CSI original (2000)
Os ditames da correcção política têm levado as séries televisivas norte-americanas a distanciar-se progressivamente da realidade, criando um universo paralelo que só existe na tela e nada tem a ver com o mundo real. Serve de entretenimento, claro. Mas em nenhum momento sentimos que existe ali a amálgama de sangue, suor e lágrimas correspondente à vida de todos os dias. E em poucos domínios isso se verifica tanto como nas séries policiais.
Senti isso recentemente, ao ver há meses pela primeira vez as duas temporadas iniciais (2000-02) do tão celebrado CSI: Crime Scene Investigation – o genuíno, o de Las Vegas. Uma série inovadora por focar aspectos científicos e tecnológicos relacionados com a perícia forense, aliás depois repetidos até à náusea por um enxame de imitações muito inferiores.
CSI entrelaça habilmente as vidas de vítimas, criminosos e funcionários do laboratório policial da cidade, ressaltando dessa amálgama um curioso mosaico social. O problema é vermos esse mosaico distorcido pela ideologia: os criminosos são na esmagadora maioria homens brancos, de 30 a 45 anos, pertencentes à classe média-alta ou ricos. Matam em regra por cupidez, ganância, inveja. Em mais de 40 episódios destas duas temporadas só por duas vezes vi criminosos oriundos das chamadas minorias étnicas.
Lamento, mas o mundo não é assim – um mundo enxameado de assassinos brancos e tendencialmente milionários, não muito novos nem velhos. Este padrão de criminoso socialmente correcto, mais do que os prodígios tecnológicos destinados a esboçar a identidade de um homicida a partir de um cabelo plantado num soalho, fazem de CSI um produto distorcido, embora estimável.
Um Crime, Um Castigo: a diferença francesa
Nada a ver por exemplo com uma excelente série policial francesa que revi em simultâneo, na RTP 2 – canal que deste modo cumpre a sua missão de serviço público ao proporcionar-nos o acesso a produções fora do âmbito da indústria norte-americana. Refiro-me a Um Crime, Um Castigo (originalmente intitulada Engrenages), realizada entre 2005 e 2014.
Ao contrário da equipa chefiada pelo biólogo Gil Grissom na noite de Las Vegas, a brigada que tem como líder a capitã Laure Berthaud lida com todo o género de criminosos: residentes e imigrantes, velhos e novos, homens e mulheres, vagabundos, prostitutas, chulos e drogados, pessoas de todas as cores, de todas as classes e todas as crenças ou descrenças. É gente que anda por aí, nas esquinas de avenidas, ruas e vielas. Gente comum, surgindo no ecrã sem o absurdo espartilho imposto por sucessivas exclusões étnicas, religiosas ou de género que abre um abismo entre a televisão e a vida real nos Estados Unidos.
Antes o panorama era diferente – algo bem demonstrado por séries como Hill Street Blues (1981-87), ainda realizadas longe das ameaças de boicotes e processos judiciais exercidas pelos influentes grupos de pressão que hoje condicionam os estúdios cinematográficos e televisivos norte-americanos, onde funcionam como comissões de censura prévia, impondo um monolítico padrão de mau – invariavelmente WASP [White, Anglo-Saxon, Protestant].
Os Sopranos (1999-2007) foi talvez a última grande série norte-americana capaz de enfrentar com êxito estes poderosos lóbis que patrulham a escrita, realização e actuação televisiva nos Estados Unidos. Ali havia assassinos que “vinham de baixo”, falavam inglês com sotaque e matavam porque o mal é intrínseco à natureza humana, ao contrário do que apregoam os novos teólogos da ideologia socialmente correcta.
Que o digam Laure e os tenentes Gilou e Tintin: eles enfrentam marginais de carne e osso, não apenas as caricaturas de conveniência que a cartilha impõe.

![csi2b2blas2bvegas2bseason2b4[1].jpg csi2b2blas2bvegas2bseason2b4[1].jpg](http://5.fotos.web.sapo.io/i/Bb71349ac/19699947_RQW6Y.jpeg)
![engrenages[1].jpg engrenages[1].jpg](http://0.fotos.web.sapo.io/i/Bd5132448/19699962_dBYzy.jpeg)
“Engrenages” é um grande título. Não sou especial apreciador de séries policiais, mas fiquei curioso.
Nunca fui especial fã de “CSI”; o aspecto tecnológico era interessante, mas tão exagerado que nem servia para especulação. No entanto, a franchise (designação horrível) deu-me duas pérolas que no seu tempo me divertiram mais do que a maioria das comédias televisivas: “CSI Miami”, com o inigualável Horatio Caine de David Caruso (a dada altura a série começou a parodiar-se a ela mesma, e foi tão bom); e “CSI Cyber”, inenarrável de tão má, cada episódio a debitar todos os clichés informáticos que se possam imaginar, com bons actores em desempenhos sofríveis e com guiões escritos por analfabetos digitais (por “infonabos”, para recuperar uma expressão feliz de um antigo professor meu). Foi tão mau, e tão bom, enquanto durou.
(e um dia destes terei mesmo de ver Os Sopranos)
Este policial francês é uma das melhores séries que vi até hoje, João. Garanto.
E, obviamente, recomendo-te ‘Os Sopranos’. Estão para a TV como ‘O Padrinho’ está para o cinema.
Eu também prefiro o CSI Miami precisamente por causa do David Caruso, que tive o prazer de conhecer como Detective John Kelly na série NYPD Blue e (fraqueza feminina) nunca mais esqueci.
Confesso não me lembrar se os criminosos eram maioritariamente WASP, mas como tenho vários DVD da série hei-de ir espreitar.
Também nunca segui Os Sopranos, penso que passaran numa altura em que eu quase não via televisão. Preciso colmatar essa falha…
🙂 Antonieta
Aqui divergimos, Antonieta. Nunca achei graça ao Caruso tira-os-óculos-põe-os-óculos e considero o CSI Miami um produto risível – só valeria mesmo como série de involuntária paródia aos policiais.
Em Miami, cidade com uma larguíssima população latino-americana, tornou-se ainda mais óbvia a rendição dos produtores da série aos dogmas da correcção política: pelo que fui vendo, em várias temporadas, raríssimo era o criminoso proveniente dessas comunidades.
Pois, acho que divergimos, Pedro.
Mas a verdade é que ele se deve ter divertido muito a fazer a série e eu diverti-me imenso a vê-lo, eh, quero dizer, a ver a série.
🙂 Antonieta
Excelente texto. Só não concordo quanto a Os Sopranos terem sido a última grande série norte-americana capaz de enfrentar os lóbis do politicamente correcto. Na TV por cabo (onde Os Sopranos nasceram) há vários exemplos posteriores. The Wire (não muito posterior, é verdade) está cheia de gente comum e apresenta imensos criminosos que não são WASP. Breaking Bad também é relativamente diversificada (afinal, passa-se no Novo México). E haverá outros exemplos (talvez Narcos, que ainda não vi. O grande problema é fora da TV por cabo ou por streaming. Aí sim, o politicamente correcto impera e a qualidade não abunda.
Quanto a Engrenages, tenho as duas primeiras temporadas para ver há uns três anos. Lembro-me de começar a ver o primeiro episódio e achar a câmara muito sacudida (tendência actual que abomino). Mas preciso de lhe dar nova hipótese.
Dá-lhe outra hipótese, José António. A série merece – por vários motivos, além dos já mencionados, que não interessa agora especificar.
Felizmente que a UE tem um estilo diferente. Mas não ignorar que as melhores e mais populares série que a tv tem são…americanas. (importa fazer a ressalva que os EUA “estendem-se” como que de Lisboa a Moscovo)
Claro, são as mais populares. Também o são, em larga medida, porque muita gente não vê mais nada. Há até quem julgue que nada mais existe para além das séries americanas e das telenovelas brasileiras.
Gostei sempre do CSI original. Foi canibalizado e tornou-se uma série de entretenimento como tantas outras.
Nos spin offs salva-se a fotografia. qualquer deles o pior. O último, o Cyber, é realmente mau demais.
Não conheço a série francesa, mas com tão boa crítica, merece umas horinhas no PC.
Já mencionei algumas vezes que prefiro as séries policiais britânicas. Melhores argumentos, excelentes interpretações e o ritmo dá-nos tempo para pensar, já para não falar na fotografia, que é excelente em quase todas elas. As de época, são deliciosas.
Tenho visto o Morse e sucedâneos. Produção de fins de 80 até quase ao virar do século, bastante fiel às novelas do Colin Dexter. Tem tudo. Oxford, música, assassínios, ainda muito longe do digital… vê-se bem.
Para mim , a última grande série ainda está para ser escrita, porque todas as acima mencionadas tiveram temporadas menos boas, alguns episódios mesmo maus… aguardemos portanto
Recomendo-lhe vivamente ‘Um Crime, um Castigo’, Dulce. Verá que gosta. Muito.
Servem como divertimento, conceda-se-lhes isso, essas séries onde pontificam instalações moderníssimas, laboratórios onde há equipamento para tudo a qualquer momento, recursos sem fim e programas informáticos que mais parecem vistosos e multicolores jogos de computador e que identificam um suspeito (ou provam-no culpado), num punhado de segundos e a partir de um pedaço de coisa nenhuma. Ou quase.
Depois vejo Midsomer Murders, ou a extraordinária verossimilhança dos inspectores Morse, Gently ou Vera, do mundo em que vivem, dos casos que resolvem, da forma como os resolvem (um telefone, um carro para as deslocações, e bom uso das célulazinhas cinzentas), e, em matéria também de séries policiais, sinto-me bastante feliz na minha anglofilia.
Costa
Também sou fã do inspector Morse, que aliás comecei a ver numa excelente série britânica chamada ‘Sweeney’. Mas esta francesa, ‘Engrenages’, é excepcional a vários títulos. Falta-me ver a quinta temporada, provavelmente a última. Consta que não haverá uma sexta.
O The Wire é de facto um mundo à parte. Tudo o resto é simplesmente demasiado plástico e politicamente correcto, demasiado previsível para um tipo perder tempo.
Lembro-me de ler num fórum sobre uma série (que parece serve de exemplo como tantas outras) cujo o nome era Detroit 1-8-7. Uma das criticas apontadas era por aquilo que aponta e bem no seu texto, numa cidade de maioria negra quase todos os crimes eram apresentados na serie como sendo cometidos por homens brancos.
Noutro tom politicamente correcto, ainda ontem estava a reparar que os papeis para o homem negro no caso de representar um alto oficial do governo, só podem ser desempenhados por figuras fortes fisicamente, com um inglês correctíssimo e com mais alto curriculum – de preferência background militar. O Harry Lennix é uma das escolhas de proa, por exemplo. Teria muito mais “graça” um personagem menos polido.
Segundo a bitola actual, dois terços dos filmes do John Ford nunca teriam sido realizados. É aterrador pensarmos nisto. Desde logo como um atentado manifesto à liberdade artística e à liberdade de expressão.
The wire – Sob escuta, em português, da HBO que passou no canal MOV foi sem dúvida, para mim a melhor série que passou na TV. Sem nenhum desses estereótipos de que fala.
Paradoxalmente, talvez a menos vista tal como as que vão passando na RTP 2.
Essa série nunca vi. Só posso portanto pronunciar-me pelo que conheço. Mas lá está: talvez por isso seja tão pouco exibida.
Dificilmente repetível, a qualidade do The Wire.
The Wire é uma obra prima por explicar as contradições da psicologia humana , tõ cheia de pecados como de fragilidades, seja branca ou negra, ou de quais quer matizes. E tem a coragem politica de por em causa a capacidade das instituições e das politicas o costume, sem esconder as razões económicas e sociais e sociais da miséria moral. Vem algo na senda de Hill Street , porém melhor, muito melhor. Talvez, com Breaking Bad e Sopranos, as melhores séries de crime de sempre. Quanto ao ao CSI é um franchise plástico e previsível.