A falta que fazem os Jogos


Cristina Torrão,

Tóquio 2020.jpg

Não fosse a pandemia e ter-se-ia realizado ontem a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. E dei comigo a pensar que o cancelamento e/ou adiamento de eventos deste tipo podem ser bem mais prejudiciais do que pensamos.

No início do confinamento, ainda houve quem pensasse (eu incluída) que a Humanidade saísse reforçada desta crise. Seríamos levados a reflectir sobre os nossos hábitos e sobre aquilo que realmente queremos para o nosso mundo. Mera ilusão. A falta de contacto social e de convívio, o desespero e a insegurança, têm o efeito contrário, ou seja, a polarização e o radicalismo. Não mudámos nada desde a Idade Média, continuamos a acreditar naqueles que nos prometem fórmulas milagrosas. E continuamos a procurar bodes expiatórios, crendo em teorias da conspiração, como antigamente se acreditou que os judeus eram os culpados pela Peste Negra, pois teriam envenenado as fontes.

Eventos como os Jogos Olímpicos não deixam de ser polémicos, seja por implicarem custos astronómicos, seja por transmitirem uma harmonia mundial fictícia, seja pelos escândalos de doping. Penso, porém, que são responsáveis por um importante efeito psicológico. Em que outra cerimónia vemos quase todos os países do mundo a festejarem juntos? As imagens que nos chegam mostram pessoas de todas as nacionalidades e etnias em celebração e convívio. E nós, os do outro lado do ecrã, também vibramos, quanto mais não seja, quando o nosso próprio país entra no estádio, cheios de expectativa pelos resultados, mal podemos esperar pelas competições. Onde há aqui lugar para pensamentos negativos?

Os vencedores dão a volta ao estádio com a sua bandeira pelas costas e os espectadores seus compatriotas acham-se os melhores do mundo. Mas é uma alegria saudável, até porque é comum os detentores do pódio abraçarem-se, confraternizarem, juntando bandeiras das mais diversas origens. Assim como se vêem vencedores a consolar perdedores. E quantas vezes o estádio vibra com algum/a atleta, seja de que nacionalidade for, perante uma performance desportiva de excepção?

Penso que imagens dessas são importantes, não duvido que têm um efeito psicológico positivo. Certo, os racistas não deixam de o ser. Mas dão menos importância a essa sua característica, até a escondem, porque no fundo, sabem que está errada. É essa a mensagem dos Jogos. A pandemia, por outro lado, faz sobressair o ódio por aquilo que é diferente. Temos medo, queremos distância, centramo-nos na desgraça do nosso país sem ligar aos outros, procuramos bodes expiatórios, veneramos quem confirma certos comportamentos e tendências, que em situação normal, se desaprovam. A vergonha cai.

Também o adiamento do Campeonato Europeu de Futebol masculino para 2021 pode ser mais grave do que pensamos. Mau grado toda a corrupção existente no futebol, este é igualmente um evento que cria uma atmosfera muito especial, apesar das rivalidades. Quem não se lembra do ambiente de excepção (no bom sentido) gerado no nosso país, em 2004? Claro, há hooligans e cenas menos bonitas nos estádios. Também as existem nos Jogos Olímpicos (incluindo um grave atentado em Munique). No cômputo geral, porém, o resultado é francamente positivo. As imagens de eventos desportivos que juntam nações são uma espécie de pausa nos ódios e nos rancores. E pausas dessas fazem muita falta.

 

P.S. O próprio Festival da Eurovisão, odiado por tantos,  é bem mais benéfico para a saúde mental de milhões de pessoas do que se pensa.

3 comentários em “A falta que fazem os Jogos”

  1. “Os vencedores dão a volta ao estádio com a sua bandeira pelas costas”
    Este é o acontecimento que mais me impressiona mas pela negativa. Inclino-me para a fraternidade entre os homens, detesto identidades e nacionalismos. O entusiasmo exagerado com que se agarram á bandeira que não é mais que um pedaço de pano mas que simboliza uma identidade que me torna distinto dos outros humanos deixa-me uma impressão muito negativa. A atitude dos atletas e dos compatriotas roça (nem sempre mas frequentemente) as raias da loucura doentia. Bem como quando cantam o hino por vezes com um entusiasmo exacerbado dificilmente compatível com a igualdade entre os humanos. É impossível não pensar em certas cenas associadas ao futebol. Nós e os nossos acima de todos. Penso sempre que mostra que estamos ainda longe da fraternidade com que simpatizo profundamente.

  2. A sentido de partilha com toda a humanidade que o Jogos nos acrescentam, contrastam no instante seguinte, com um comentário aberrante numa rede social, ou numa qualquer esquina.
    A vida é também esse choque entre o maravilhoso e o abjecto.
    Sem dúvida que os Jogos nos fazem falta pelo que precisamos de positivo, até porque de misérias estamos todos aviados.

  3. Espero, por todas as razões e mais algumas, que tanto os Jogos Olímpicos como o Euro possam ser realizados. Tenho algumas dúvidas, embora as notícias sobre novos meicamentos, vacinas e até um eventual enfraquecimento do vírus nos dêm esperança.
    Mas espero também por uma questão de justiça. É que os japoneses já viram em tempos os Jogos que iam organizar ser cancelados por causa da Guerra, em 1940. É certo que o Japão também lá cometeu crimes atrozes, mas em 1940 ainda não tinha entrado no conflito, embora ocupasse parte da China. E agora não teve de todo responsabilidades. Seria um azar dos Távoras não os conseguirem realizar.
    O Europeu, apesar de tudo, como as sedes dos jogos este ano iam ser distribuídas por todo o continente, são mais facilmente resolúveis, e nunca darão os prejuízos que teriam se estivessem concetrados num único país. Mas espero sinceramente que tenham lugar, com todo o público possível.

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