
O Rei Leão, espécime possante, oriundo dos vigorosos clãs das terras altas do Norte, vivido e sábio, encontrou território de caça pelas paragens inóspitas das sete colinas há mais de 50 anos, tomou como seu o moto verde da pradaria da reserva selvagem de Alvalade, e vai levando os seus dias entre muitos tormentos e poucas alegrias, mas sempre com o coração de Leão cheio daquele sentimento esmeralda, que torna as suas convicções cada vez mais fortes e inabaláveis. É o macho dominante, o protector e o líder do clã.
A Leoa nasceu alfacinha num quente dia de Agosto, sob o auspicioso signo de Leão. Pouco dada a clorofilas, tem sangue azul e é a mais ruidosa do grupo. Já viu melhores dias; já foi A Leoa por excelência, mas apesar de cada vez menos ágil, é excelente caçadora, tem o espírito indomável do antes quebrar do que torcer e orienta o covil com garra de ferro, caçando dia e noite para assegurar o conforto e subsistência do clã e deixando complacentemente ao Rei Leão a ilusão da autoridade, prestando submissa vassalagem entre patadas e rugidos, mas sempre (e tão ao jeito de boa fêmea) uns passinhos mais à frente do que o senhor seu soberano possa imaginar.
Do acasalamento destes portentosos felinos nasceram duas crias fêmeas, ambas fulvas e formidáveis, ambas geniosas, indomáveis e concretizadoras, ambas imbuídas do moto verde da pradaria selvagem que vive no coração de Leão do Rei seu pai, desprezando completamente o sangue azul da ascendência materna, porque também elas tomaram por companheiros jovens Leões da pradaria, movidos pelo mesmo sentimento que transforma derrotas em estrondosas vitórias e endurece o espírito, tornando-o impermeável a todas as misérias que lhes possam travar a caminhada ou inundar o percurso.Uma Leoa é sempre uma Leoa, mesmo quando está em minoria… mas como o clã é gregário e o seu bem-estar está acima de tudo e de todos, a Leoa irredutível vai amolecendo e dá por si a vibrar com o conjunto, a aplaudir algo que não aprecia muito, a rejubilar com as poucas alegrias, a consolar as muitas tristezas… em suma a afagar e lamber as feridas, como uma boa matriarca.
É então que os que estavam habituados a ouvir os seus rugidos à distância de quilómetros conseguem somente distinguir um miado tranquilo e um ronronar de felicidade de quem na vida cumpriu a sua missão.
Hoje é o dia da Leoa, a fêmea que é do signo de Leão.

Com esse feitiozinho eu não me admiro que você já tenha o sangue todo azul, fico admirado é por você ainda ter sangue.
Sabe que se diz por aí que a dor de cotovelo é excruciante? É não é?
Sangue azul não é para toda a gente, só para pessoas especiais. E depois o sangue azul também não é para andar por aí a embandeirar em arco…
“Ao fugir da própria vida
Sem correr e sem saltar
Oculto o sangue que tenho para dar”
Às litradas. Azul.
Por acaso é verdade, não é mesmo para toda a gente. Qualquer título de nobreza custa quase tanto como uma das minhas cuecas.
Coitadinhos dos pobrezinhos…
Você não se consegue conter, caramba. Bem como a inveja é verde, pelo menos é coerente com o tema.
PS. Isso de estar sempre a falar das suas cuecas, é um bocado OCD, não é?
Se não falar daquilo que não se vê ninguém fica a saber.
Você falou do sangue azul, eu falei das minhas cuecas, acho que estamos empatados.
Relativize que a vida são dois dias.
Ah, então as cuecas são invisíveis. Bem me parecia que a compulsão era grave. Também costuma conversar com elas e ter alucinações audiovisuais em que as suas cuecas são o John Travolta? “Night Fever, Night Feve-er”. Enfim…
Não me diga que você anda na rua com as cuecas à mostra?
Na praia, por exemplo, andamos todos em cuecas, ninguém esconde, ninguém se espanta. Não são algo que não se vê. Não são um órgão interno ou um conceito abstracto. Existem. No seu caso não sei, porque diz que não se vê. Serão talvez como o manto do Harry Potter, será o Carlos adepto da liberdade suspensa, sei lá. Você é uma pessoa muito estranha, sempre a meter os pés pelas mãos e depois queixa-se.