Testemunhei ontem dois exemplos, que guardarei na memória, de como estar na causa pública. Na tomada de posse dos órgãos autárquicos da Cidade de Lisboa para o próximo quadriénio, Simonetta Luz Afonso, presidente cessante da Assembleia Municipal de Lisboa, tomou o lugar de simples deputada municipal. Simultaneamente, Manuel Salgado, até então vice-presidente da autarquia, assumiu a função de mero vereador sem essa prerrogativa.
Falamos de figuras públicas com percursos profissionais dignos de inveja. Simonetta Luz Afonso foi, entre outras funções, presidente do Instituto Português de Museus e presidente do Instituto Camões. Manuel Salgado, um dos representantes de uma geração fabulosa de arquitectos portugueses, foi Prémio Valmor, assinando projectos como o Centro Cultural de Belém, a Expo’98 ou o Estádio do Dragão.
Segundo as más tradições políticas do burgo, qualquer manga de alpaca veria esta alteração como uma despromoção e uma afronta ao seu estatuto. Estes dois cidadãos não. Foi fantástico vê-los tomar posse com o mesmo sorriso de há quatro anos e com o mesmo vigor nos abraços. A causa pública não confere galões eternos, e tão nobre é aquele que lidera sob os holofotes, como aquele que trabalha em posição discreta. O desapego ao lugar e à hierarquia, e a capacidade de recuar da mesma forma que um dia se avançou é pouco comum em Portugal. Servir na causa pública é um orgulho em si, independentemente da posição em que o façamos. É por isto que o projecto de Lisboa é especial, por ser protagonizado por gente deste calibre.
O meu longo aplauso, de pé, aos dois.



Sim, sim, a autorizar demolições que noutros tempos causariam grande histeria ao Zé e a outros apoiantes, o Salgado tem sido óptimo.
A avaliação da sua acção, que é algo subjectivo, não invalida a nobreza da postura que realcei. Obrigado pelo seu comentário.
É só aceder ao blog cidadanialx, por acaso aqui (no DdO) recomendado há tempos, para constatar que provas do que afirmei não faltam.
Como lhe dizia, é a sua avaliação, necessariamente subjectiva. Se fosse algo de monta certamente que a justiça já teria actuado, nem que fosse por iniciativa do próprio cidadão José Sá Fernandes, que bem referiu. Recordo-lhe, neste ponto, que ele não desistiu da acção interposta antes de ser Vereador.
Enquanto lia o post de André Couto, até me vieram as lágrimas aos olhos. Não me sentindo eu com competência para ajuizar acerca do “calibre” destas duas pessoas, devo confessar que o tom do textozinho do André me fez lembrar o tom de textozinhos parecidos com este, que eram publicados na imprensa no tempo da “outra senhora”, também para tecer enormes encómios a pessoas de “grande calibre” do regime. Os regimes mudam, mas os “calibres”, mantêm-se.
Tenho ideia que no tempo da “outra senhora” não havia grande rotação nos cargos e não recordo que qualquer titular do regime tenha sido despromovido nas suas funções. Digo eu, mas nem era nascido na altura e poderá haver algo que os livros não tenham trazido e que o Alexandre tenha presenciado…
Isto já para não mencionar que comparar estas duas pessoas ao indígenas do Estado Novo me parece altamente infeliz.
Quando ouvir dizer que a vida em Portugal começou em 1974, não acredite; começou muito antes. Em todo o caso eu não estava a falar da “rotação de cargos” antes e depois do 25/4. Estava a falar de outra coisa…
Mas recomendo-lhe algum cuidado quando fala dos “indigenas do Estado Novo”, porque essas pessoas que tanto aprecia, e que eu de modo nenhum pretendo diminuir, podem ter feito parte da “tribo”…
Vamos lá ver se esse aplauso não foi cedo demais….
Não creio, mas o tempo o dirá, João!
Um abraço!
Muito bem, André. A minha admiração por eles também, sobretudo sendo quem são. Por aqui assisti infelizmente ao oposto: vencidos que não suportam sê-lo e se recusam a ocupar lugares que consideram “menores”, porque não entendem esse princípio que tão bem enuncias: “A causa pública não confere galões eternos, e tão nobre é aquele que lidera sob os holofotes, como aquele que trabalha em posição discreta.”
Infelizmente, Ana, o que narras é a regra. Até aqui no meu cantinho, numa humilde Junta de Freguesia, vejo situações desse género. Estes casos têm um pormenor ainda mais pernicioso: o desrespeito pela vontade popular regularmente expressa…
A nobreza da “acção” não quer dizer que corresponda a uma “obra” nobre…
Contentores de Alcântara/In Recuperação de prédios em ruina… O mamarracho do hotel no Cais de Sodré…etc e tal.
Cada um tem a sua opinião. A minha, que é diferente da sua, não tem mais valor só por esse facto. Como já disse, nesta análise, apenas tomo em consideração o que narrei, que é objectivo e um facto.
Pelos vistos não houve muitos comentadores que lessem o que está no seu post , preferiram disparar noutras direcções .
Podiam até ter razão , cada um acha que só a sua opinião reflecte bom senso (já o Descartes explicou isso bem …) , mas o assunto não era esse .
Curiosamente isto só lhe dá mais razão a si , penso eu , as atitudes nobres de pouco valem aos olhos de muitos conterrâneos que só vêem a sua opiniãozita pessoal sobre assuntos que não vinham ao caso – somos “pequeninos” e confundimos tudo ao sabor dos nossos “ódios de estimação” .
Estou bastante à vontade para escrever isto pois trata-se de 2 pessoas que , por várias razões , não aprecio particularmente .
Mas isso não tem nada de nada a ver com o que escreveu aqui .
E com o que escreveu eu concordo .
Caro rmg, concordo, infelizmente, com o seu testemunho. Infelizmente porque ele faz o diagnóstico certo de uma triste realidade política e social. Pior ainda é o facto de quem reage, na sua maioria, o fazer de rosto tapado e gratuitamente. Temos de ter esperança que a realidade mudará.
Um abraço e bom fim de semana.
Manga de alpaca é o que você parece ser com este seu post narcisista. Se não queria ser, que estivesse quieto.
Reparei que enfiou a carapuça. Digestões difíceis, não é?
Lamento e mantenho o elogio aos visados. Um abraço.
É sempre uma lufada de ar fresco, ler casos destes num país agarrado à sombra da bananeira e deixar as cascas para os desgraçados escorregarem.
Daqui tambem vai o meu aplauso e ainda bem que existe este cantinho para nos oferecer “gente deste calibre”!
Obrigado pelo seu testemunho, Nuno Pereira.
Um abraço!
Tens razão, André. Faz falta mais gente assim, interessada mas desprendida. Empenhada no serviço público, não no que o serviço público lhe poderá trazer em seu benefício.
Belo texto.
Estou inteiramente de acordo contigo e pensei exactamente o mesmo quando Laurent Fabius tomou posse da pasta dos Negócios Estrangeiros da França, ele que já fora Primeiro Ministro!
O seu post é muito pertinente, não tanto pelos dois exemplos (nomes próprios com “tt” soam como prego em vidro), mas pelos demasiados exemplos no sentido contrário, e do qual a posição de Menezes no Porto, foi um exemplo típico.
O cargo de comentador-senador foi inventado para acolher os que foram derrotados ou afastados, transformando-os em mortos-vivos da lógica política.