A importância da caligrafia


Pedro Correia,

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Escrevi aqui há oito dias sobre a importância da escrita caligráfica como descoberta da história, dos outros e de nós próprios, lamentando que esta aprendizagem esteja em declínio acentuado nos sistemas de ensino contemporâneos, que privilegiam a escrita tipográfica, padronizada e uniforme.

Em países como a Finlândia as crianças já só aprendem as letras que estão pintadas no teclado do computador.

 

Anteontem, na página 2 do El País, a poetisa e dramaturga espanhola Ana Merino abordou o mesmo tema. Num excelente texto, intitulado “Caligrafia”, que nos faz reflectir sobre a importância da escrita manual, lembrando que “muitos dos documentos históricos que dão sentido ao nosso presente foram escritos” desta forma e tornam-se impossíveis de interpretar por gerações futuras, desprovidas de uma “habilidade que durante séculos foi pilar do conhecimento e da articulação do pensamento”.

E conclui deste modo, que passo a citar com a devida vénia e tradução da minha lavra: “O alfabeto caligráfico que cada indivíduo alberga compõe-se de traços subtis que representam um estilo próprio, uma peculiar e evidente marca da sua expressão pessoal. Saber escrever à mão com letra clara e legível deixou de ser prioridade em muitas escolas. Ser habilidoso no teclado é indubitavelmente necessário, mas não deve fazer-nos prescindir do minucioso processo da alfabetização e da caligrafia bem aprendida – essa arte que herdámos das escritas caligráficas dos últimos dois mil anos. Retirar aos nossos filhos a possibilidade de existirem na escrita caligráfica equivale a não ensiná-los a cozinhar, submetendo-os à comida industrial pré-cozinhada que se aquece no micro-ondas.”

 

Subscrevo, claro. Não por acaso, algumas das mais exigentes entrevistas de emprego incluem um exame grafológico. Ao contrário do que supõem certos pedagogos de turno, a escrita tem inequívocas características pessoais, revelando traços da personalidade de quem escreve. Tal como o estilo nos diz muito do essencial sobre um autor: escrever bem passa, desde logo, por evitar as frases sem artifícios, as frases já muito gastas, as frases de efeito fácil mas vazias de conteúdo.

Amputar as crianças da aprendizagem e desenvolvimento da caligrafia é, de algum modo, divorciá-las do passado. E, assim, estreitar-lhes o futuro.

40 comentários em “A importância da caligrafia”

  1. muitos dos documentos históricos que dão sentido ao nosso presente foram escritos desta forma e tornam-se impossíveis de interpretar por gerações futuras

    Isto faz tanto sentido como dizer que todos deveríamos aprender na escola a escrita hieroglífica dos egípcios antigos: muitos importantes textos históricos foram escritos nesses carateres e são impossíveis de interpretar para quem não os conheça.

    Os saberes antigos são assim: vão-se perdendo e, no futuro, passarão a ser conhecidos por somente alguns especialistas. É normal. A escrita caligráfica passará a ser somente conhecida por alguns especialistas, da mesma forma que a escrita dos antigos egípcios taambém só é conhecida por alguns especialistas.

    É o progresso. E eu sou um progressista.

  2. No meu tempo…
    No meu tempo havia coisas boas e coisas más. Havia repressão e não havia liberdade, se bem que uma criança até aos 12 anos não abrange a noção do que é uma mordaça totalitária. Tem a sua rotina. Levanta -se, reza, toma o desjejum, pega na sacola preparada de véspera e abala para a escola. Para aprender. Para saber. Nunca tive professoras más, apenas exigentes e meticulosas. Apanhei algumas reguadas, mas sempre pensei que faziam parte do processo. Nunca me cairam as mãos. Acabei a quarta classe com uma bagagem de conhecimento muito superior ao que se ministra presentemente a nível de nono ano. Sei que é assim. Tive duas filhas na Universidade.
    Sempre gostei de ajudar e aprender e pasmava como alguém poderia escrever tão mal a todos os níveis. Lembrei-me dos trabalhos de casa que trazia e não podia descurar, com os caderninhos de significados e os de duas linhas onde a professora escrevia palavras elegantemente desenhadas, que tínhamos que copiar até à perfeição.
    As minhas filhas são doutoras. Deram erros ortográficos e gramaticais de bradar aos céus nas frequencias, nas teses, sei lá. Alguns trabalhos pareciam até tratados de paleografia e nunca, mas nunca algum professor se deu ao trabalho de as corrigir ou incentivar a melhorar . Universidades públicas, parideiras de doutores analfafetos… mais um paradoxo dos tempos modernos.

    1. Algumas correntes pedagógicas fazem tudo para não “sobrecarregar” crianças e jovens exigências educativas. Em nome do “prazer” e do “factor lúdico” da aprendizagem.
      Estes pedagogos da treta produzem multidões de analfabetos funcionais.

      1. Pedro, Pedro. …veja em que consiste o programa de Português do 10ano, na área de Ciências . A minha cunhada que é professora de português há 20 anos, por vezes até se baralha….aquilo é lixo….a “taxonomia” da disciplina de Português é mais complicada que o programa inteiro de Biologia. Isto na Área de Ciências!!

  3. Penso que os documentos históricos estão hoje melhor protegidos do que na Era do papiro e da folha de seda.

    Amputar as crianças da aprendizagem e desenvolvimento das competências informáticas é, de algum modo, divorciá-las do futuro.

    “escrita tem inequívocas características pessoais, revelando traços da personalidade de quem escreve”

    Como a Frenologia?

    “Saber escrever à mão com letra clara e legível deixou de ser prioridade em muitas escolas”

    Veja-se o caso de Fernando Pessoa…grande parte da sua obra, desse mago da palavra, é ilegível.

    O que nos define não é um modo de escrever. Mas o de pensar.

    1. Quem é que falou em “amputar as crianças da aprendizagem e desenvolvimento das competências informáticas”?
      A aprendizagem, para si, exclui em vez de incluir?

      Se a obra de Pessoa fosse “ilegível”, não tinha dado no que deu: uma obra conhecida, lida e admirada em todo o mundo.
      Em vida, ele apenas tinha publicado um livro – e uns quantos poemas em revistas avulsas. Sem a preciosa ajuda de especialistas em caligrafia, que decifraram milhares de páginas manuscritas, teria ficado por aí.

      1. A aprendizagem, para si, exclui em vez de incluir?

        Se a aprendizagem inclui algumas coisas, terá necessariamente que excluir outras, porque

        (1) o cérebro é finito,

        (2) o tempo para aprender é finito.

        As pessoas já hoje ficam na escola até aos 25 anos de idade. Se se quiser que elas aprendam cada vez mais coisas – todas elas coisas potencialmente muito úteis! – então ficarão na escola até que idade? A que idade poderão finalmente começar a trabalhar?

      2. Pedro deixe-me lá contrariá-lo….tenho que interpretar o meu papel de Vlad:

        O Livro do Desassossego é “o Grande Livro que diz que somos”, como leu Teresa Sobral Cunha (TSC) o difícil manuscrito recentemente re-decifrado por Jerónimo Pizarro.

        http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/o-grande-livro-de-fernando-pessoa=f820972

        Por exemplo, na frase onde Pizarro lê “marelante deste barco”, acha que Pessoa escreveu mesmo “mareante”. Mas aceita, entre outras, a sua correcção de uma expressão que vinha sendo treslida em sucessivas edições: “O Grande Livro como dizem os francezes”. Este é, aliás, um bom exemplo das dificuldades de leitura que se colocam aos que trabalham com o espólio pessoano. A expressão integra um parágrafo que o poeta escreveu à mão no final de um texto dactiloscrito. A edição de 1982 ignora todo o parágrafo. Em 1990, Teresa Sobral Cunha lê: “O Grande Livro que diz quem fomos”. Em 2008, a mesma investigadora propõe: “O Grande Livro que diz que somos”. Em 2009, Zenith opta por “O Grande Livro que diz que fomos”.

        https://www.publico.pt/2010/08/12/culturaipsilon/noticia/o-livro-que-nunca-existiu-263211

        1. Isso já é um desvio tão grande ao que Ana Merino escreveu – e ao meu ponto de partida – que não consigo acompanhá-lo.
          Mas haverá, estou certo, excelentes ocasiões para trocarmos aqui umas ideias sobre o ‘Livro do Desassossego’ nas suas não coincidentes versões e no seu texto definitivo sempre por fixar.
          Uma obra – noto – entretanto já tornada referência literária internacional. Não é só dos portugueses: é património universal.

    2. O que nos define é um todo de ” pesamentos, pavras e obras”, e não apenas o que pensamos.

      “Escrever é uma maneira de pensar que não se consegue pelo pensamento apenas. Todos os constrangimentos sintácticos e gramaticais da escrita, em vez de nos reprimirem, levam-nos a encontrar frases que não existiam antes de serem escritas, que não podiam existir de outra forma.”
      MEC

      1. Concordo em absoluto com o MEC, Dulce.
        Aqueles que hoje só conseguem escrever em maiúsculas, por exemplo (há cada vez mais disso), têm forçosamente um pensamento limitado. Porque o meio é a mensagem, já dizia o outro.
        Há uma correspondência natural entre pensamento e escrita. Diz-me como escreves, dir-te-ei quem és.

        1. Pedro para um futuro debate filosófico regado a Tinto (Bafarela 17,5′):

          Pode -se pensar sem símbolos?

          Por exemplo :

          A Meditação. Será um pensamento mergulhado no Nada, ou uma ausência de pensamento?

          1. Temo mais pelo fígado.

            Quando bebido, só, de noite,prefiro não falar mas andar comigo.

        1. Dizem que “pensar é triste”.

          O Steiner diz ainda que existem “10 razões possíveis para ta tristeza de pensamento”.
          Vale a pena ler.

  4. Pedro, a sua reflexão centra-se numa “especialidade” (digamos assim) da escrita.
    a aquisição dessa competência não me parece estar comprometida; o pensamento não fica limitado; isso aconteceria se não se escrevesse de todo.
    de facto, a caligrafia exige um controlo motriz muito rigoroso, pode servir para estudos de personalidade ou afins, mas a sua ausência não condicionará o pensamento.
    por outro lado, o que é referido sobre a prática diária, em sala de aula, nos primeiros anos do 1.º ciclo, é exatamente o oposto do que se vai depois classificar em situação de exame, no 9.º ano, em que existem critérios que avaliam a legibilidade da escrita (manuscrita) e a aplicação das suas regras base.
    a caligrafia está a tornar-se um domínio do desenho, está a deslocar-se, talvez, para a zona das Artes, essa coisa só para eleitos.
    e é mesmo uma pena.

    1. Cito-a, Cristina, também com a devida vénia: “A caligrafia está a tornar-se um domínio do desenho, está a deslocar-se, talvez, para a zona das Artes, essa coisa só para eleitos. E é mesmo uma pena.”

      1. A Califgrafia está associada à meditação na cultura sino-nipónico. É uma arte equiparada à pintura e poesia.

  5. Uma carta parece-me coisa mais pessoal e, nesse sentido ultrapassar um mail, ainda que o pensamento e as palavras por que é dito sejam os mesmos.

    Desenhar letras para alguém é do mais bonito que há. Sobretudo se elas letras se movem a ideias capazes de ligar emissor e receptor.

      1. O facto é que novas gerações recorrem muito pouco à escrita manual. De um modo geral, o que escrevem tem a ver com a actividade profissional ou de estudo e isso é tudo em formato electrónico (teclado). O que sobra? Uma lista de supermercado, uma mensagem de uma linha para a empregada, o preenchimento de um template com casinha para as letras … tudo o mais é no computador, ou no telemóvel, incluindo mensagens de amor e desamor. Mesmo quem tem actividade literária, excepto casos residuais de puro conservadorismo ou alergia à electrónica, rendeu-se aos computadores. Por isso, o desapego à caligrafia. Mas, sim, é uma pena e, obviamente, super concordo com o Pedro. Escrever “à mão”, com a letra única de cada um, é um enorme prazer. Tem a ver com o papel, a caneta, a cor da tinta, independente se a letra é boa ou má (e é cada vez pior …). A ligação entre o pensamento e a escrita caligráfica é incomparavelmente mais íntima, fluida, directa, eficaz. O esforço, muito menor. Eu seria incapaz de escrever uma página em letra de forma.

        1. Concordo consigo, Fátima: “A ligação entre o pensamento e a escrita caligráfica é incomparavelmente mais íntima, fluida, directa, eficaz.”
          Acresce que é única.
          Nestes tempos padronizados, uniformizados, em que as multinacionais da tecnologia nos querem pôr todos a “consumir” o mesmo e a pensar da mesma maneira, escrever à mão tornou-se quase um acto subversivo.
          Saudavelmente subversivo.

  6. E o que, em tempos, era surpreendente, por exemplo, receber uma carta manuscrita, o prazer que nos dava ler o sentimento de felicidade, de tristeza, de saudade, como ainda hoje quando me apetece , leio as cartas que tenho guardadas de quem esteve longe, ou até aquele papel que era deixado no móvel do quarto contendo os desabafos do pai para o filho a pedir perdão por algo menos bom.
    Observar uma caligrafia e associá-la àquela pessoa, aos seus feitos, aos seus sentimentos, é algo único e nosso.
    Há muitos anos, um professor chamou-me à atenção por escrever a letra “r” tipográfico maiúsculo. Habituara-me de tal forma que nem tinha consciência que era a única letra maiúscula que usava na escrita.
    Pediu-me que treinasse a letra minúscula e desde então passei a usá-la correctamente.
    Não sendo nada contra a escrita manual tipográfica, esses textos confundem-me.

  7. Caligrafia?!!! Ó caríssimo Pedro Correia, a coisa, nos dias que correm, já vai no pasmoso facto de poucos serem os alunos do 2º Ciclo do Ensino Básico que conseguem escrever uma palavra sobre uma linha: as palavrinhas (ou lá o que sejam) levitam, encavalitam-se às três e às quatro, ondeiam, fazem o pino e praticam o harakiri da lógica discursiva sem jamais tocarem nesse arame a que outrora se chamou “linha”. É o admirável mundo novo da alfabetização através do poema concretista-minimalista-contorcionista.

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