
Imagem da albufeira da barragem de Theewaterskloof (zona da Cidade do Cabo) a 27 de Novembro de 2017.

Imagem aproximadamente do mesmo ponto em Março de 2010 (imagem Google Maps).
No final de Novembro do ano passado estive na África do Sul em trabalho. O propósito da minha visita era avaliar o problema da seca em algumas das localizações da empresa no país. O caso mais premente era (e é-o cada vez mais) o da Cidade do Cabo.
Ao aterrar, fomos logo informados pela tripulação que a região estava a passar por um período de seca e que deveríamos tentar poupar tanto quanto possível de água. O aeroporto estava cheio de avisos sobre o problema da seca e até os placards electrónicos na auto-estrada nos lembravam do problema. Os avisos repetiam-se um pouco por todo o lado. O hotel estava cheio desses avisos, a carta de boas-vindas do hotel lembrava-o, o restaurante onde jantei servia água engarrafada para evitar consumo local.
Na fábrica falavam já do dia zero, o dia em que deixará de haver abastecimento doméstico de água e toda a gente terá de recolher a sua dose diária em pontos específicos espalhados pela cidade. Neste momento o dia zero está planeado para 11 de Maio, mas poderá ser antecipado (quando lá estive falavam do início de Julho). Nessa altura toda a gente terá à sua disposição apenas 25 litros de água por pessoa. Se isso parece muito, considere-se que essa água é necessária para beber, tratar da higiene pessoal, cozinhar, limpar casa, roupa, etc. Além disso, para ter essa água será necessário passar provavelmente longos períodos em filas à espera de vez.
Isto sucede porque o nível das barragens que abastecem a Cidade do Cabo está a níveis baixíssimos. A maior barragem da região, de Theewaterskloof e que tem capacidade para mais de metade da água contida em barragens na zona, está neste momento a 12,3% da sua capacidade. A partir do momento em que chegue a 10%, poder-se-à considerar como seca, uma vez que é muito difícil extrair a água. Isso significa que a estimativa de 11 de Maio, que é baseada na tendência geral do total das barragens, poderá ser antecipada. Isto porque a partir do momento em que Theewaterskloof chegue aos 10%, a sua capacidade poderá ser corrigida para zero.
Quem quiser ver os valores actuais pode vir a esta página para se informar dos valores actuais. Se lerem o relatório diário com o nível de cada barragem, tenham em consideração que as barragens de Steebras Lower e Steenbras Upper são essencialmente reservatórios com capacidade reduzida para onde flui a água que chega dos recursos a montante.
Quando vi a barragem de Theewaterskloof fiquei, confesso, chocado. Sabia que iria ver volumes baixos, mas não imaginava o cenário de desolação. Quando preparei o meu relatório da visita coloquei imagens retiradas do Google Street View em 2010 para contrastar com as fotografias que fiz na altura (ambas as fotografias encimam este post). O contraste é brutal, até porque em Março os níveis históricos das barragens da região são mais baixos que em Novembro. Outra coisa que me chocou foram as nuvens de poeira em determinadas áreas, especialmente a forma como eram empurradas pelo vento para povoações nas imediações da barragem.
O objectivo da minha visita, além de avaliar a situação, era a de procurar soluções para tratar o efluente da fábrica de forma a produzir água potável que pudesse ser utilizada internamente e fornecida à população da cidade. Aquilo que me voltou a chocar foi o facto de a cidade não fazer o mesmo: o efluente municipal, depois de tratado, estava a ser despejado no mar. A água residual da população era tratada como um recurso não renovável.
O que me parece claro é que a situação na região do Cabo Ocidental está a ser essencialmente a de funcionar como o canário na mina de carvão em relação ao impacto das alterações climáticas na disponibilidade de água. Esta é uma situação de seca que será mitigada no futuro, quando as chuvas voltarem, mas tal como na Austrália na “Seca do Milénio”, as condições não voltaram a ser as mesmas. O mundo tem que continuar a procurar soluções para mitigar o efeito das alterações climáticas, mas é necessário criar soluções técnicas para os desafios imediatos. A Cidade do Cabo está a começar a acordar para eles. Em Portugal pergunto-me quando isso será feito.

Um grito de alerta.
Há demasiadas pessoas a sofrer por ali.
João, é ridículo e perigoso tentarmos conceber soluções técnicas se estas não contemplaram uma mudança nos padrões de consumo. E obrigatariamente sem pôr em causa a actual lógica de mercado e a sua insustentabilidade em termos de recursos naturais. Em 2050 serão necessárias 2 Terras para sustentar o grau de consumo actual.
Naomi Klein tem um livro/documentário interessante sobre o tema.
Mas continuamos a sentir-nos satisfeitos separando os plásticos, do papel…..ou então falando nos ciclos climáticos e “achando” que não temos nada a ver com o assunto. ….pois o clima segue o seu curso normal….
Vlad, a lógica das 2 Terras segue um padrão errado (e acho que o valor muda muito, normalmente é apontado como mais elevado).
Tratar a água como um recurso finito, por exemplo, é errado. Muitos outros indicadores são tratados também como finitos. A revolução verde conseguiu aumentar imensamente os recursos que eram vistos como finitos à custa da tecnologia.
Agora convém dizer que eu sou bastante malthusiano. O problema é que, a certa altura, a população humana acabará por ser demasiado vasta para ser sustentada pelo nosso planeta, especialmente se as nações em desenvolvimento imitarem os erros das desenvolvidas.
No entanto, até termos soluções mais estruturais a funcionarem (e não basta dizer : poupar água, tem de haver formas de o fazer), as soluções técnicas servem para mitigar o problema. Além disso, algumas das soluções “técnicas” não mais são que soluções de poupança de água. Basta enviar água mais ou menos tratada para irrigação e já estamos a poupar água. Na agricultura há soluções técnicas que permitem fornecer toda a quantidade de água necessária sem gastar em demasia.
Penso que o ser humano deixou de ser o homo sapiens e passou a ser homotechnicus (tenho ideia de ter lido isto algures). O seu futuro passará por encontrar soluções técnicas que permita que continue a existir.
não basta dizer : poupar água, tem de haver formas de o fazer
Pois. Se uma pessoa de cada vez que defeca tem que gastar seis litros de água para se livrar da porcaria, os 25 litros de água por dia vão-se embora num instante.
Num livro que tenho advoga-se o uso de retretes com compostagem, que (alegadamente) permitem que as fezes lá fiquem a apodrecer sem cheirarem mal.
A fundação gates tinha há uns tempos um projecto para criação de retretes que não usavam água. Não sei como isso anda. Mas é verdade que tinham razão numa coisa: a retrete não evoluiu quase nada desde que o tubo em U foi inventado…
João é precisamente por tantos porêm esperanças nas respostas tecnológicas que as políticas de protecção ambiental estão condenadas….
Quanto à agricultura e pecuária além de serem as principais causas de consumo de água potável, são-no, também, do esgotamento dos solos, deflorestação, assim como de poluição dos Oceanos e emissões de gases de efeito de estufa…..talvez a Ciência tenha resposta quando conseguir formar colónias humanas no Espaço ( Stephen Hawking)…que por aqui ninguém está disposto ao sacrifício
João quanto ao excesso de população talvez não nos tenhamos que preocupar. Os novos vírus hão -de ajudar….serão os anticorpos da Terra.
Mais importante do que estudar os esforços dos habitantes da Cidade do Cabo para poupar água, é estudar o que aconteceu à agricultura irrigada naquela região.
No Cabo, como em Portugal, a maior parte da água é utilizada, não para as populações nem para a indústria, mas sim para irrigar a agricultura.
Tanto quanto julgo saber, no Cabo já há muito que se deixou de fornecer água para a agricultura. Como é natural. A agricultura foi toda por água abaixo, mas isso é menos mau do que os habitantes não terem água.
Em Portugal, nada ainda foi feito. Os agricultores continuam a operar alegremente os seus regadios.
Sinceramente não sei se fornecem para a agricultura, mas a agricultura obtém água a partir de fontes semelhantes à cidade (as barragens). Aliás, se vir o pdf diário no final da página no link, verá que um dos gráficos tem a análise relativa ao uso de água para agricultura.
Mais: quando lá estive vi bastante agricultura. Cereais, fruta, vinho. Haverá outras, mas não explorei a zona, apenas fiz uma visita mais a sudeste da cidade (e mais interior) e vi tudo isso.
Obrigado por me fazer notar esse pdf. Pois o que lá mostra é que, desde o início do verão sul-africano (5 de novembro de 2017), a cidade gastou praticamente tanto como a agricultura (cerca de 60 milhões de metros cúbicos cada). Ou seja: metade da água gasta tem-no sido na agricultura, o que me parece bastante irracional em tempos de seca… Igualmente interessante, enquanto que a população da cidade tem, de uma forma razoável, cumprido o plano de consumo restritivo previsto pelas autoridades, a agricultura tem violado esse plano à grande e à francesa, consumindo sistematicamente mais do que o planeado… Atualmante (princípios de fevereiro) a agricultura já consumiu toda a água que, de acordo com o planeado, deveria gastar até ao fim do verão, em finais de abril…
É o que eu digo: andam os habitantes da cidade a fazer todo o esforço para poupar água, fechando muito bem todas as torneirinhas e tomando duches curtinhos, apenas para os senhores agricultores se poderem dedicar a esbanjar.
Convem ver que a Cidade do Cabo está à mesma latitude, a Sul, que Casablanca em Marrocos, a Norte. Ou que Los Angeles.
Tanto Casablanca como Los Angeles estão muito perto de onde começam os desertos. Basta uma pequena deslocação das zonas climáticas para longe do equador para essas cidades passarem a estar em zona desértica.
Em Los Angeles chove meia dúzia de dias por ano. A cidade só existe porque há montanhas onde chove mais, e porque é abastecida a partir de muito mais a norte.
Terá alguma influência, mas se fora à volta do mundo à procura de zonas com a mesma latitude, certamente que encontra outras sem chuva. É necessário muito mais.
Há soluções para mitigar a longo prazo os problemas de seca extrema. Basta deixar-se de ideologias
http://honestreporting.com/south-africa-r ingmaster-in-the-theater-of-the-absurd/
No caso o problema não surge da ideologia mas de incompetência na organização. Sei que as autoridades tinham um plano para instalar uma unidade de dessalinização (incluíndo com tecnologia israelita), mas que não foi avante por questões burocráticas.
Eu admito que em determinadas áreas as soluções possam ser técnicas e que noutras nem a técnica valerá.
Mas várias situações preventivas há muito deveriam ter sido tomadas. O exemplo flagrante é o de muitas cidades ainda não adoptarem o sistema de captação de águas das chuvas (que podia ser feito freguesia a freguesia de acordo com a população e os meios, jardins e outros, aí disponíveis) para rega de jardins e árvores, estradas e calçadas…
Mas também a obrigatoriedade dos novos condomínios, a partir de uma certa dimensão, industrias etc. passarem a incluir um sistema de captação destas águas, exactamente para os mesmos propósitos e outros. Até mesmo os pontos críticos das florestas deveriam ter um sistema destes.
Nota: Muitos condomínios no Brasil já possuem este sistema de captação, sendo que as águas captadas possuem uma canalização própria e a de abastecimento normal outra canalização.
Com o degelo nas regiões polares a tendência será para o aumento dos níveis nos oceanos. Consequentemente, assistiremos a uma espécie de dessalinização natural das águas oceânicas; e estas também podem ser aproveitadas com a intervenção da técnica que as melhorará.
Todavia, não é verdade a teoria da sobrepopulação. O mundo tem recursos para aguentar a que existe e a que virá. A natureza encarregar-se-á de estabelecer os naturais controlos. O problema é que os movimentos migratórios existentes em várias épocas da história da Terra hoje não são tão naturalmente aceites.
Na parte da África do Sul que o João refere o oceano está à mão; e têm de ser as estruturas oficiais a determinar a utilização das águas, tratadas, para determinados fins.
Na Cidade do Cabo o aproveitamento de águas da chuva não ajuda: simplesmente não tem chovido.
Além disso é necessário ter bacias naturais para recolher essas águas. Não basta dizer que se recolhe em tanques, os quais encheriam rápida e facilmente e também se esvaziariam com igual facilidade. É por isso que as barragens são importantes, mais ainda que para a produção de energia.
Para ter essas bacias, é então necessário que o solo tenha uma camada impermeável pouco profunda, caso contrário a água entranha-se pela terra. E, alem disso, que os cursos naturais de água (os “caminhos” por onde esta escoaria naturalmente) não estejam interrompidos como tantas vezes acontece com a nossa construção urbana. É também por causa destas interrupções que temos cheias em cidades onde elas não teriam que acontecer (como em Lisboa, onde a água que desce das colinas não “consegue” chegar ao rio).
A Índia tinha fabulosos sistemas de captação e conservação de água das monções, sistemas milenares que ainda hoje poderiam ser considerados state of the art. O problema é que também interromperam os cursos de água e tornaram tais sistemas inúteis.
Claro, em zonas onde chova com alguma intensidade os sistemas mais domésticos podem ser usados. Contudo continuarão a necessitar de tecnologia, quanto mais não seja para remover microorganismos da água.
Já o caso da dessalinização dos oceanos:
1. A “dessalinização natural” que refere por derretimento das calotas polares seria quase literalmente uma gota no oceano. A salinidade cairia de 3,5% (em média) para 3.44% se todo o gelo (incluíndo glaciares que não estão minimamente perto dos oceanos) derretessem. A principal influência seria no comportamento dos oceanos e esse efeito seria muito mais grave que qualquer outro benefício.
2. A dessalinização não beneficiaria. Haveria talvez um tudo nada de aumento do rendimento na produção de água potável por kWh de energia usado, mas seria absolutamente mínimo.
No caso da Cidade do Cabo, eles tinham de facto planos para uma central de dessalinização. Poderia ser usada, mas a verdade é que a quantidade de energia necessária para a dessalinização de água do mar é superior à necessária para o tratamento final do efluente que sai das ETARs.
A sobrepopulação será um facto um dia. Especialmente se continuarmos a consumir os recursos de forma desproporcional. A tecnologia continuará a mitigar o problema e a empurrar o limite, mas um dia deixará de o poder fazer.
João, uma coisa é certa, hoje necessitamos ter esquemas paralelos aos já existentes para usar a água da chuva não tratada exactamente para os fins que explicitei, incluindo a rega na agricultura.
Não vele a pena ir mitigando o problema tentando minimizar custos em vez de se maximizarem os resultados.
Dizem que o Brasil tem problema com a água. Mas isto é mentira. Eles possuem um enorme caudal de água no subsolo, mas a questão que colocam é exactamente a canalização dessa água para outras regiões. Antigamente os aquedutos construíam-se exactamente para este fim. E também tinham custos. Mas o que estava em causa era os benefícios.
Se estivermos à espera da técnica para resolver coisas simples, a discussão não passará de números.
O pragmatismo diz-nos que os sistemas têm de ser usados onde são necessários. Onde não houver hipótese o problema já está resolvido. Nada se faz.
Sabemos os problemas que ocorreriam com a dessalinização total dos oceanos. Mas isto não vai acontecer. Temos de agir em função do problema existente sem mais equações. Israel já faz isto há muitos anos, coadjuvando com outras técnicas no que respeita à agricultura.