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A chuvada eleitoral de domingo, com o sucesso do Prof. Ventura, demonstrou a pertinência da velha máxima “o que é preciso é que se fale, mesmo que seja … bem”. Recordo o que já resmunguei: catapultado como “voz televisiva do Benfica” e, depois, “enfant terrible” de Loures, Ventura chegou aos 60 mil votos e foi resvés eleito deputado em 19. Breves minutos depois da sua eleição a então também nóvel deputação do Livre celebrou o seu sucesso eleitoral alcandorando-o a adversário fundamental, dando-lhe eco, sublinhando-o reforçando-o, como mera forma de se reclamar paladina do “antifascismo”. Forma de encapuçar a estreiteza da agenda política própria e, acima de tudo, de ocupar espaço à “esquerda”, onde o palanque legitimador do “antifascismo” vem sendo – e com legitimidade histórica, diga-se – ocupado pelo PCP e pelo PS. E de nisso também se apartar do BE, ao qual acabara de subtrair basto eleitorado e, também por esse novo estatuto “antifascista” reclamado, imensa atenção mediática. Pois a imprensa lisboeta, muito “gauchiste”, assumiu com frenesim este novo conflito entre unideputações, novidade bem mais apetecível do que os já monótonos acintes entre os “big five”.
Depois foi o que foi: Ventura soube afrontar os ideais dominantes da imprensa sem com isso a afastar; enquanto a disparatada Moreira a afastou de vez, não só pelo seu patético conflito com o “pós-stasiano” Tavares mas, acima de tudo, pelo dislate de chamar a polícia para se proteger das perguntas da imprensa, arrogância – dela e do seu assessor dos saiotes – nunca vista na democracia portuguesa. Resultado: a imprensa democrática não lhe liga, condenando-a a um silêncio revelador da sua essência, mero apêndice de um PS tacticista. Enquanto persegue, enlevada, um Ventura que seguiu rampante, capitalizando as antipatias recebidas.
O disparatismo dos “bem-pensantes” urbanos mostra-se ainda mais no rescaldo das eleições presidenciais. Leio inúmeras declarações de nojo pelos compatriotas que se (a)venturaram – na senda das declarações do grande maître à penser Malato. Vão tal e qual, estes ululantes perdigoteiros, o prof. Ventura quando fala de ciganos. Como a parvoíce – que terá evidente substrato publicitário – da organização do festival Amplifest 2021 que anuncia não querer como espectadores quaisquer votantes do Chega. Ou, pior ainda, a recepção jubilosa de alguns textos mais desequilibrados que surgem nas redes sociais, invectivando os recém-eleitores do Chega.
Para além da indecência e da parvoíce de muitas destas reacções, o seu fundo, consciente ou inconsciente, é traçar uma “cerca sanitária” vs. Chega, para a qual será necessário traçar uma população a encerrar, o “Eleitor Chega”, e demonizá-la. De facto, “queimá-la” (simbolicamente, espera-se) e ostracizá-la (moralmente). Daí o afã em traçar-lhe, o mais lesto possível, um perfil unívoco: os tipos da “direita”, aliás PSD/CDS; os alentejanos do PCP, como muitos referem – ainda que, de facto, o PCP não domine o Alentejo há já bastante tempo, mas tendo ali um peso eleitoral maior do que alhures.
O que me parece óbvio é que Ventura colhe votos em vários sectores – talvez não tanto no eleitorado PS, mais sociologicamente repousado. Antes do Natal jantei com amigo emigrado, cinquentinha viajado e culto, classe média, e que se situa naquilo a que os democratas chamam “centro-direita” e a esquerda revolucionária amiúde apelida(va) de “fascista”. Ou seja, é um fluído apoiante do CDS. Dizia-nos ele, algo estupefacto naquela visita anual à “Pátria Amada”, que “na minha família só eu e o meu pai é que não apoiamos o Chega“, e avançava, até desencantado, que lhe era agora óbvio que todos esses seus parentes “não têm vínculo com a democracia“, “são saudosistas do Salazar” ainda que sempre tivessem sido eleitores de CDS e PSD, até consoante os momentos.
Este é um detalhe, individual, que pode ilustrar os bons resultados de Ventura em alguns locais urbanos, como as zonas mais favorecidas da “Linha” – que é a que aludo aqui. Ao mesmo tempo, e porque estou em Palmela, mostro os resultados de um universo que não é alentejano rural e que mostra como num eleitorado que vota basto à esquerda, Ventura surge com bons resultados. Significará o que deveria ser evidente: que as pessoas votam consoante o tipo de eleições e consoante as mensagens que querem enviar ao poder – flutuando muito mais do que os ideologizados jornalistas, empenhados intelectuais públicos ou mesmo os meros drs. locutores nas redes sociais (como este jpt).
Ou seja, houve meio milhão de pessoas que decidiram ir votar num tipo que apareceu há pouco mais de um ano e que foi insuflado pela imprensa lisboeta e pelos movimentos demagógicos de extrema-esquerda. É uma amálgama de nossos vizinhos, que o fizeram por uma série diversa de razões. E decerto que o terão feito também devido à grande máxima da política: “o que parece é!”. E tudo isto parece que está mal. Pode até nem estar tão mal como parece. Mas parece estar bastante mal. E feder. E o melhor seria reflectir sobre o “estado da arte” e sobre as formas de “exposição” dessa “arte”. E não, nunca, isto de andar a demonizar os nossos vizinhos, co-fregueses.

Pessoas como a senhora eugenia Vasques vivem numa bolha de delicia esquerdista. Não percebem (e afirmam aos 4 ventos não conhecer votantes do Chunga que não sejam extrema direita!), nem querem perceber. São tão extremistas como os que catalogam com tal epíteto…
A desabrida opinião talvez se deva a algum mal-estar. Apenas conheço esta imagem mas será interessante ver a quantidade de anuências a tamanho disparate. E não acredito que sejam todas oriundas de pessoas em mau momento.
Não conheço votantes do Chega que não expressem ideias racistas ou de extrema-direita. Conhece algum?
Por acaso conheço. Pessoas que estão tão fartas de ouvir falar de casos de incompetencia entre membros do governo, que acham que a unica forma de fazer ver que não estão satisfeitas (uma vez que o voto em branco não conta para nada), é votar em energumenos. Se essas pessoas partilham dos ideais chunga? Não. Mas o mundo não é a preto e branco, e lá por não se ser PS ou mais à esquerda não significa automaticamente que se deva ser apelidado de fachinho. E tenho encontrado várias pessoas que, por dizerem que não concordam com esta ou aquela ideia de esquerda, são logo apelidadas de fachinhas. Já agora, escreve o nome do partido para ver se o google encontra mais resultados é?
Como sempre, muito bem escrito e sempre fundamentado. É um prazer ler-te.
A gerência agradece
Congratulações pelo seu texto, pela limpeza e pragmatismo com que dissecou o assunto.
Aparte o problema covid, esta é a matéria que mais me preocupa neste meu país.
O ódio desgrenhado que tira o bom senso às pessoas, que revela os mais íntimos sentimentos.
Mais preocupado fico quando estes exemplos de irascibilidade vêm de pessoas minimamente cultas, pelo menos com todos os meios para o serem, de gente com responsabilidade social e cívica, fruto das suas profissões e mediatismo e pessoas que prestaram um juramento.
Infelizmente os juramentos valem o que valem neste país, o simbolismo desse acontecimento cai no esquecimento, ou então é feito com os dedos cruzados atrás das costas.
Outrora, aqueles com responsabilidade mediática detinham uma elevação moral e ética, hoje esses valores são desprezados e muitas vezes espezinhados.
Hoje vi um pequeno video nas redes sociais, um excerto de um telejornal da SIC, onde João Gomes Ferreira fazia a sua análise a André Ventura. Uma análise, como é apanágio desse jornalista, isenta, crua e acima de tudo, óbvia.
O seu colega, Bernardo Ferrão, curiosamente o homem do polígrafo, é apanhado pelas câmaras a insurgir-se com a produção, pelas palavras do seu colega. Há uns meses, Constança Cunha e Sá era apanhada em voz off a combinar e a relembrar os restantes comentadores, para não se esquecerem de bater no CHEGA.
João Adelino Ferreira protagoniza uma entrevista ao estilo da Stasi, ao candidato Ventura.
Ricardo Araújo Pereira recusa-se a convidar Ventura para o seu programa, Cristina Ferreira e Filomena Cautela imitam o bloquista. A TVI produz um programa de debate político sobre a direita portuguesa e não convida um partido com assento parlamentar.
Agora é Malato a protagonizar um execrável comentário. O mesmo que exigia o seu direito de optar por determinada orientação sexual e que exigia que a sua liberdade teria de ser respeitada por todos. Muito bem exigiu ele. Mas a liberdade que arrogava para si, é a mesma que o alentejano tem de escolher em quem vota.
Isto é preocupante. A pobreza de valores da sociedade mediática. A sua incultura, a sua intolerância, a sua falta de valores democráticos, éticos e deontológicos.
É assustador para a democracia, é assustador este corporativismo e autoprotecionismo que tomou conta dos média.
Assusta, porque o controlo do jornalismo deveria ser o último passo para atentar os valores democráticos, mas passou a ser o primeiro.
Se conseguiram isto, o resto não será tão difícil assim.
A questão que fica é:
Se com tanto destrato Ventura conseguiu este resultado, que resultado conseguiria se fosse tratado de igual modo que os seus opositores?
“Se com tanto destrato Ventura conseguiu este resultado, que resultado conseguiria se fosse tratado de igual modo que os seus opositores?” Pior, é óbvio.
Exatamente. Por isso é que questiono a inteligência desta gente.
E Ventura ainda não viu o furo. Quando perceber que se fizer o papel de vítima e de coitadinho, ainda cresce mais, vai multiplicar por muitos, o número de eleitores.
Não o fará. O papel dele é o de homem de força, não o de coitadinho (como escrevi aqui, há meses, aquando do seu solavanco diante de uma saudação fascista, nem sequer é grande líder, como não é grande tribuno. É o que se arranjou para animar uma mole descontente …)
jpt, porquê a necessidade de ‘imprensa democrática’? Só ‘imprensa’ não chega, não confundir com sigla partidária?
Não será difícil entender, que os votos do Chega são os votos AD (PSD+CDS+os que nunca votavam) e a questão dos votos vindos do PC não é bem calculado. Votos do PC também foram para MRS, assim como em 2016 foram para outros não PC. Visite os resultados eleitorais de 2019 e é só fazer as contas, como diria o outro.
Não é por acaso
1. não leio a imprensa da extrema-esquerda, que não considero democrática, e como tal não posso afiançar que tenha reduzido atenção sobre a deputada em causa. Espero ter respondido à sua minuciosa questão.
2. é-lhe fundamental afirmar que nem uma gota transbordou do eleitorado de esquerda para o Chega. Ok. Espero que isso lhe faça bom proveito.
Não acabei o meu comentário, mas já lá vou.
Quanto à questão da ‘imprensa democrática’ refiro-me aos jornais diários ou semanários que se publicam por cá, não conheço nenhum destes da extrema-esquerda, quando muito existe um semanário da extrema-direita. Também não estão a incluir jornais publicados por partidos políticos, que por assim serem publicam sobre a sua linha politica. Não vamos pedir aos jornais partidários para serem democráticos a dar notícias ou até ter colunas de comentadores de outros partidos. Por isso não é ‘imprensa democrática’?
Mas o meu comentário acabava em ‘Não é por acaso’ e vou continuar.
Não por acaso que Rio falou na tv com ar espantado sobre o resultado do Chega em Setúbal ‘aquela votação em Setúbal que o PSD nunca consegui uma Câmara’. Estará ele a lançar uma açoreada (AD+Chega+os não votantes habituais) para as próximas autárquicas? Pelos resultados de 2019 parece que não chega:PSD 15,37, CDS 3,5, Chega 1,79, PS 37,83 e PCP (CDU) 13,37. Isto em resultados das Legislativas, sabendo que nas Autárquicas as votações são diferentes.
Eu não consigo comentar analiticamente as posições de Rio: presume-se uma previsibilidade, oriunda de uma competente racionalidade. Ainda não a consegui encontrar.
Uma pergunta, aqui da “Linha” ( Oeiras ) , feita sossegadamente , e em voz baixa : a votação no Doutor André Ventura não terá significado, entre muitas e possíveis outras coisas, um repúdio instintivo, epidérmico ….e racional àquilo que se desiga genericamente por “politicamente correcto”?
E ocorre-me também o título famoso de Pirandello…
Cpmts.
jsp
não julgo que seja epidérmica, mas muito mais visceral. A constante proclamação de “causas” promove azia.
Sem dúvida! As “causas” que nos fracturam, embora as vísceras seja difícil.
Seja como for:
quanto mais a causa cresce mais ao cimo* Chega!
* (como este é um lugar decente e eu também não sou dado a linguagem imprópria, refreei o impulso e resisti a escrever a palavra cacófona mais exacta. Uma pista:
“quanto mais a rosa cresce mais……)”
Tirando amigos e compinchas o meio milhão de votos “A. Ventura”, não são especificamente votos em “A. Ventura”. Sim, são contra o “estado da arte”.
Tanta, tanta gentinha assustada com o Sr. A. Ventura apenas porque bem sabem o óbvio: politicamente os seus frágeis pés de barro estão a ser facilmente destruídos por um outro demagogo, um outro demagogo mais denagogo do que eles.
não contesto isso
Está bem malhado e quase a chegar aos rincões celestiais. Para que tal acontecesse seria necessário acrescentar que os movimentos neofascistas abortistas, feministas e eutanasianistas do PS,BE,PAN e LIvre, com a conivência de uma dita elite, reaccionária, patrocinada pelo beijoqueiro Sousa, juntamente com os figurões e figuronas que vão pululando pela media, julgando-se presunçosamente fazedores de opinião, têm de ser despejados com uma espécie de lei das tendas muito do encanto desses subsídio-dependentes.
Deve-se ainda acrescentar que Ventura falha no alvo ao perseguir ciganos e Rsi´s, pois na realidade as “ciganices” e subsidio-dependências ocorrem nesses estratos populacionais e políticos e em quem os apoia.
Ventura é um produto da democracia tão válido quanto os produtos e produtores referidos. Significa isto que os apoiantes de Ventura legitimam-no num programa de terra-queimada já de si queimada por esses tantos e pelos demais: PSD e CDS.
Vento, eu que sou quase tudo o que V. abomina (como aqui expressa) – ainda que não beijoqueiro, jamais beijoqueiro – resumo assim: Ventura é um mariola.
A democracia é isso, jpt: o direito conferido a qualquer mariola de se juntar a outros iguais.
Não vejo onde esteja a dúvida.
Finalmente, uma análise lúcida e isenta sobre este episódio!
A gerÊncia agradece
Vejam os resultados eleitorais na agora célebre vitória de A. Ventura, na freguesia da Póvoa de São Miguel (Moura) e a comparação com 2016, e como diria o outro é só fazer as contas.
(começa a ser notório o jeito oratório do Ventura como dum pastor evangélico se tratasse, só falta haver desmaios e curas presenciais)
Sou da madeira aqui tudo o que seja extrema esquerda é visto como o demônio só a quantidade de Venezuelanos a minha família incluído tiveram que fugir dos comunas basta ver os resultados aqui para perceber que estamos fartos de marxistas culturais