à data da sua publicação, até não estão mal de todo.
    Repare-se que a recente, monumental, reviravolta completa do PR Hollande restabeleceu o indispensável núcleo duro da “Euro”, França – Alemanha, até ali em verificável instabilidade.
    Não há nada como um susto na própria casa, “no pun intended “, para levar o PR Hollande a tentar salvar-se, salvando o Euro….

  3. Heheh.

    O “pior da crise já passou” mas as dívidas continuam aumentar…é possível tudo e o seu contrário…

  4. Eu não subestimaria Roubini. Conheci-o aquando da sua vinda a Portugal em Setembro de 2013 e fiquei muito bem impressionado com os seus profundos conhecimentos da situação económica mundial. Vi que não tinha sido por acaso que tinha previsto a crise de 2007.

    Em relação ao euro, o mesmo tem falhas estruturais que são por todos conhecidas. Só que o facto de o mesmo se desintegrar não depende apenas dessas mas também da vontade política de os países nele permanecerem e da capacidade da sua população suportar os sacrifícios. E essas são imprevisíveis. Quanto a Portugal, Roubini limitou-se a dizer que uma decisão negativa do Tribunal Constitucional aumentaria os riscos de um segundo resgate, o que penso que ninguém contestou.

    Em qualquer caso, em Setembro de 2013 Roubini anunciou também que a economia chinesa estava com valores insustentáveis e que iria ter que ajustar em breve. Só não sabia se teria uma aterragem suave ou uma queda abrupta. Vejam agora esta notícia do Financial Times
    http://www.ft.com/intl/cms/s/0/4e80205a-872c-11e3-ba87-00144feab7de.html#axzz2riymVnf9

    Em conclusão, Roubini não é Nostradamus, mas também não é o adivinho de Astérix.

    1. Eu escutei-o atentamente nas Conferências do Estoril, em 2011, e gostei das pistas de reflexão que lançou ao auditório. Acho, no entanto, que se convenceu de que era mesmo um visionário por tanto ter sido incensado em milhares de peças jornalísticas nunca sujeitas a contraditório. Estas coisas, Luís, provocam sempre efeitos secundários em qualquer ego de aquém e além-mar. Relidas hoje, algumas das previsões que fez, em tom tão categórico e calendário anexado, soam a pouco mais do que as eternas catilinárias de Medina Carreira na TVI 24.

  5. O que me faz pensar muitas vezes nestas previsões de académicos é que elas parecem-me mais ao serviço de ideologias do que tratamento isento dos factos, não fazem exposição das probabilidades dos vários cenários possíveis e escolhem o que é conforme ao que se adequa ao que defendem para justificarem as suas ideias ou preconceitos.

    1. Certos analistas especializam-se em prever tudo quanto há de pior – e transformam os maus agouros em imagem de marca, Carlos. As más notícias vendem sempre mais do que as boas.

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