A guerra que Thatcher “inventou”


Pedro Correia,

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Estamos sempre a aprender. Acabo de escutar um historiador, em tom categórico e professoral, proclamar em horário nobre da televisão: “A senhora Thatcher, quando estava a braços com uma crise de agitação social na Inglaterra, inventou uma guerra, a guerra das Malvinas.”

Extraordinário doutor Fernando Rosas: folheando sabe-se lá quantos canhenhos empoeirados, só ele conseguiu descobrir que foi afinal a primeira-ministra Margaret Thatcher quem ordenou aos odiosos déspotas do regime militar de Buenos Aires – apoiados pelo ditador cubano Fidel Castro – para  invadirem o arquipélago das Malvinas no dia das mentiras de 1982.

A maquiavélica senhora precisava dessa invasão para “inventar uma guerra” que só poderia culminar com a vitória britânica, emulando o triunfo da Royal Navy sobre Bonaparte em Trafalgar, enquanto as massas ignaras entoavam o God Save the Queen.

Fiquei esmagado com tão eloquente demonstração de sapiência do reputado académico. E aqui venho inclinar-me em respeitosa vénia à sua luminosa e profícua erudição.

22 comentários em “A guerra que Thatcher “inventou””

    1. A Supremacismo Moral de proporções gigantes que um Marxista julga ter dá-lhe margem para exterminar classes sociais quanto mais mentir.

      E depois de o fazer ainda assim sair melhor na própria posição moral.

  1. Da Margaret Thatcher lembro-me:

    “There is no such thing as society.”

    “Former chief constable calls for public inquiry into Orgreave clashes and beyond

    Sir Peter Fahy joins call for public inquiry over 1980s ‘police army of occupation’ and agenda of Margaret Thatcher government”

    https://www.google.pt/amp/s/amp.theguardian.com/politics/2016/may/04/police-fahy-inquiry-1980s-miners-strike-scargill-orgreave-thatcher-hillsborough

    1. “There is no such thing as society.”

      É bem verdade — é uma construção Durkheimiana de inspiração tardo-bizantina. Subiu na minha consideração a velha bruxa.

    2. O longo consulado da Senhora. Tatcher, meu caro Vlad, transformou o Reino Unido no país deplorável que é hoje, dirigido por políticos de alto gabarito como a Sra. Theresa May e o seu bobo de estimação, o sempre hilariante Boris Johnson (com um Tony Blair como brilhantíssimo ponto de ligação), os quais pensam que ainda vivem no tempo do Raj, que a Federação Russa é a Argentina e que Putin é um qualquer Videla . Depois de Tatcher e das suas benfeitorias, só o Céu é o limite dos súbditos de Sua Majestade e dos seus magníficos governantes…
      Quanto às afinidades electivas da dita senhora, elas foram o paradigma da hipocrisia: ao mesmo tempo que fazia a guerra à ditatorial Junta argentina, recebia o apoio logístico para fazê-la do seu querido amigo Augusto Pinochet, um democrata de sólidos pergaminhos.
      A Senhora Tatcher estará hoje, certamente, no Céu, a jogar animadas partidas de “bridge” com o seu não menos animado comparsa de todas as horas, o ilustríssimo Ronald Reagan, tendo ambos a suave companhia de um senhor fardado e com óculos de sol. Quem lá não estará será, sem sombra de dúvida, Salvador Allende, pois é por demais sabido que todos os ateus vão para o Inferno

  2. Margaret Thatcher, essa sim, fez inclinar a Rússia. Isso é que Fernando Rosas não lhe perdoa. Foi o início do fim do leninismo, e mesmo do marxismo, que o outro já estava morto. Luta de classes, pum.

    Mas o sr. Rosas funciona a um só carburante: a luta de classes. Sem isso ele é nada. Tem de inventar, agora ele, luta de classes em tudo, pois é daí que há de vir a vitória, não se sabe bem de quê, mas é de esquerda.

    Ora então, se havia luta de classes em Inglaterra, naturalmente vencedora, como é que foi derrotada pelo liberalismo thatcheriano ? Coisa impensável !? Só por intervenção de qualquer coisa externa – e aí entra a dita invenção das Malvinas. É a única maneira de um marxista pleistocénico explicar a derrota da luta de classes pelo reles liberalismo.

    Só pergunto ao sr. Rosas: para que é que Theresa May inventou o gás Novichok em Salisbury ? Que foi invenção, não há dúvida. Que é uma artimanha liberal, também não. Só falta saber onde entra a luta de classes.

    A minha dúvida é se Santos Silva anda a ouvir demais o Rosas.

    1. Trafalgar ficou lá entre vírgulas, João. Não era para cantorias: era, quando muito, para súplicas: “Save Our Souls.”
      ‘God Save the Queen’ foi mesmo em 1982, com a Rainha Isabel no trono. Perante a exaltação patriótica suscitada pela guerra “que a senhora Thatcher inventou”. E que – ‘all’s well that ends well’ – pôs fim à repugnante ditadura militar argentina. Malhas que o império tece.

  3. O Doutor Historiador Fernando Rosas e o Doutor Sociólogo Boaventura Sousa Santos, são as mais ilustres personalidades intelectuais de Portugal…
    A inveja é vos faz falar!

    Amêndoas Doces

  4. O Historiador também é um contador de histórias. De histórias da história, claro. Neste caso particular deveria ter-se cingido apenas à história. Provavelmente viu muitas vezes “Wag the Dog” e aderiu à moral subliminar do filme ” if the dog does not wag the tail, the tail wags the dog…”
    Surely he needs a wag…

  5. Tenho sempre dificuldade em acreditar nos historiadores que em vez de relatarem a História, procuram que a mesma seja feita por eles… Fernando Rosas não é excepção e adquiriu aquela profissão tão portuguesa de “intelectual” (seja lá o que isso for) onde tudo lhe é permitido dizer desde que mantenha alguns círculos satisfeitos.

  6. Nunca ninguém aqui leu “Construir o Inimigo” de Umberto Eco?

    http://en.mercopress.com/2013/04/08/falklands-war-a-turning-point-for-margaret-thatcher-s-image-and-political-fortunes

    “When the head of Argentina’s military junta General Leopold Galtieri deployed military forces in the Falkland Islands, Britain assembled a task force to sail to the South Atlantic, to the astonishment of people in Britain, and the rest of the world.

    The crisis became a defining moment of Margaret Thatcher’s premiership, and changed her image and her political fortunes.

    Until then, April 2, 1982, opinion polls showed her to be the most unpopular Prime Minister ever. After British forces won the Falklands war, her popularity soared, allowing her to call a general election in 1983 which she won by a landslide.”

    https://www.theguardian.com/politics/2013/apr/09/margaret-thatcher-falklands-gamble

    “The Falklands war of April-June 1982 was the turning point in Mrs Thatcher’s premiership, indeed in her political career. The previous October, the Tory party conference had been alive with dissent. The so-called “wets” were openly conspiring against her. Bets were being taken against her surviving into the new year. Well behind in the polls and with the new Social Democratic party challenging both Labour and Conservatives, few believed Thatcher would ever lead her party to another election win.”

    “While Thatcher could hardly be held directly responsible for the Argentinian invasion, it was certainly the result of her style of rule and one-track approach to policy. She had failed to defend the islands from surprise attack and many in Argentina thought she had recklessly drawn the junta “on to the punch”. In her defence, Buenos Aires brought forward its plan when pre-empted by a wild-cat occupation of the neighbouring British island of South Georgia. But modern government is designed to monitor such crises. Lord Franks’s post-recapture exoneration of Thatcher’s role in the Falklands war was a whitewash.”

    Não há nada como uma guerra fácil de ganhar, um pouco de patriotice, e o aproveitamento propagandístico da nostalgia por um império perdido, para salvar um político odiado em queda livre nas sondagens. É claro que Thatcher não mandou os argentinos invadir as Malvinas, mas é preciso muita ingenuidade para pensar que ela não aproveitou a oportunidade para obter vantagens políticas. Não que eu pense, na lógica do realpolitik, que não fazer nada fosse exequível, pois teria dado uma ideia de fraqueza que teria acabado de uma vez por todas com a já debilitada Thatcher.

    Ainda mais ingénuo é pensar que Thatcher não era maquiavélica; que político desde Maquiavel não é maquiavélico? A política é a arte de conservar o poder; e a maneira como Thatcher lidou com a Guerra das Malvinas foi um exercício clássico de conservação de poder.

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