A ética escondida atrás da sigla


Pedro Correia,

Confrontado com a polémica de que foi alvo, por perturbar o habitual tempo de antena que o canal público de televisão proporciona ao antecessor de Passos Coelho, José Rodrigues dos Santos respondeu com elevação e substância num longo texto que constitui uma lição de jornalismo.

«O entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva que está ali para oferecer um tempo de antena ao político. O entrevistador não é o “ponto” do teatro cuja função é dar deixas ao actor. Ele tem de fazer perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas para o entrevistado. Não deve combinar perguntas com os políticos, mas deve informá-lo dos temas. No acto da entrevista o entrevistado “puxa” pela sua faceta positiva e o entrevistador confronta-o com a sua faceta potencialmente negativa. Espera-se que o espectador veja as duas facetas», escreve Rodrigues dos Santos. Dando o nome e a cara.

Exactamente ao contrário do que fez uma autoproclamada Associação de Telespectadores, que se apressa a invocar palavras de grande peso, como ética e deontologia, num lamentável comunicado que procura tirar ao jornalista aquele que constitui o seu único poder: o da pergunta. E não existe mais nenhum.

Como ensinou Larry King — celebrizado durante um quarto de século de presença contínua na CNN — numa conferência em Portugal a que tive o prazer de assistir, um jornalista nunca esgota o cardápio das perguntas. “Quando não há outra, é sempre possível perguntar ‘porquê’? Podemos estar o dia inteiro a perguntar porquê.” E nenhuma pergunta pode ser confundida com “emboscada”.

Alguém faça o favor de explicar isto à putativa ATV. Eu não posso: simplesmente por ignorar quem sejam os catedráticos de jornalismo que integram esta associação de corajosa gente que insiste em dar sermões de “ética” aos outros sem assinar por baixo. Com nomes e rostos, não com uma sigla.

27 comentários em “A ética escondida atrás da sigla”

  1. O entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva

    Certamente. Só que, Sócrates não foi (segundo creio) convidado para uma entrevista, logo, José Rodrigues dos Santos não estava ali na qualidade de entrevistador. Pelo que, esta frase e as seguintes não se aplicam ao espaço televisivo em questão.

    Segundo creio (posso estar enganado), Sócrates foi convidado para um espaço de opinião. Aliás, nem faria sentido que ele fosse convidado para uma entrevista todas as semanas!

    É a mesma distinção entre convidar-se um indivíduo para dar uma entrevista a um jornal e convidar-se esse mesmo indivíduo para ter uma coluna de opinião nesse jornal. No primeiro caso há entrevistador, no segundo caso há, quanto muito, a especificação sobre o tema sobre o qual o indivíduo deve opinar.

    (Nota: não vi a “entrevista” em causa.)

    1. Não estava na qualidade de entrevistador, nem isso era necessário para fazer perguntas. Porque a pergunta é sempre natural na intervenção jornalística. Ainda ontem escutei JRS em diálogo com N Morais Sarmento, também num espaço de ‘análise política’ na RTP: o registo foi idêntico.
      Se a ideia é pôr ali um jornalista para enfeite ou centro de mesa, ao estilo ‘bibelot’, um jarrão chinês é capaz de ficar melhor.

  2. jor·na·lis·ta
    (francês journaliste)
    substantivo de dois géneros
    1. Pessoa que tem por profissão escrever em periódicos. = PERIODISTA
    2. Pessoa que tem por profissão trabalhar no domínio da informação, num órgão de informação social numa publicação periódica escrita ou na televisão, na rádio, na Internet.

    “jornalista”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/jornalista [consultado em 04-04-2014].

    A pessoa que exerce a sua profissão, neste caso no domínio da informação, está a ser abertamente acusada de exercê-la mal, ou seja, de não limitar a mesma informação que é suposto ser transmitida… tanto quanto consigo entender.
    Se percebi mal, alguém mais esclarecido do que eu faça a gentileza de me explicar como se eu tivesse 6 anos.
    Obrigada
    Maria Dulce Fernandes

    1. Não, Dulce, entendeu bem. É uma situação bizarra: um jornalista ser acusado de fazer perguntas, de procurar respostas, de tentar esclarecer questões mal esclarecidas.

      1. Preferia ter entendido mal, pois assim sendo, significa que o lápis vermelho continua a tentar filtrar as opiniões.
        Todos os comentadores de todos os canais são comentados nos seus comentários pelo jornalista (ou jornalistas) que conduz o programa. O diálogo entre o pivot neste caso e o comentador é frequentemente dinâmico e esclarecedor …
        Serão uns comentadores políticos mais iguais do que os outros só porque alguém acha que sim?

        PS.:Obrigada Pedro pela amabilidade e paciência. Bom fim de semana

  3. Esta polémica espantou-me – porque sempre entendi o papel dos jornalistas exactamente como o descreves – e preocupou-me porque revela bem até que ponto a confusão entre as várias formas de comunicação já minou a percepção que as pessoas têm sobre o que deve ser o jornalismo.

    1. Pois, Teresa. Quem sorrir muito, acenar com a cabeça, agir como um ‘bibelot’, olhar com ar de admiração para a pessoa que tem ao lado ou disser que é um “privilégio” tê-la ali recebe o aplauso daqueles que, como a anónima “ATV”, se arrogam o direito de dar lições de ética e deontologia profissional aos jornalistas como se estivesse mandatada para o efeito.
      Quem fizer perguntas – que é a missão número 1 de qualquer jornalista – é encarado quase como um delinquente. Por se limitar a cumprir o seu dever.

  4. É um caso que o futuro apresentará como plena bizarria, se alguma lucidez sobreviver, entre nós, a estes anos de chumbo, este de num estado dito democrático e do “primeiro mundo” alguém com o passado político e alegadamente académico, e as responsabilidades na desgraça vigente, de J. Sócrates ter ao seu dispor um espaço regular e em horário nobre na televisão pública. Chame-se-lhe o que se quiser: espaço de entrevista, de comentário, ou como será mais correcto de grosseiro derrame de fel.

    Só o terá – como só também por isso escapará impune perante uma justiça domesticada – por ser figura grada dessa entidade que se acha por direito divino detentora do poder, em Portugal, e destinada a fazer curvar perante si os portugueses. Um tal de “Partido Socialista”, a quem essa tal associação de telespectadores, decerto deve a origem e de quem será fiel instrumento.

    Costa

    1. Portugal, de facto, é caso único. Há uma enorme inflação de canais de notícias. E, nestes canais, há uma profusão de comentadores da actualidade política. Que, em grande parte, são políticos no activo – que durante o dia se destacam nessa qualidade e à noite se transfiguram em “analistas”. Sendo sempre parte interessada naquilo que comentam.
      Mais original ainda é a presença em estúdio, com cadência semanal, do primeiro-ministro derrotado nas últimas legislativas. Alguém imagina Zapatero como comentador da TVE, Sarkozy com presença regular a “analisar” a política na France 2 ou Tony Blair e Gordon Brown como comentadores da BBC? Claro que não.

      1. Dir-se-ia que um tipo de monopólio estatal da televisão ainda subsiste, mesmo que informalmente. A estação pública é o que é, nos seus diversos canais, as outras – e reporto-me sobretudo aqui aos canais de notícias (os outros são também o que são…) – manifestam um cuidado constante em ter na sua programação gente dos vários partidos, servida em doses generosas e comentando a política e a economia (ou o futebol, tão boa ou melhor forma de ser visto e ouvido).

        Para lá dos políticos “no activo”, com funções presentes, como o Pedro Correia indica, outros que no momento o não são. Como se as estações de televisão operassem também, em conjunto com as consagradas empresas do regime, como uma espécie de local de hibernação – apenas relativa – para quem espera a sua vez. Ou não pode deixar de dar regular sinal de vida.

        Se isto é apenas coincidência, se é apenas uma natural consequência de uma audiência televisiva especialmente ávida por política, se é apenas resultado de mais ninguém – além dos de sempre – se interessar em ter uma faceta televisiva, se é apenas mais barato do que outras opções de programação, ou se é uma forma de comprar a boa vontade do estado e dos partidos, uma espécie de apólice de seguro, numa promiscuidade e vassalagem indignas, não sei. Mas as suspeitas serão legítimas.

        Costa

        1. Sim. Como diz, nem apenas os políticos no activo compõem os painéis de “comentadores” que a todo o momento preenchem as emissões dos cinco canais de notícias (RTPi, SIC N, TVI 24, CMTV, ETV).
          Os politicos no defeso também invadem os ecrãs. E aqui tomo a liberdade de o citar, pois acerta em cheio: “Como se as estações de televisão operassem também, em conjunto com as consagradas empresas do regime, como uma espécie de local de hibernação – apenas relativa – para quem espera a sua vez. Ou não pode deixar de dar regular sinal de vida.”

  5. Acho eu que JRS tem razão e não tem.

    A verdade é que abundam por aí os chamados comentadores políticos com direito a tempos de antena e que não se deslocam propriamente aos estúdios para serem entrevistados. JRS não estava a fazer nenhuma entrevista, do mesmo modo que nem Marcelo nem Marques Mendes nem a senhora Leite nem Louçã nem Bagão Félix nem tantos outros vão lá para ser entrevistados ou confrontados com as suas inconsistências e contradições: é mais para darem lições, para mostrarem quanto sabem (e não praticaram quando estiveram no poleiro – os que lá estiveram).

    Marcelo será um caso um tanto àparte – faz comentário político há muitos anos, mostra independência, apesar de militante do PSD, e um grande bom-humor. Lembro-me, por exemplo, de ter dado negativas a ministros dos governos de Cavaco.

    Depois há alguns exemplos, raros, de comentadores sem agenda política, como Sousa Tavares (que me parece frequentemente não ter feito o TDC, mas que nunca esteve no governo e não parece ter pretensões a estar) ou António Barreto (que, como diz Ana Lourenço, é um luxo ouvir), e poucos mais, sendo os desta rara espécie os únicos Comentadores com C.

    1. Por acaso, no seu espaço de comentário Manuela Ferreira Leite é confrontada, o jornalista não está lá a fazer de bibelot. Este assunto só é polémico porque é José Sócrates que têm uma acérrima legião de fãs.

      1. Sim, MFL é confrontada pelo jornalista Paulo Magalhães às quintas-feiras na TVI24. O mesmo jornalista que também confronta (e bem) o ex-ministro Santos Silva às terças-feiras.
        Este é o registo certo. Caso contrário resta ao jornalista servir de elemento decorativo. E nesse caso devemos questionar-nos se não competirá ao “comentador”, com ou sem aspas, falar sozinho em antena. Sem contraditório de qualquer espécie.

  6. Não vejo razão para esta polémica toda. Creio que o problema residiu no tempo, porque JRS podia muito bem fazer perguntas incomodativas, como por exemplo a razão do país começar a entrar em recessão. Até lá penso que Sócrates se foi “safando”.

    Aliás, no essencial, recordo o ditado popular: “quem bem tece nunca esquece”.

    1. Vivemos num tempo de combustão rápida, em que quase tudo gera polémica mas o rasto dessa polémica se extingue pouco depois.
      Pense, meu caro, na quantidade de pequenos e médios focos de polémica que se foram sucedendo entre nós desde o início do ano.
      Já nem recordamos a grande maioria sem um assinalável esforço de memória apesar de estarmos ainda no início de Abril…
      Por mim, procuro ignorar a espuma e concentrar-me no que verdadeiramente interessa. Neste caso, o âmbito e os eventuais limites da actuação dos jornalistas.
      Esse, sim, é o debate que merece ser travado. Porque não é de ontem nem de hoje: vem de longe e vai projectar-se no futuro, próximo e distante.

        1. Agradeço-lhe a pista que aqui deixou.
          É, de facto, uma entrevista muito interessante. Concordo com grande parte com o que o entrevistado diz. Nomeadamente com isto, que quero destacar:
          «Foi uma ideia admirável alguém vir dizer que, na internet, a informação está acessível a toda a gente. O problema é que fazer bom jornalismo não é barato, e ainda ninguém percebeu como ganhar dinheiro no digital. No caso da Monocle, continuamos a crescer, em número de leitores e de anunciantes, em parte porque não parecemos hesitantes. Basta pegar na revista para ver que nos esforçamos muito, a nível jornalístico e no design. Se estivéssemos hesitantes, pensando que deveríamos fazer aplicações em vez de revistas, as pessoas sentiriam o cheiro a sangue e afastar-se-iam.»

          É isso mesmo. O caminho tem de ser este: conteúdos pagos na Rede. E continuação da aposta no papel, que nunca desaparecerá: é uma das maiores e mais perduráveis invenções de todos os tempos.

  7. Achei a iniciativa de José Rodrigues dos Santos de louvar, e gostaria de ver esta frontalidade mais vezes nas entrevistas. Acho que neste país, um pouco insulados dos meios de comunicação estrangeiros, não fazemos ideia de como lá fora isto nem seria considerado muito agressivo.

    1. Também é de louvar a iniciativa do JRS de, perante a polémica, ter assumido a sua opção jornalística, esclarecido as pessoas e contextualizado o sucedido com grande transparência. Nada o obrigava a isso. Mas fez bem.

    1. E no entanto a tal “ATV”, armada em guarda pretoriana do ex-PM, e sem cuidar previamente da verdade dos factos, diz suspeitar que tenha havido uma alteração intencional do programa “sem conhecimento prévio do entrevistado”, o que a seu ver (erradamente) representa “uma entrevista de emboscada” e, portanto, “um abuso do jornalista José Rodrigues dos Santos”.
      Extraordinária presunção divorciada dos factos vinda de uma entidade que tanto proclama princípios éticos e deontológicos…

  8. Espero que o tal engenheiro em filosofia ou filósofo em engenharia (agora estou na dúvida) seja confrontado da próxima vez que lá for com ter sido verídico que Portugal só tinha 300M€ em caixa (EXPRESSO de hoje), coisa que ele classificou, ao que li, de falsidade e caricatura.

  9. subscrevo e reforço; estas almas cheias de fé da ATV deviam pensar bem quem são os seus amigos : quem lhes diz a verdade ou quem lhes diz o que gostam de ouvir?
    é que já chega de ser parvo e o passado recente ensina que quem apregoava grandes feitos e obras(musica para os ouvidos dos homens de fé) , enterraram o país como o conhecemos hoje… certo foram os malandos dos mercados,claro, claro, só que isto anda tudo ligado e quem num caso ou no outro se lixou foram os mesmos, e issonão vai variar com um santo ou com o outro santo

    1. Vivemos numa sociedade onde os valores surgem demasiadas vezes invertidos. Este caso é bem prova disso: uma organização anónima e que tem a arrogância de pretender representar os telespectadores portugueses considera-se no direito de dar sermões de ética e deontologia a quem, mal ou bem, tem dezenas de anos de provas demonstradas no serviço público de televisão. Dando a cara, pondo o nome: essa é condição indispensável para debatermos deontologia seja com quem for.

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