Apesar da aparente unanimidade relativa à recente polémica sobre os alojamentos dos trabalhadores temporários das explorações agrícolas intensivas, a questão encaixa no que podemos apelidar “a hora da indignação”.
Li numa das várias reportagens que têm sido feitas sobre o assunto nos últimos anos, que ao perguntarem a um desses trabalhadores o que achava das condições em que vivia, e ele terá respondido que eram boas, especialmente comparando com as que tinha junto da sua família. Assim, sem mais enquadramentos, se não existisse no concelho de Odemira procura de mão-de-obra agrícola, não seria improvável que aquele trabalhador especifico estivesse a viver no seu país de origem, em piores condições do que ali, e sem que a sua família pudesse auferir das transferências que ele lhe envia.
Como se ninguém antes conhecesse aquela realidade, agora, que são a sensação da semana em todos os noticiários, convencionou-se chamar-se estes trabalhadores de invisíveis. Se os mirtilos, framboesas, morangos e demais frutos vermelhos que dão cor aos pequenos almoços das cavalonas do Instagram fossem produzidos noutras paragens, ninguém em Portugal estaria a falar neles. Por isso, acho que a proclamada indignação perante tudo isto resulta, mais do que outra coisa, de isto se passar em Portugal. Claro que é, dirão. Mas então onde é que está a indignação para com as condições de trabalho dos operários que produzem os processadores dos nossos computadores, os leds que iluminam a nossa cozinha e os brinquedos com que as nossas escassas crianças brincam?
Há umas décadas atrás, estudava-se nas disciplinas ligadas à economia um conceito que hoje está fora de moda, e que é o dumping social. Segundo o que então se estudava, essa prática consistia em obter vantagem competitiva a partir da falta de condições dadas aos trabalhadores. Hoje em dia, o não cumprimento das condições de trabalho que são exigidas na UE esgota-se no singelo conceito de competitividade. Isso é uma consequência da globalização e da transferência de uma imensidão de indústrias para o Extremo Oriente. E, estando longe da vista, está igualmente longe do coração. Acabamos por não ter de pensar que aquele custo de produção não seria possível sem operários a viver em condições piores que as de Odemira, e ainda por cima com os trabalhadores a serem controlados por um algoritmo totalitário, com piores remunerações e a conviver com todo o tipo de poluição.
Cresci a ouvir relatos na primeira pessoa dos portugueses que chegavam de noite a Champigny-sur-Marne, dormiam no meio da lama e dos ratos e todas as madrugadas eram contratados para trabalhar ao dia. Hoje os seus filhos não aceitariam essas condições, mas sem que alguém já tivesse passado por isso poderiam ser eles a estar nessa situação.
O mundo é desigual, mas o que mata é a pobreza e não a desigualdade. Sendo nós inquestionavelmente iguais na dignidade, temos expectativas desiguais. Por isso alguns de nós aceitam coisas que outros nunca chegariam a considerar.
Depois de se indignarem com os abusos do grande capital, os indignados com a polémica da semana em breve puxarão pelo comando remoto do seu televisor, que está ligado à router do seu fornecedor de telecomunicações e navegarão pela imensidão da rede. Quando quiserem desentorpecer as pernas, irão ao frigorífico, e em jeito de boicote trocarão os frutos vermelhos pelos tropicais. Às 23:00 acaba a hora da indignação, e depois disso,tudo regressará à normalidade.

pequenos almoços das cavalonas do Instagram


Infelizmente, tem razão, daqui a uns dias o assunto morre. E as más condições repetem-se. E falou de tanta gente que trabalha em condições piores do que aqueles trabalhadores. É verdade. Como é verdade que, para termos vestuário barato ele é feito na Ásia ou por aí onde a mão de obra é muito mais barata e deve raiar a escravatura. E quem diz vestuário diz tanta outra coisa. Também é verdade que as exigências de uns não são iguais às de outros. Como é verdade o muito que sofreram os nossos emigrantes em França. Mas nada disso fará com que eu pense que quem recebe trabalhadores no seu país os pode receber de qualquer maneira e sem condições de higiene. Repetir o sofrimento dos portugueses no século passado em França (por exemplo) digo eu que é muito mau, esse é o exemplo que queremos erradicar. Conseguir lucro dessa forma que desrespeita a humanidade de cada um, está mal. Em Portugal ou onde for.
Não creio que esteja indignada, todos sabemos da existência dessa gente. Que não vive apenas em Odemira. Estou só desanimada com a nossa democracia e os nossos democratas.
Não temos a menor capacidade de exigir que os produtos que importamos, sejam produzidos nas condições de trabalho que consideramos básicas dentro do nosso espaço económico. Além disso, no fim do dia todos acabamos por escolher os bens mais adequados às nossas necessidades e posses. Por mais voltas ideológicas que se deem, é a lei da oferta e da procura, que leva a que desconhecidos colaborem na produção de um artigo simples como um lápis. Encontrará várias explicações no youtube com esse exemplo.
A nossa democracia e os nossos democratas vivem em cima de uma retórica de circuito fechado. Alimentam uma poesia bonita de ouvir, mas depois, quando olhamos para a realidade ficamos facilmente desanimados, e evitar isso, só o cepticismo nos pode acudir.
Tem razão: “A nossa democracia e os nossos democratas vivem em cima de uma retórica de circuito fechado. Alimentam uma poesia bonita de ouvir, mas depois, quando olhamos para a realidade ficamos facilmente desanimados, e evitar isso, só o cepticismo nos pode acudir”.
Mas por vezes faz o mesmo, este blog é o seu mundo, um circuito fechado. Somos todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros, sempre foi assim e será. E os beneficiados dificilmente vêm criticar isso. E como saberá a realidade é o que a comunicação social mostra, o que eles ocultam não existe, não aconteceu. A maior parte as pessoas não fica desanimada com a realidade pois desconhecem-na, ela é ocultada e mostram-nos a realidade tipo “Alice no país das maravilhas”.
Como é que a lei da oferta e da procura levou à invenção dos computadores pessoais (ou da internet, ou qualquer outra novidade) e à sua difusão? Não levou e não podia levar, já que a procura era zero. É sempre preciso que um grupo de pessoas altamente qualificadas e muito bem informadas (não é nunca o Zé Ninguém) tenha decidido inventar as máquinas, as técnicas subjacentes (aquilo a que as pessoas chamam tecnologia) e a organização social necessárias criando assim uma oferta e assim construindo passo a passo uma nova necessidade. Antes disso, e sem tudo isso, o computador pessoal era apenas uma solução para um problema inexistente. Tudo na economia e na sociedade é moldado por uma classe, que poderíamos apelidar de elite, é ela que constrói o enquadramento tecno-sócio-económico sem o qual a dita “lei” da oferta e da procura não poderia operar. Esse enquadramento inclui também as leis e as regras que regulam o trabalho e as suas condições de exercício. Quando casos de gente a trabalhar em condições desumanas se generalizam, desde os países pobres até aos àqueles onde se concentra a riqueza mundial, é porque o enquadramento legal criado pela elita acima mencionada o permite e encoraja. A “lei” da oferta e da procura e o Zé Ninguém têm as costas largas.
É mesmo, “a hora da indignação”. Alguns não perceberam que invisível é tudo o que não aparece na comunicação social. O problema é compreenderem isto!
Disse: Estou só desanimada com a nossa democracia e os nossos democratas. Mas falta dizer que estamos desanimados com o povo pois os outros vieram do povo. Além disso sabemos que o povo gosta de futebol, “futebol”, “futebol”.
Temos “meio mundo a enganar outro meio”.
Você chama-lhe hora da indignação, eu chamo-lhe hora da hipocrisia. E a prova é que você faz um texto inteiro a falar sobre Odemira e nem uma linha sobre o cordão sanitário, sobre o surto ou sobre a relevância das medidas estúpidas e parvas a que sujeitaram as populações locais.
O cordão sanitário é que desencadeou a indignação. O postal não é sobre as medidas anti-covid. A indignação é passageira, é como um fato para ocasiões especiais, e a hipocrisia é permanente, pois sem ela não podiam de mudar de fato tantas vezes. Noutras ocasiões vestem os fato da preocupação, da solidariedade, do apego à ética, do combate à corrupção e por ai a fora. E isso é normal.
Há mais de um ano que estamos em pandemia. Grupos superiores a seis pessoas eram logo vitimas do excessivo zelo das polícias.
Em Odemira há casas com mais de vinte pessoas. Nunca ninguém viu nada? Nunca ninguém bufou para a polícia?
Agora que foi lá a televisão é que a malta fica indignada?
Espero que resolvam depressa o surto de covid para acabar o cerco sanitário e tudo voltar ao normal.
“Iam bufar para a polícia” quem? Os habitantes locais que exploram os imigrantes? Os que cobram as “rendas”?
Por isso é que isto é tudo uma hipocrisia, para que é a indignação se toda a gente sabia o que se estava a passar?
Passei uns dias na Zambujeira no verão passado.
Existe no meio da aldeia um campo de futebol de cinco/sete, onde costumava jogar com os meus miúdos.
Pelas 19.00 horas reuniam-se naquele campo uma dúzia e meia de nepaleses/indostânicos para jogar futebol.
Passados alguns dias vedaram o campo com as fitinhas da Protecção Civil.
É claro que todos sabem isto tudo.
“Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele.”
Deixe lá, quando acabar o cerco sanitário acaba a indignação e fica tudo bem.
“cavalonas do instagram”

Dava uma bela rubrica semanal aqui no blog.
À sexta-feira, graças ao esforço e dedicação do Pedro Correia, temos algo parecido, embora sem frutos vermelhos.
Se for preciso arranjam-se umas “moranguitas”. Não quero que falte nada.
Só de ler o título… é um novo mundo que se abre
Nesta história de Odemira e do conflito com o Zmar, o que me salta aos olhos é a ironia da situação: de um lado, gente (trabalhadores temporários) forçada a viver em barracões sem grandes condições de habitabilidade; e do outro, gente feliz por habitar em bungalows, estruturas temporárias construídas com materiais sustentáveis que pouco mais são do que… barracões.
Bem visto. E até se pode acrescentar uma pincelada. Os barracões dos ricos estão falidos e nos outros trabalha-se e ganha-se dinheiro. Parece Portugal vs Países em vias de desenvolvimento.
Muito bem observado!
É como aquela ponte cheia de rachas, um dia cai mas ninguém tinha dado pelo estado daquilo. No dia seguinte todas as pontes do país, mesmo as não construídas, são vistoriadas.
Depois da queda da ponte de Entre-os-Rios foram todas vistoriadas. E estão todas boas. Ponto final.
Esplêndido postal. E corajoso na na medida em que rema contra a maré.
“Hoje em dia, o não cumprimento das condições de trabalho que são exigidas na UE, esgota-se no singelo conceito de competitividade. E isso, é uma consequência da globalização e da transferência de uma imensidão de industrias para o extremo oriente.”
Esta verdade encerra uma das maiores contradições (ou hipocrisias) dos nossos tempos. Há anos a Europa representava 7% da população mundial, 25 % do PIB e 50% dos gastos sociais. É evidente que isto era insustentável a não ser em autarcia.
Ora a UE tem uma das suas bandeiras na previdência mas, simultaneamente, advoga a globalização sem restrições ao comércio mundial. Isto é suicida.
Pessoalmente, tenho a pior opinião dos economistas. Que estudaram e esqueceram o “dumping social”; que aceitaram o Euro sem prévia harmonização fiscal (um desastre anunciado); que vieram à televisão anunciar que íamos ficar todos ricos graças aos investimentos a fazer com o dinheiro dos gastos militares, para 2 ou 3 anos depois, na mesma televisão e com o mesmo ar seráfico, nos informarem que ficámos todos mais pobres porque, perdidos os mercados africanos, mais ninguém nos comprava o vinho e os têxteis de baixa qualidade; que, no que ao globalismo respeita, acolhem o neoliberalismo, esquecendo que, para o mercado funcionar e se obterem as vantagens do liberalismo, não podem existir distorções com é, patentemente, o “dumping social”.
P.S. – Como já por aqui defendi, a questão dos imigrantes sazonais (e outras) só teria uma solução com aplicação de princípios de justiça, com um aumento significativo do preço da produção agrícola. E isso, acho que ninguém quer.
Há algo de profundamente negativo que resulta desta história: os proprietários das cabanas de férias do Zmar que não aceitaram sequer a vizinhança com estes trabalhadores sazonais e cujo poder/influência conseguiu pôr o bastonário da Ordem dos Advogados mais preocupado com os “direirtos humanos” dos proprietários dessas cabanas do que com os direitos humanos relacionados com as condições de habitação destes desgraçados. E acrescento ainda que nada preocupou o bastonário da Ordem dos Advogados o facto de haver vários colegas seus a trabalhar para estas redes de imigração ilegal.
Suponho que também tem lá a sua casa e que de bom grado se sujeitaria a ser despejado para poder honrar os “direitos humanos” que alega.
Vender moral é bonito e fica bem na fotografia quando são outros a pagar a factura.
Grande Margaret Thatcher, Dama de Ferro : “The problem with socialism is that you eventually run out of other people’s money.” (o problema do socialismo é quando eventualmente acaba o dinheiro dos outros).
Não é este o mesmo governo que se gabava de num par de dias, ter montado os hospitais de campanha ? Desapareceram ?
Mas é bom que assim continuemos, talvez um dia os portugueses acordem para a ditadura em que vivem mergulhados, e anestesiados/ofuscados por uma imprensa totalmente controlada.
E ai de qualquer juiz ou Tribunal que se atreva a desafiar a narrativa!
Ainda nenhum jornalismo de investigação veio informar que estes casos não são exclusivos de Portugal na dita Europa civilizada?
E nada tem de original.
Estufas daquelas há milhares no sul da Espanha. Julgo que muitas estufas do sudoeste alentejano são de espanhóis ou dos donos das de Espanha que conseguiram “entrar” naquela zona protegida. Que nem sequer tinha população residente para oferta de emprego.
E cá temos produtos hortícolas, com peso nas exportações, com preços competitivos.
Pudera, é mais uma para juntar aquela ‘preços competitivos só com más condições de trabalho e baixos salários.
Aqui nem sequer se põe a questão da produtividade, aqueles trabalhadores podem nunca faltar e trabalhar 12 horas/dia que nunca terão um elevado grau de produtividade: a produtividade é medida pelo valor acrescentado.
Barracas e barracões, tudo não de uma grande barracada de um lado e de outro. E o desgraçado é que paga. Que o digam os primeiros que foram para França a viver nos bidonvilles, ( bairros de lata).
o post é, esforçando-me por ser simpatico, um apelo a nao fazer-se nada, deixar andar porque sempre foi assim.
Felizmente para o Paulo, e um reves durissimo para os direitos humanos, nesta questao universal, portugal devia levantar-se em peso e por ponto final naquilo.
Todos respirariamos alguma esperança.
Mas nao, e assim se confirma que enquanto for com os outros…
O que sugere não se faz porque daqui a um par de dias, outra polémica irá abafar esta. O governo parece que aprovou aqueles alojamentos temporários pelo prazo de dez anos. Até o assunto mudará de mãos e o marfim vai correndo.
O marfim irá correndo, mas o precedente está criado.
Há quem diga que a requisição abusiva do Zmar também se destinou a testar a indignação dos portugueses em preparação para um alargamento, e afinação de campanhas mitigatórias para a opinião pública a terem lugar na imprensa.