A condessa de Abranhos.


Luís Menezes Leitão,

Depois destas declarações da Ministra da Cultura, a prometer que o Museu de Évora vai “tornando-se no primeiro Museu Nacional a sul do Sado“, só me apetece recordar a célebre personagem ministerial criada por Eça de Queiroz:

“Outra circunstância que torna mais admiráveis esses serviços, é o facto do Conde – tendo dado todo o seu tempo ao estudo das questões sociais – jamais se ter ocupado do conhecimento subalterno da geografia. Segundo ele dizia, nunca pudera reter todos esses nomes esquisitos e bárbaros de rios, cordilheiras, vulcões, cabos, istmos! Assim, por exemplo, nunca compreendeu, confessou-mo muitas vezes, esses cálculos estranhos de graus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação (…).

Uma ocasião, na Câmara, ele falava de Moçambique como se considerasse essa nossa possessão na costa ocidental da África.

Alguns deputados mais miudamente instruídos desses detalhes, gritaram-lhe com furor.

– Moçambique é na costa oriental, Sr. Ministro da Marinha!

A réplica do Conde é genial:

– Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!

Esta réplica vem mais uma vez provar que o Conde se ocupava sobretudo de ideias gerais, dignas do seu grande espírito, e não se demorava nessa verificação microscópica de detalhes práticos, que preocupam os espíritos subalternos“.

EÇA DE QUEIROZ, O Conde de Abranhos.

11 comentários em “A condessa de Abranhos.”

  1. A ministra deveria, de facto, evitar abrir muito a boca. É que já da vez anterior, em que disse que o IVA das touradas era uma questão de civilização, falou de mais. Ela deveria concentrar-se nos atos e evitar as palavras, que não são o seu forte.

  2. Acho que uma diferença fundamental no tempo do conde de Abranhos é a que o Municipio da Capital ainda não estava operacionalizado, como hoje se releva com, entre tantos outros, esta senhora ministra, como fértil alfobre para parir tantos “ministeriáveis”, “secretariáveis”, “publico-directoráveis”, “avençavéis” etc..

    Jorg

  3. Para mim foi um lapso, ela queria dizer Tejo. Mas fica sempre bem aproveitar todas as oportunidades para deitar políticos abaixo. O povo gosta.

      1. Sim, é sexista porque deita abaixo os homens. Bem feito, não gramo homens, só gramo mulheres.
        Explico. Políticos inclui homens e mulheres. Políticas inclui somente mulheres. Não há uma palavra para o caso de serem só homens. Ou seja, a gramática arranja uma palavra especial quando há só mulheres. Quando há somente homens, não há palavra a eles dedicada, eles vão para a vala comum com um plural que inclui toda a malta. Na minha opinião a Fernanda Câncio e a Rita Ferro estão completamente erradas com a interpretação que dão da gramática nestes pontos. A Gramática põe as mulheres em primeiro plano e despreza os homens. E esta, heim??

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