A cassete comunista


Pedro Correia,

No debate do Estado da Nação de 2007, em 20 de Julho desse ano, Jerónimo de Sousa afirmou na Assembleia da República que Portugal se havia transformado num "país mais injusto".

Em 15 de Outubro de 2008, falando em Aveiro, afirmava que "o nosso país está hoje mais injusto e desigual, mais endividado e mais dependente".

Um ano depois, em 14 de Março de 2009, o diagnóstico do secretário-geral do PCP foi muito semelhante: "O país está pior, mais injusto, desigual e endividado." Na Festa do Avante!, em Setembro, o mesmo mote: "O país está agora ainda mais frágil e mais debilitado do que estava em 2005", declarou Jerónimo a 6 de Setembro. Alguns dias depois, a 18, o líder comunista atacava o Código de Trabalho sublinhando que José Sócrates havia tornado o País "mais desequilibrado e mais injusto".

Já este ano, a 23 de Março, ao convocar uma manifestação de protesto contra o Governo o PCP lamentava que o País se tenha tornado "mais desigual, mais injusto, mais dependente e menos democrático".

Mais recentemente, no editorial do jornal Avante! de 5 de Novembro, pode ler-se:"Com o capitalismo dominante, o mundo é, hoje, menos democrático, menos livre, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico."

Depois disso, a 7 de Novembro, o secretário-geral do PCP justificou o facto de não celebrar o derrube do Muro de Berlim por haver hoje “um mundo mais injusto, mais desigual, menos democrático, com mais guerra”.

Sempre a música do costume: vira o disco e toca o mesmo. Deve ser a isto que alguns chamam a cassete comunista, que remonta aos tempos pré-históricos. Ninguém lhes arranja um DVD?

24 comentários em “A cassete comunista”

  1. “Sr. Dr, Doi.me a cabeça…”
    “Já me disse isso nas 5 consultas que fizemos antes, não era melhor mudar de cassette? Que chatice, homem”
    “Podia dizer outra coisa, mas sabe… é a cabeça que me dói”.

  2. Sr. Pedro Correia
    Seja sincero no espaço de tempo que o Sr. analisa 2007 a 2009 alguma coisa mudou neste país, de forma a que o PCP possa mudar a sua opinião?
    Já sei que me vai dizer que a única coisa que não mudou foi o discurso do PCP.
    Mas sabe como o Sr. é uma pessoa moderna e sempre a par dos avanços tecnológicos, há muito que os seus DVD continuam a ser sempre os mesmos, na sua luta contra o PCP, que o Sr. abomina talvez por ser um partido que sempre se bateu contra as oligarquias instaladas, contra a corrupção e o compadrio.
    Por esse motivo é com orgulho que vejo aquilo a que
    alguns chamam de cassete comunista, continuar ainda hoje a incomodar tanta gente.
    jojoratazana

  3. Cassette será, mas teremos de ser justos e reconhecer que não está a mentir, Pedro.
    Todos os partidos têm cassettes. O PP, por exemplo, anda há não sei quantos anos a falar dos pobres agricultores ( dos que comprararam jipes e fizeram casas com piscina à custa dos subsídios da UE, claro…) , das PME , das pensões que são baixas, do RSI que fomenta a preguiça. Ninguém os critica
    Curiosamente, em Portugal, só se presta atenção à cassette dos comunistas. Também já ia sendo tempo de mudar de agulha, não?

    1. São diferentes as cassetes do PCP e do PP. As do PCP, que são sérias, preocupam-nos, a mim e a outros velhos, muito velhos comunistas, porque estão ultrapassadas; as do PP, por outro lado, são tão desonestas, falsas e oportunistas, que apenas fazem rir. Não vale a pena criticá-las.
      Sr. Carlos de Oliveira: se é um jovem comunista no século XXI, como parece, não pode ser paroquial, como o Portas. Tem que enquadrar os nossos problemazinhos no contexto da Europa e do Mundo. Os nossos pobres, comparados com os pobres de certas partes do Mundo, são autênticos nababos. E já não os podemos ignorar! Também não pode esquecer as novas tecnologias que, para o bem e para o mal, estão a provocar a globalização da economia, mas também do conhecimento e dos problemas. Nenhuma política suavisará a desigualdade em Portugal ou na China, se não for aplicada à escala mundial.

      1. As aparências enganam, meu caro. Não sou jovem nem comunista. Sou apenas um velho que foi aprendendo com a vida que o mundo não se divide entre bons e maus. Admiro o papel que o PCP teve durante o Estado Novo, tenho respeito pelo PCP como pelos outros partidos. Considero-os todos essenciais à democracia e não acredito que haja nenhum onde se comam criancinhas ao pequeno almoço e matem os velhos com injecção nas orelhas. Abutres, cassettes, DVD e discursos redondos há em todos os partidos.
        Apesar de o munod ter mudado…

  4. [Ó p’ra mim a fazer de hermeneuta… ] … Portanto, em última instância, o que está em causa no texto é o suporte em que a mensagem chega. Se tivesse evoluído da velha cassete para o moderno DVD, tudo bem. É isso? A ser assim o CBO seguramente concorda com o PC.

  5. Má formulação da questão ou, pelo menos, ponto de vista pouco interessante no que respeita à reflexão política. O que deve ser perguntado, do ponto de vista político, não é se a “cassete” do partido A ou B é sempre a mesma. Aquilo que devemos perguntar é se o seu diagnóstico está de acordo ou não com os factos ou, pelo menos, com aquele que é o conhecimento possível dos factos. Dito isto, parecem não existir motivos para o PCP mudar a “cassete”, porque diariamente os factos que enformam o seu diagnóstico impõem-se-nos com a força da sua evidência. Interessante seria perceber se, do seu ponto de vista, o mundo está mais justo, em que áreas e apoiado em que factos. Isso sim, seria uma boa refutação das posições do PCP e um excelente contributo para a reflexão política. Quanto à ideia da “cassete”, pode até chamar-se ficheiro mp3 no PS, CD no PSD e qualquer outra coisa nos restantes partidos. Todos têm um discurso que reflecte uma visão do mundo, embora o seu carácter parcelar talvez seja menos perceptível no que no caso do PCP, porque está mais inculcado nos preconceitos com que abordamos o fenómeno político, o que nos leva a confundir essa perspectiva com o mundo ele mesmo. No entanto, o que importa sublinhar é que a “cassete” parece ter ganho vida própria e começado a falar de si mesma, o que significa que o discurso da “cassete” se tornou numa “cassete”, tantas vezes repetido por quem o pretende criticar o PCP que me parece que se confunde o meio com a mensagem e, assim, se deita fora o bebé com a água do banho.

  6. Meu caro, à primeira vista pensei, este post é para encher chouriço, pensando melhor reparo que você mesmo se enfiou pelo chouriço. Deixe lá, daqui a umas horas é provável que volte ao normal e aí já terá matéria para posts. Acontece a todos.

          1. Em 2010 vai ser assim: “Camaradas, vivemos num país mais desigual, mais desequilibrado e mais injusto.”
            Em 2011 vai ser assim. “Camaradas, vivemos num país mais desequilibrado, mais injusto e mais desigual.”
            Em 2012 vai ser assim: “Camaradas, vivemos num país mais injusto, mais desigual e mais desequilibrado.”

  7. e o que dizer da cassete sobre a cassete:

    “o pcp é um partido envelhecido”, “o pcp é uma maquina bem oleada”, “o pcp é o ultimo partido stalinista da europa”, “o pcp mostra o seu definhamento e mais tarde ou mais cedo irá desaparecer”, entre outras…

    Cassetes há muitas, ò palerma (a intençao nao é ofender, mas sim fazer uma alusao, para que fique claro)

    1. Cassetes há muitas. E, de facto, o PCP não é o último partido estalinista da Europa: dizem-me que o grego perfilha os mesmos «ideais».
      A despropósito: não é Trofa Real, é Troufa Real.

      1. a despropósito, ups…pois é, obrigado, corrigirei.

        mas a propósito, a questao dos clichés é uma constante. Se um dia tiver tempo, vou contar quantas vezes na historia o psd falou de renovaçao e de novas caras, o Bloco da nova esquerda e esquerda de confiança, entre outros.

        O discurso do novo, muitas vezes, é apenas um manto, uma capa para tapar o velho. Sobre as questoes de modernidade aparente e da repetiçao do erro fundado na semelhança de conceito, o Deleuze explora muito bem no “Diferença e Repetiçao”.

        Um dia, ainda escrevo um post sobre isso…

        1. Faça isso que eu prometo desde já transcrever aqui. Mas não vale falar de cor. É preciso ir à procura das citaçõezinhas e alinhá-las como eu fiz com o PCP.
          Volte sempre.

  8. Aquilo que vocês chamam de cassete é na verdade firme e confiante observação e análise da realidade que nos rodeia. Nada do que aí foi dito nesses motes está fora de contexto, são verdades e as verdades são para serem ditas e as injustiças são para serem combatidas. Parte deste perconceituoso povo português está mal habituado. Estão habituados a cantigas diferentes mas que na realidade são a mesma melodia. O PS, o PSD e o CDS, esses sim é que são cassetes e discos. Dizem sempre e fazem sempre a mesma coisa, uns de 4 em 4 e outros de 8 em 8 anos. Tenham vergonha na cara, vocês estão a afundar o país com a vossa ignorância e com o vosso preconceito sem qualquer fundamento. Vocês estão cegos por promessas de boa vida sem trabalharem ou pela resignação ao trabalho para a vida sem direitos. Reflictam nestas poucas vergonhas que vocês cospem da boca para fora e pensem antes de falar. Tenham vergonha de dizerem isso ao pé dos vossos filhos, netos, alunos. Tenham vergonha na cara de continuarem a condenar este país e as gerações futuras às vossas ignorantes formas de fazer as coisas. Tenham vergonha na cara de acusarem a torto e a direito aqueles que desde 1921 defendem este país e este povo. Se querem mal para vocês não votem, fiquem em casa e saiam do caminho do progresso e da justiça social. Deixem passar porra!

    1. Curioso: um partido que fala sempre em nome do “povo” nunca até hoje mereceu confiança desse mesmo povo para governar. Só foi governo entre 1974 e 1976, em executivos que não resultaram de eleições.

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