Não sei se convosco acontece o mesmo. A mim sucede-me com frequência: leio uma notícia num jornal que me sabe a pouco. Apetece-me conhecer mais pormenores, desvendar o lado oculto do relato noticioso, frio por excelência, sucinto por óbvia limitação de espaço.
Aconteceu-me nestes dias por duas vezes. A primeira ocorreu ao saber do falecimento da única neta do mítico milionário William Randolph Hearst, que Orson Welles retratou na sua obra-prima O Mundo a Seus Pés (1941), chamando-lhe Charles Foster Kane. A senhora vivia sozinha numa quinta situada nas imediações de Sevilha e regressara pouco dias antes de Portugal, onde fora submetida a uma operação plástica.
A notícia que li era enigmática: calava muito mais do que explicava. Como é que a neta de um magnata americano vai parar a um lugarejo da Andaluzia e lá se radica durante anos? Por que motivo a senhora, dona de tantas posses, vivia tão solitária? Que recordações guardaria do avô? Detestaria Citizen Kane? Que laços a uniam a Portugal, além de frequentar uma clínica de cirurgia estética? A minha estranheza foi ainda maior por ter visto apenas o tema aflorado na imprensa espanhola, sem qualquer eco em Portugal.
A segunda notícia era impressionante. Falava de um senhor com 96 anos que na manhã do dia 20 votou nas legislativas espanholas. Mal depositou o boletim de voto na urna, situada num centro cultural de Madrid, desfaleceu. Todos os esforços para o reanimar foram inúteis.
A peça jornalística nada mais informava senão isto. Restou quase tudo por dizer. Senti vontade de saber quem era aquele homem que morreu segundos depois de exercer o direito de voto — que durante 40 anos esteve proibido em Espanha. Quais seriam as suas convições políticas? O que haveria a destacar no seu percurso? Terá deixado família? O que diziam dele alguns amigos, uns quantos vizinhos? Com quem falou pela última vez? Que pensamentos povoados de angústia o terão sobressaltado na noite anterior?
Tanto vamos sabendo, no contínuo bombardeamento informativo de que somos alvo de manhã à noite. Mas tanto permanece por desvendar nas entrelinhas das notícias. E muitas vezes é precisamente quando as notícias terminam que a vida verdadeira começa, com o seu permanente jogo de sombras e luzes. Razão tinham Elizeth Cardoso e Chico Buarque quando cantavam: “A dor da gente não sai no jornal.”

Essas coisas (ainda agora morreu a filha do Estaline, para me manter nas mesmas águas) só as poderia saber se os jornais ainda cultivassem a chamada reportagem, escrita por gente que soubesse escrever. Há muito tempo que não há disso nos jornais portugueses.
Ana Cristina, Pedro, pensei exactamente o mesmo a propósito da filha de Estaline. E que crónica não deve haver ali para escrever…
É curioso que tenham feito essa associação, Ana Cristina e Rui: também eu pensi nisso ontem ao ler a notícia da morte de Svetlana, que foi a menina mais célebre da URSS estalinista, onde era idolatrada por milhões, e se apagou agora perante a indiferença do mundo. Li há muitos anos a autobiografia dela, publicada pouco após ter pedido asilo político nos EUA, nos anos de chumbo da Guerra Fria – uma obra que a afastou de vez dos adeptos do ‘socialismo real’. Svetlana permaneceu sempre numa espécie de terra de ninguém ideológica, em conflito com o passado comunista e sem conseguir abraçar convictamente a democracia liberal.
A vida dela dava um filme. Ou vários filmes. Infelizmente, na hora da morte, proporcionou apenas entre nós lacónicas notícias de jornal. O que não surpreende, dada a escandalosa falta de memória nas redacções, hoje transformadas com demasiada frequência em tristes apêndices da wikipédia.
Tantas vezes sinto isso, Pedro.
É como eu, Teresa. Vezes de mais.
Há de tudo como na farmácia, Pedro.
Às vezes sim, e os dois exemplos que cita são na verdade muito reveladores dessa incompletude de muitas das notícias da imprensa escrita. Outras vezes, infelizmente, sucede exactamente o contrário. O mau jornalismo, quase sempre, quer enfeitar tanto e “encher a almofada” de uma notícia simples que, por vezes, acaba por lhe tirar todo o seu sentido objectivo. Ainda ontem, precisamente, discutimos aqui um caso desses: o do carro do ministro Mota Soares. A notícia, simples, cujo enfoque principal era apenas divulgar um facto verdadeiro, indesmentível e, pior do que tudo, imoral – a aquisição de um carro de 86 mil euros, em tempo de vacas “pele e osso” – acabou por originar uma série de comentários disparatados e sem sentido, apenas pelo facto de o mau jornalismo que a divulgou, ter incorporado nela alguns pormenores ficcionais e descabidos que só contribuíram para lançar a confusão e a controvérsia numa coisa que, afinal, era tão simples.
Falou-se, por exemplo, entre outras, de coisas tão inúteis para o cerne da notícia, como a “compra do carro” e não do seu ‘aluguer’, se este tinha “sido negociado pelo próprio ministro ou por uma agência”, se “o negócio tinha sido feito e concluído pelo governo anterior” ou “pelo actual” e, inclusivamente (pasme-se!), que teria sido “o próprio ministro a deslocar-se pessoalmente ao stand para levantar o carro”! Nenhum destes adereços, destes berloques, tinha qualquer interesse para a divulgação da notícia em si, bem pelo contrário.
Por isso, nem sempre menos é menos. Muitas vezes, menos é mais.
É certo, Luís: muitas vezes, menos é mais. Sem dúvida.
Boa noite caríssimo,
Hearst ? É também aquela família cuja filha (Patricia) foi raptada e que depois aderiu as formas de lutas dos raptores ?
Passei á porta deles no ano passado, em pleno Big Sur, placa na estrada (costeira) e tudo, very Hollywoodish.
Forte abraço,
Sim, meu caro. A Patricia Hearst, prova viva da síndrome de Estocolmo, é neta do William R. Hearst.
Abraço.
Grande título, sem dúvida. Ao ler as primeiras frases do texto, identifiquei-me logo consigo:) Mas a mim acontece-me com o cinema, e frequentemente. Vejo um filme e sabe-me a pouco. Quero aprofundar mais e ou leio o livro ou vou pesquisar aquilo que me interessa.
Acontece-me então gostar (muito) do filme e também do livro. Ao contrário da maior parte das pessoas que se dececionam com o filme depois de terem lido o livro. Eu, fã de cinema, vejo o filme primeiro e relembro e aprofundo tudo com o livro, depois. ::))
Neste caso, a curiosidade não mata o gato::))
Acaba de dar-me uma boa ideia para uma nova série, AE. Uma série em que fale de adaptações cinematográficas de obras literárias destinada a provar o que é melhor – o livro ou o filme.
::)) Boa, então! Série que vou seguir, claro, com toda a paixão pelo cinema e o gosto em lê-lo. 🙂