A estrela da fortuna continua a bafejá-lo


Pedro Correia,

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Dizem que no seu círculo privado António Costa costuma gabar-se de ser um homem bafejado pela sorte. Tem motivos para isso. Até agora, nas mais diversas circunstâncias, contrariou todos os profetas da desgraça.

Há um ano, com o país amedrontado e devastado pela pandemia, alguns comentadores apressaram-se a passar-lhe certidões de óbito político. Desatentos, menosprezaram a capacidade de resistência do líder socialista, que fez um longo tirocínio para chegar ao posto onde se encontra. O poder não é para contemplar mas para exercer, ensinavam os clássicos. E António Luís Santos da Costa, com 60 anos recém-completados, bebeu dessa sabedoria. Não delega: manda mesmo. O que lhe tem facilitado a tarefa.

Foi-se treinando para o cargo actual nos governos de António Guterres e José Sócrates. Colheu lições também pela negativa. Com o primeiro, enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares e da Justiça, aprendeu que a indecisão pode ter custos incalculáveis. Com o segundo, de quem se afastou a tempo de evitar contaminações após ter sido ministro da Administração Interna, confirmou que a política exacerba o narcisismo ao ponto de se tornar patológica. Desse pecado ninguém o pode acusar.

Quarenta anos de exercício partidário foram-lhe apurando qualidades como «génio da gestão política», para usar uma expressão que António Barreto justamente lhe colou. Mas nada disto produziria consequências sem a tal conjunção astral que tem iluminado o percurso de Costa.

Foi assim quando decidiu disputar o poder interno a António José Seguro após ter garantido que só desejava permanecer ao leme da Câmara de Lisboa. Foi assim no rescaldo das legislativas de 2015, quando perdeu para Passos Coelho e logo recebeu recado de Jerónimo de Sousa para gerarem um governo alternativo – inédita aproximação ao PS que o PCP jamais assumira desde a implantação da democracia. Foi assim, finalmente, quando viu emergir como suposto líder da oposição alguém como Rui Rio: se o primeiro-ministro pudesse votar para a presidência do PSD, esta teria sido certamente a sua escolha.

Confortado com as sondagens que lhe auguram vitória clara nas autárquicas, satisfeito com o êxito do processo de vacinação, só alcançado quando pôs um vice-almirante a comandar as operações, acaba de sair em ombros da reunião magna socialista: ninguém o belisca, ninguém o questiona, ninguém ousa contestá-lo. Dá-se ao luxo de ter uma galeria de quatro presumíveis sucessores em segundo plano. E para sacudir a modorra do conclave lembrou-se até de inventar uma quinta candidata, a actual ministra da Saúde: é caloira no partido, não tem currículo nem apetência para o lugar, mas contribuiu para diminuir os bocejos em Portimão.  

Costa, que costumava fazer puzzles nas horas vagas, bem pode retomar o passatempo. Desta vez com as verbas da bazuca europeia como peças para encaixar. E vai sorrindo. A estrela da fortuna continua a bafejá-lo.

22 comentários em “A estrela da fortuna continua a bafejá-lo”

  1. Tretas. O Jornais são da esquerda por vezes extrema, e são do PS. E os jornais são quem legitima a violência politica ou a sua repressão
    Fosse ele da “Direita” e já não seria PM há muito.. Um António Costa do PSD teria acabado logo ali nos Incêndios de Pedrogão com dezenas de mortos. Manifestações organizadas pela esquerda sucederiam-se com o apoio dos jornais e TVs.

    1. Um António Costa do PSD teria acabado logo após formar governo depois de perder as eleições. Manifestações organizadas pela esquerda suceder-se-iam com a amplificação dos jornais e TVs.

      1. Mas alguém do PSD alguma vez seria autorizado a formar uma geringonça tendo ficado atrás do PS?
        Pedrogão, Tancos, isto para não falar em constantes ataques fascistas às liberdades e garantias durante a covid, já tinham sido postos a andar. Ou quando usou aquela arma neo-liberal-fascizoide, a requisição civil.
        Mas no fim de contas, gere bem o país, caso contrário as pessoas continuariam a emigrar, como no tempo do Passos.
        Gostava de ver uns números, total de greves por ano, Sócrates, Passos e Costa.

      2. “Um António Costa do PSD teria acabado logo após formar governo depois de perder as eleições.”

        É possível.

  2. Não vejo qualquer conjuntura astral no descreve em seu post de opinião. Tampouco considero alguém que supostamente deveria estar à frente da nação (estão outros e não ele) bafejado pela estrela da fortuna. É uma afirmação pouco simpática para um país que se encontra em ruína e com uma população que vive situações de miséria extrema, incluindo as que advêm de serviços públicos essenciais não prestados.
    Considerar o personagem bafejado pela estrela da fortuna, neste contexto, é um insulto a uma nação que se encontra no estado que se conhece.

    Se houve alguém verdadeiramente contestatário no PS e até mesmo contra o PS foi o grande mestre, grande cidadão, grandioso intelectual e visionário Jorge Sampaio, que, desde a câmara de Lisboa, mandou o PS às urtigas e lançou-se rumo à Presidência (letra maiúscula), que exerceu verdadeiramente nessa condição. Aliás, Presidentes (letra maiúsula) só houve dois: Ramalho Eanes e Jorge Sampaio. E poderia ter havido um outro, Manuel Alegre, não fossem as vaidades costumeiras da nação.

    Pretendo com isto dizer que um medíocre habilidoso no meio de medíocres destaca-se sempre e incompreensivelmente, nesta nação, como um bafejado pela estrela da fortuna ou, em alternativa, sortudo. Na realidade Costa é somente um poucochinho menos medíocre que a totalidade dos medíocres.
    Devíamos ter mais respeito pela sorte dos demais.

  3. Chama-lhe sorte, chama.
    O outro era o animal feroz, este é o animal matreiro. Sabe como, onde e quando estar.
    Nao foi conjuntura astral apear o Seguro quando o fez, aliar-se aos geringonços, ou arregimentar CS com umas publicidades pagas.

  4. Interessante texto, Pedro.
    Costa prova também ser inteligente, pois nem toda a gente aprende com os erros, uma qualidade essencial para quem quer singrar na vida.

    Sorte e inteligência – uma combinação praticamente imbatível.
    Mas Costa revela igualmente grande habilidade política, por vezes, roçando o “sem escrúpulos” e aproveitando métodos trumpianos, como pôr o grosso da população contra certos grupos profissionais. Com mais habilidade, claro (se ele desse para algum extremo, podia tornar-se perigoso).

    1. Conheço Costa há 25 anos, Cristina. É um dos mais hábeis políticos portugueses, sem a menor dúvida.
      Claro que o facto de não ter oposição o ajuda muito. Mas talvez isso resulte da habilidade dele também. Quem o menosprezar comete um erro enorme.

  5. Não chame sorte ao saber.
    De todos os políticos no activo é o único que está no lugar certo à hora certa. Tem defeitos como qualquer um, mas as coisas positivas superam as negativas.
    Discordo dele na gestão da pandemia mas tenho de reconhecer que para conseguir fazer alguma coisa, ele tem de satisfazer os lóbis.

    1. Éramos todos nós. Não tínhamos tido a devolução do décimo terceiro mês, não tínhamos tido a devolução do imposto extraordinário e ainda íamos ter o azar de levar um corte de 600 milhões de euros no SNS.

      1. A sério? E isso foi quando ? Antes ou depois da falência?
        Sabes uma coisa, meu caro, aritmética, aritmética, contas de sumir, e CHEGA.
        Bando de gatunos… chamem a polícia… do cabrita… essa não, é muita lenta, conduz devagarinho.
        Força, força, Fdp’s (fanáticos dos popós).

  6. Ainda vamos descobrir, quando desclassificarem os documentos (é assim que se diz?), que o Rio é o Manchuriano do PS.

  7. Esta personagem nunca me enganou. Consegue comprar um povo fraco com promessas nunca cumpridas. Pode arder Portugal, pode aumentar a dívida, pode prometer para 2050, que o povo manso vai sendo enganado, vai acreditando nas mentiras. Prometeu casa condiga para todos. Como se alguém com juízo e sério o possa fazer.
    O Medina também prometeu 6.000 casas, entregou 420!
    Nunca vi tanto mentiroso juntos.

    1. Cuidado com o outro: todos os idosos de borla nos transportes públicos e mais não sei quê para os jovens. Mas isto é despesismo, ou não? Nesse caso é banha de cobra. Pois parece que idosos a residir em Lisboa não são assim tantos e com reformas baixas chega para pagar o passe social que o outro arranjou com grande despesismo.

  8. Enquanto tiver quem lhe omita jogadas de canto, contradições e habilidades por baixo do pano a sorte vai continuar, mas só até que se acabe.
    Basta que alguém abra a torneira de um percurso recheado de trocas e baldrocas, e aparecerão então muito boas almas a ajudar à banhada com inundação de alto a baixo.

  9. Cada povo tem aquilo que merece e o povo português merece-o. Quando um povo não questiona nada nem se questiona, aceita tudo e ainda premeia os medíocres nas eleições, tem mesmo o que merece. Não se queixam, não digam que estão mal, pois têm aquilo que querem.
    Um dia de certeza ficará na história como o pior dos piores…

    1. Concordo em absoluto com as suas palavra. Há um senão: o seu comentário é anónimo. O senhor merece igualmente António Costa e é um exemplo mor do povo português: cobarde.

  10. quanto mais sorte ele tiver com a bazuca mais azar temos nós e a nossa descendência quando chegar a factura. A bazuca é para pagar, não é dada.

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