Muito se tem escrito e falado sobre a crise económica, social, de valores, mas pouco ou nada se tem dito sobre a crise das idades. No entanto, se há crise que é transversal a todos os seres humanos, é precisamente esta.
As idades comportam inúmeras incertezas, angústias e vontades. Logo à nascença somos confrontados com a dimensão da aprendizagem, da dependência, da partilha, da carência e da necessidade de afecto. Na infância são-nos impostas regras e exigidos deveres e obrigações para atingirmos determinados objectivos, quando o que realmente nos importa são as brincadeiras de manhã à noite e tudo o que tenha cor e risos, que nos encham de alegria, própria desta idade. Na juventude, a par de uma série de dúvidas que nos tomam por assalto, vêm as primeiras decisões e o reforço do que nos é exigido. Quando se atinge a idade adulta entra-se numa ambivalência entre o que queremos e o que fazemos, e que nos acompanha por largos anos da nossa vida: tirar a carta de condução; tirar um curso superior; começar a trabalhar; sair de casa dos pais; casar; ter filhos; ser dedicado à carreira ou à família, ou a ambos. Hoje em dia, existe uma maior diversificação de caminhos, pois a sociedade, pelo menos nos países mais desenvolvidos, é mais liberal no que se prende com o casamento e a adopção e, por outro lado, o aumento da escolarização e o desemprego obrigam a que a emancipação seja cada vez mais tardia.
Todas estas questões são pertinentes, mas a crise reside essencialmente nas decisões que se tomam e que condicionam o futuro. É certo que nunca é tarde para começar uma nova carreira, para mudar o rumo antes traçado mas, ainda assim, há certas coisas que estão aprisionadas à idade, ou pelo menos à vontade que temos que tudo fosse diferente. É importante aceitar e valorizar o que somos, mais do que o que temos. Somos as experiências e as vivências que passámos e esta bagagem permite-nos hoje, no presente, decidir com mais confiança do que a que tivemos anteriormente. Se o trilho percorrido não nos levou a bom porto, estamos sempre a tempo de escolher outro. Estamos sempre a tempo, enquanto houver fôlego, enquanto as pernas tiverem força para caminhar, enquanto a voz se soltar do emaranhado de complexos e gritar bem alto o que queremos.
Segundo a Sylvia Plath, a árvore está carregada de frutos, temos de escolher os que mais gostamos, os que conseguimos alcançar, e até à quantidade que nos permite sentir satisfeitos. Alguns vão ficar na árvore, é inevitável, faz parte da escolha. O perigo é quando ficamos indecisos e, por não os escolhermos, deixamos que caiam de maduros.

Quando as pernas já não tiverem força para caminhar, a voz começar a tremer e a vida mostrar querer abandonar o corpo, começamos a ser tratados como lixo. Sim, lixo, sem direito a nada, nem a um lar onde passar o resto dos dias condignamente. Já não ouvem o nosso apelo e cortam tudo que nos foi dado por direito próprio. Resta-nos a rua, se é que ainda teremos direito a vaguear nas ruas de todos e de ninguém.
Ana Isabel, a vida é bela e todas as idades são belas, mas concordo consigo. A sociedade só está preparada para nos receber enquanto somos activos, enquanto trabalhamos para a servir e para dar rendimentos aos que vivem à nossa conta. Quando chega a idade em que precisamos de descansar do esforço contínuo de longos anos de caminhada, puxam-nos o tapete e fazem-nos temer os últimos anos que temos para gozar e reflectir a experiência grandiosa que é viver.