A Era da fragmentação


Luís Naves,

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época de fragmentação acelerada, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

10 comentários em “A Era da fragmentação”

  1. Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008

    O 11 de setembro de 2001, porém, mudou as vidas de muito boa gente, nomeadamente no Afeganistão e no Iraque. É gente que, enfim, também conta.

  2. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo.

    Esse declínio tem, parece-me, mais a ver com o aparecimento das redes sociais do que com a crise financeira.

  3. o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos

    Nós não saímos de mundo nenhum nem estamos a construir mundo nenhum. O mundo, pura e simplesmente, evolui de forma contínua. Todo o mundo é composto de mudança.

  4. Bem, permita-me:

    “discurso da intolerância”

    Mas como se adequa, essa sua crítica, aos panegíricos dedicados a Viktor Orban?

    1. Este comentário não tem pés nem cabeça. Qual panegírico? Está a falar dos meus posts em que tento explicar a verdadeira situação? O que é que isso tem a ver com a intolerância? Não tenho de me justificar pelo facto de conhecer muito bem um determinado assunto. Que quer que lhe diga? que desconheço a situação na Hungria? que não sei nada do que se passa ali? que não sigo a política húngara há trinta anos? que não sou casado com uma húngara? que não estive lá no mês passado? quer que lhe diga tudo isso? Não tenho a culpa de que as pessoas estejam a ser manipuladas. prefere o conto de fadas? esteja à vontade

  5. Na crise de 29 os ricos atiravam-se de arranha-céus, com a actual crise desapareceu o Capitalismo e os ricos/poderosos ficaram ainda mais ricos e poderosos.

    WW

  6. A explicação é o populismo mas não a definição com que o autor nos gosta de prendar. É aquele populismo que cria o endividamento sem dar margem de segurança para os ciclos da economia.

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