Percebemos que a degradação do jornalismo atingiu níveis alarmantes quando lemos, em prosa assinada pelo editor de cultura de um dos principais jornais portugueses, que Benjamin Franklin foi presidente dos Estados Unidos da América.
A falta de exigência profissional, o esvaziamento das bases culturais, a perda de referências históricas, a incapacidade de formular raciocínios e exprimir ideias que ultrapassem o patamar das conversas de café são notórias nas páginas da generalidade dos periódicos. E este — não tenhamos ilusões — é um dos principais motivos do crescente divórcio entre jornais e leitores. Se enquanto consumidor regular da Internet posso ter mais e melhor leitura, sem gastar dinheiro e sem sair de casa, por que motivo me darei ao trabalho de adquirir um jornal que ainda por cima me trata como se eu fosse intelectualmente desprezível?
Manuel António Pina, um dos comentadores portugueses que mais respeito, transcrevia recentemente na sua habitual coluna do Jornal de Notícias um despacho da Lusa dando nota que “o Tribunal da Relação de Coimbra condenou os proprietários de uma loja de Aveiro a pagar 6500 euros a uma trabalhadora que obrigou a cumprir o horário laboral sentada virada para a parede e sem nada fazer”. E, justificadamente, chamava a esta peça uma quase-notícia. Porquê? “O nome da empresa (o ‘Quem?’ da teoria clássica do jornalismo) [era] pudicamente omitido.” Um reparo muito pertinente. “Ficam, pois, todos os ‘proprietários[s] de loja[s]’ de Aveiro sob suspeita de assédio no local de trabalho”, concluía com amarga ironia este prestigiado escritor, um veterano das lides jornalísticas.
Outro jornalista veterano, Wilton Fonseca, dava há dias nota, numa coluna regular que mantém no diário i, do seu desencanto perante a falta de qualidade do que lê na imprensa de hoje. E socorria-se, para o efeito, do recente desabafo do provedor do leitor do Público, José Queirós, perante a manifesta degradação do conteúdo genérico da imprensa escrita. Citando alguns exemplos: Georges Braque mencionado como “escritor”; a Cisjordânia transformada em ‘West Bank’ numa legenda preguiçosa; o Fidel Castro de 1976 ilustrado numa imagem junto a Che Guevara, assassinado nove anos antes…
Concluía José Queirós: “O número de profissionais a quem cabe zelar pela correcção da escrita dos textos do Público diminuiu drasticamente nos últimos anos e vários procedimentos de controlo de qualidade foram eliminados. [Mas] quaisquer que sejam as restrições financeiras, há limites abaixo dos quais um jornal de qualidade não pode descer sem desmerecer esse rótulo. É uma questão de respeito pelos direitos dos consumidores.” Será difícil não lhe dar razão.
Wilton Fonseca, no entanto, ia ainda mais longe: “A meu ver, não são apenas os revisores residuais. São os editores residuais, os chefes de redacção e os directores residuais, jornalistas residuais a fazer jornalismo residual para uma sociedade em que todos os valores também parecem ser residuais.”
O problema é precisamente este. Falta acrescentar: um jornalismo residual conduz a uma democracia residual. O que basta para constituir motivo de preocupação para todos nós.


Se fosse só nos jornais…
Olhe que os telejornais também estão uma desgraça. Na RTP1, por exemplo, o principal pivô, dito “escritor”, abunda em calinadas. E não há, na casa, quem saiba (ou se atreva a) corrigi-lo.
“Terá a haver”, como ele repetidamente diz, com o facto de vender lixo aos milhares?
Inclino-me respeitosamente perante o estrondoso sucesso editorial do romancista em apreço. Bem merece o título de rei dos ‘best sellers’. O Alexandre O’ Neill, em tradução muito livre, chamava bestas céleres a estas obras que teimam em vender muito.
E porque será? Qual é a sua explicação para este despautério?
Falta de exigência, falta de cultura, falta de rigor, falta de brio, falta de memória, falta de investimento nas redacções. Tudo isto e mais alguma coisa. A explicação está, em boa parte, contida no texto do provedor do Público, para o qual a remeto. Merece uma leitura atenta.
“E porque será? Qual é a sua explicação para este despautério?”
Falta de discriminação e intolerância.
Falta de competência. Por outras palavras: o primado da incompetência.
Os jornais de hoje nem sequer já têm um revisor residual…
Com os lamentáveis resultados que estão à vista, edição após edição.
O que se está a perder no jornalismo parece-me ter que ver com a pressa que todos temos hoje em dia. Não há tempo para estudar os factos e pesquisar as notícias. De facto, não há tempo para estudar sequer nas escolas, nem tempo para ensinar. Nem para pensar… Fiquei bastante preocupada quando li na revista do Expresso desta semana que o ministro das Finanças não tem tempo para pensar.
Assusta-me a pressa – que também tenho. Temos demasiada pressa para plantarmos sabendo que só muito mais tarde vamos colher. Pior ainda: não plantamos para as gerações futuras.
Já a minha avó me ensinava que as pressas dão em vagares…
Bem se vê que esse senhor nunca viu a minha obra de arte cinematográfica sobre Benjamin Franklin e o pára-raios. 🙂 Boas festas!
Bom ano, Helena. Gosto de a ver de volta. Você é muito cá de casa.
Amigo Pedro,
é por estas e por outras que eu há muito deixei de ler jornais.
De vez em quando passo os olhos no DN, que ainda assim é dos melhores.
Falta Cultura a esta gente… muita Cultura.
Nem me fale do DN! Neste momento a minha irritação maxima é a hiqtoria da criança à espera do figado em Espanha, que so lhes falta dizer que a culpa de ainda não ter sido transplantada é do Paulo Macedo. Passam completamente por cima da colaboração entre Portugal e Espanha em matéria de transplantes, com orgãos para ca e para la conforme a compatibilidade, etc. para poderem acirrar o povo o distraido.
Pior que a ignorância dos nossos jornalistas é a sua desonestidade intelectual.
Isabel,
assino por baixo do que escreveu em relação ao DN. Todavia recebo todos os dias em cima da minha secretária os diários e semanários. E se há alguns para os quais nem olho, outros há – e o DN é um deles – em que leio na diagonal. Seria mais fácil mentir e dizer que não lia… mas como compreende mentir não é comigo. Cheguei a escrever para alguns colunistas do DN, que não gostaram muito das minhas palavras. Mas isso foi problema deles. Eu fiz a minha parte…
De facto, em muitos casos falta cultura. Da mais básica – como naquele caso concreto que refiro a abrir o texto.
eu acho piada como alguns professores de jornalismo que tive diziam da Wikipedia o que Maomé não disse do toucinho… no entanto, uma pesquisa rápida por lá daris para evitar erros como esse do Benjamin Franklin. Ou um que apanhei uma vez na secção de ciência do Público, no qual a jornalista dizia que o acelerador de partículas do CERN arrefecia a temperaturas inferiores ao zero absoluto… 🙂
Zero absoluto: vem a calhar.
Pois, é lamentável… E dizerem, entre outras, tunisianos e palestinos, do melhor. 🙂 Pior são mesmo os dos telejornais – a qualidade dos jornalistas e dos reporteres de ocasião (com que medíocres reportagenzinhas nos brindam todos os dias) tem vindo a decrescer e eu estou fora do meio, portanto ainda deve ser mais percetível para quem está dentro…
É verdade. Mas a mais óbvia, lamentável e pelos vistos irreversível queda abrupta de qualidade tem vindo a registar-se nos jornais. Que noutros tempos foram o último reduto da inteligência neste país.
O problema é isso corresponde a um espelho desta sociedade: o que importa é sobreviver, de preferência bem, onde a qualidade não é fundamental para o brio profissional de muitos e isto é tolerado por mais gente ainda.
Hoje com a mania dos políticos e outros propagandistas fazerem notas de imprensa onde o jornalista apenas a copia como notícia, tornou-se grave não só a qualidade do texto e da informação, mas inclusive a sua credibilidade. assim vai o País e talvez o mundo.
O jornalismo espelha, de facto, uma certa falta de exigência que vai servindo de padrão dominante. Mas os jornalistas devem rebelar-se sempre contra essa tentativa de nivelar por baixo, ainda que venha de chefias e editorias incompetentes.
Ontem por acaso tinha lido uma entrevista antiga do Paulo de Macedo ao Expresso e saltou-me à vista este bocado:
P. – Sentiu-se chocado quando apareceu nos jornais e televisões na altura em que pediu para ser rezada uma missa pela DGCI?
R – Sim, porque a administração fiscal desenvolveu várias iniciativas, designadamente colóquios sobre o combate à evasão e fraude, uma exposição sobre educação tributária, colóquios sobres a inovação na Administração Fiscal portuguesa, sem a presença de uma única câmara de televisão. Nesse dia havia lá cerca de 15 a 20 jornalistas. Aí fiquei chocado.
P – Acha que foi uma manobra contra si?
R – Não comento.
P – Mas a iniciativa que tomou não é muito comum e um dos critérios da imprensa é a novidade, o invulgar…
A justificação do jornalista do Expresso (do Expresso!) para se escolher como notícia a novidade e o invulgar, mesmo completamente irrelevante, em relação a coisas enfadonhas como colóquios, exposições, etc sobre coisas sérias é absolutamente extraordinária.
é triste mesmo, Pedro.
e todos sabemos que esta falta de rigor e de exigência, que começa nos políticos e acaba nos operários sem especialização, só nos vulgariza como gente.
mas a televisão ainda tem mais culpas no cartório que que a imprensa, pois promove “lixo” como ninguém.
A televisão, caro Luís, merece um tratamento à parte. Porque, de algum modo, também é um mundo à parte.
Meu caro Pedro Correia,
Quando comecei a ler o Post comecei a pensar para comigo de que a matéria que nele trata é reflexo da Sociedade e do Pais que fizemos, porem ao chegar aos dois últimos parágrafos li a sua conclusão e é isso mesmo.
E é transversal a quase tudo na nossa Sociedade, não é só à Democracia a afectada.
Um forte abraço,
Nunca é de mais trocarmos umas ideias sobre estes temas, caríssimo.
Um forte abraço.
Tempos havia em que o negócio dos jornais era vender notícias aos leitores. Agora, é vender leitores aos anunciantes. O que leva a uma série de inversões nas prioridades dos jornais.
Isso é parte do problema, sem dúvida. Uma parte importante.
Portugal acelera para passar a país residual.
Mobilizemo-nos para que isso não aconteça, compadre.
É uma pescadinha de rabo na boca, Pedro. Já vem de trás e há muito tempo, mas os sinais são evidentes agora. Eu dou erros, mas não consigo evitar sentir uma ponta de vergonha quando os dou. Lembro-me dos meus pais e da Sra. D. Célia, minha professora primária (sim, e de algumas reguadas e puxões de orelhas quando as coisas davam para o torto… e não ser perderam nenhumas). Hoje? Hoje… fiquemos por aqui que o seu post diz (quase) tudo. Abraço e bom ano.
Bom ano também para si, meu caro.
Um grande abraço.
Ainda ontem li esta no Sol online: “Bombeiros em greve só respondem a casos de ‘risco eminente de vida humana’. Sua eminência, o risco
O problema, Leonor, é que muitas vezes não existe sequer a menor noção de que está a ser cometido um erro. A falta de cultura básica chega a esse ponto.
Compreendo. Vejo pelos meus alunos a falta de vocabulário. Um destes dias quando lhes disse que algo teria de ser verosímil riram-se desalmadamente como se estivesse a ser muito erudita. Só não faço uma recolha das palavras que eles não sabem por uma questão ética.
Pois. A compressão vocabular conduz à compressão das ideias. Há uma correspondência directa entre uma coisa e outra. Os resultados estão à vista, um pouco por todo o lado.
Há uma série (comédia) da BBC chamda “broken news” que explica tudo:
e:
Mesmo a propósito, meu caro.