A definhar


Sérgio de Almeida Correia,

“O problema aqui é um problema do futuro do país“.

Esta pequena frase diz bem mais do que possa parecer à primeira vista.

O problema do futuro do país é, de forma mais linear, o problema deste país.

Quem a disse e a repetiu ontem em vários canais televisivos e nas rádios podia ter sido um homem que se tivesse destacado da maralha pela excelência da sua intervenção, pela coragem do discurso, pela ousadia e arrojo do seu pensamento, pela acutilância da sua intervenção política.

Mas infelizmente não é assim.

Quem disse essa frase foi a mesma pessoa que há quatro anos, quando se tratou do PS escolher um candidato presidencial, viu num homem em final de carreira, que já tinha sido presidente duas vezes e com mais de 80 anos, o futuro do país.

Nessa altura, ninguém o viu ou ouviu preocupado com o facto do PS ter como candidato um homem que aos olhos de quase todos os portugueses já então pedia descanso.

De igual modo, quando há quatro anos o PS escolheu Mário Soares como seu candidato, da mesma forma anódina e quase acéfala como agora fez com Manuel Alegre, por vontade do líder e em circunstâncias políticas atípicas, ninguém o ouviu pedir liberdade de voto para os militantes que discordavam da escolha e tiveram a coragem de apontar erro tão crasso a tempo e horas.

Escondida sob a capa de um discurso aparentemente moderno e inovador, a intervenção de Vítor Ramalho representa aquilo que os partidos portugueses têm de mais detestável: o conservadorismo, o imobilismo, a sacralização do passado. E reflecte a tendência oligárquica da política portuguesa.

Mário Soares foi um combatente, um líder de referência e é uma bandeira da democracia portuguesa. A ele o país muito deve. O país e o partido.

Mas o soarismo, que Vítor Ramalho tão bem personifica, espelhado na frase acima citada, na forma como antes condicionou o partido e hoje tenta influenciar as escolhas que livremente sejam feitas dentro dele, e que encontra eco na intervenção de homens como José Lello ou Sérgio Sousa Pinto, é uma pesada herança do passado. Um anacronismo num partido que se quer moderno.

Até poderia admitir que Manuel Alegre não fosse a melhor escolha, mas não se tendo Vítor Ramalho predisposto a avançar com uma candidatura presidencial, também seria difícil encontrar um termo de comparação.

Mas o que é triste constatar é que o PS carregue hoje o soarismo como uma canga. E isso é uma coisa execrável. Para o partido, mas também para todos aqueles que dentro dele se atrevam a pensar o futuro ou que rejeitam ser os régulos e os mainatos dos líderes que transitoriamente ocupam o poder. Chamem-se eles Soares, Guterres ou Sócrates. 

4 comentários em “A definhar”

  1. Meu caro, a canga, ávida que é e narcísista, é irreformável. O texto é bom, mas as conclusões são brandas. O Inferno que Dante visitou é pouca coisa para essa gente mumificada enquanto respira.

  2. “Vítor Ramalho representa aquilo que os partidos portugueses têm de mais detestável: o conservadorismo, o imobilismo, a sacralização do passado. E reflecte a tendência oligárquica da política portuguesa”.
    É exactamente assim, sei bem do que está a falar.

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