A entrevista


Pedro Correia,

 

– Esta é a sua primeira entrevista como candidato à Presidência. Pretendemos saber um pouco mais a seu respeito.

– Boa noite. Portanto os trabalhadores portanto explorados portanto por este governo de direita. Nós defendemos…

– Não pretendíamos falar muito de política. Para já, só queríamos saber um pouco de si.

– Defendemos a mudança da política portanto contra o governo de direita portanto que explora os trabalhadores.

– Mas os portugueses não o conhecem. Quem é o senhor afinal?

– Um comunista portanto integrado no colectivo portanto nós pensamos que estas políticas de direita portanto só prejudicam os trabalhadores.

– É casado? Tem filhos?

– Portanto nós lançámos esta candidatura para fazer a diferença portanto o que importa é alterar a política…

– Desculpe, mas não respondeu à minha pergunta. Gostava de saber se é casado e tem filhos.

– Hum… Vivo em união de facto e tenho duas filhas portanto a nossa intenção com esta candidatura é defender os trabalhadores…

– E nos tempos livres? O que faz quando não exerce actividade política?

– Sempre ao serviço do povo trabalhador portanto o colectivo decidiu apresentar esta candidatura…

– Desculpe, não está a responder ao que lhe perguntei. Como ocupa os seus tempos livres?

– Hum… No contacto com a natureza portanto há que pôr fim portanto a esta política de direita que já dura há mais de trinta anos e portanto de exploração das classes trabalhadoras…

– E de onde é natural?

– Nós defendemos portanto uma verdadeira política de esquerda…

– Desculpe, mas não está a responder. Pretendia saber onde nasceu.

– Hum… Nasci numa terra da Beira onde vou de vez em quando portanto com esta política de direita…

– E gosta de ler? Lê nos tempos livres?

– Nós pretendemos que esta candidatura portanto esteja ao serviço das classes trabalhadoras e do povo português portanto contra o grande capital monopolista…

– Desculpe, mas não me respondeu. Perguntei-lhe que livros costumava ler.

– Hum… Leio ensaios políticos portanto nós exigimos o fim desta política de direita…

– E não lê romances?

– O PS é igual ao PSD portanto e ao CDS na política de direita portanto contra os trabalhadores…

– Desculpe, não me respondeu. Costuma ler romances?

– Hum… Já li romances de José Saramago e Álvaro Cunhal nós pretendemos…

– Mas só lê autores comunistas?

– Uma candidatura portanto que esteja mesmo ao serviço dos trabalhadores…

– Desculpe, mas não me respondeu. Só lê autores que sejam comunistas?

– Hum… Também já li portanto autores de outras tendências mas nós portanto lançámos esta candidatura para que o povo português portanto esteja representado na Presidência da República…

– Para finalizar: a Coreia do Norte é uma democracia?

– Os trabalhadores… contra o governo de direita… nós… portanto… portanto… portanto… portanto… 

19 comentários em “A entrevista”

  1. Bem apanhado Pedro, fartei-me de rir quando vi esta entrevista, de facto é muito difícil para um jornalista poder falar com esta ” cassete ” de pernas, ou melhor dizendo talvez ” CD “.
    Que vamos esperar deste futuro presidente da República Comunista de Portugal. Eh eh eh

  2. Post muito injusto: O candidato não utilizou uma única vez a conjunção “portanto”; utilizou sim, 1917 vezes, a equivalente no dialecto comunistês “p’tanto”.

  3. Meu caro,

    Tenho dificuldade em acreditar que esta entrevista NÃO tenha sido real e que se trata de uma peça ficcional…

    Muito a serio.

    Forte abraço,

  4. Portanto temos portanto mais portanto um.
    O que portanto temos que portanto saber é portanto ler nas portanto entrelinhas portanto.
    Portanto, uma entrevista portanto bem divertida portanto.
    Ufa! Amanhã lavo esta louça.

  5. Pedro,
    A entrevista, portanto, até que é boa. Mas é imperdoável, portanto, que não se tenha questionado o portanto candidato do colectivo contra, portanto, esta política portanto da direita do grande capital, se desiste portanto mesmo à boca das urnas ou se portanto desiste de véspera…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *