A “caixa de Pandora” de Cameron


eventhorizon,

Diz a crítica e o público que o ponto fraco de Avatar, a mais recente odisseia cinematográfica de James Cameron, é o argumento – pouco original, desinspirado, com influências óbvias (há quem fale mesmo em cópia) de filmes como Danças com Lobos, Mononoke-hime ou Pocahontas, e uma grande dose de "ambientalismo". A verdade é que também o mais premiado filme de Cameron, Titanic (ganhou onze Óscares, feito só igualado por Ben Hur e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei), tinha um argumento tudo menos original: combinava o cliché boy meets girl com um toque de "luta de classes" (rapaz pobre conhece rapariga rica), e colocava ambos os clichés na tragédia do transatlântico Titanic – que, tragicamente, passa para segundo plano (é preciso esperar duas horas para o barco começar a afundar). O argumento de que o argumento – passe a redundância – é pobre, para mim, não convence. É importante, claro, mas creio que, acima de tudo, importa que um filme tenha uma história bem contada. E se há coisa que Cameron faz bem é precisamente isso – contar histórias, e contá-las bem.

A meu ver, Avatar é precisamente isso: uma história relativamente simples, visualmente sólida e muito bem contada. Sim, já foi contada antes (de outras formas). E tornou a sê-lo agora, numa excelente adaptação ao género de ficção científica – e se é verdade que, enquanto filme, não chega ao patamar de 2001: A Space Odyssey ou Star Wars, não creio que seja isso que o tornará menos influente no seu tempo do que aqueles foram. Visualmente, o filme é deslumbrante, e impressiona como poucos – pelos cenários, pela atenção ao detalhe, pelo realismo das cenas de batalha. Mas o realismo de Avatar vai mais longe, e pela primeira vez foi possível conceber personagens em animação 3D com rostos e gestos verosímeis, capazes de transmitir emoções (compare-se com a curta The Last Flight of the Osiris ou mesmo com o filme Final Fantasy: The Spirits Within). Está ainda para saber se Cameron abriu ou não uma "caixa de Pandora" no que diz respeito às potencialidades visuais do cinema. Veremos.

De resto, e voltando ao argumento, Avatar fez-me pensar mais noutras influências, mais próximas do género fantasia que ficção científica, que não aquelas mencionadas à exaustão. O suposto "ambientalismo militante" do filme passou-me ao lado – o que leva os Na’vi a defenderem a sua floresta não é ambientalismo, é muito mais do que isso, mas esse é um tópico que para já não irei aprofundar por não querer incluir aqui spoilers.

A verdade é que o género ficção científica não teve, ao longo da década, o brilho de outros tempos – apesar de terem saído alguns excelentes filmes, como as duas sequelas de Matrix – Reloaded e Revolutions, ou Serenity. É por isso bom voltar a ter, em Avatar, um excelente épico de ficção científica. Daqueles que realmente justificam a ida a uma boa sala de cinema – com ou sem 3D. O que, nos dias (e nos torrents) que correm, vai sendo cada vez mais raro.

 

8 comentários em “A “caixa de Pandora” de Cameron”

    1. Do filme da década? É difícil dizer. Acho que, neste tema dos melhores da década, acho que a única categoria algo consensual na crítica é os discos.

      Não sei se seria capaz de escolher o filme da década. Nem sei se seria capaz de destacar aquele de que mais gostei. Mas posso dizer-lhe isso acerca de 2009: o filme do ano foi Gran Torino.

  1. Quem gosta de ficção científica, na ultima década, pode encontrar algum consolo na reencarnação da série “Battlestar Galactica”. Caso haja interessados distraídos.

    1. Em série, sim (vergonha: ainda não consegui ver Battlestar Gallactica). Também houve Firefly, a série de culto misteriosamente cancelada que acabou por ter um filme, Serenity. E há sempre a animação japonesa, que continua a não desiludir.

      Mas em cinema a década não foi tão boa quanto isso. Houve coisas boas, sim, mas nenhuma comparável a um Alien, a um Blade Runner ou a um Star Wars.

        1. Por acaso não gosto particularmente de Dune. Envelheceu mais mal que, por exemplo, Alien ou Blade Runner, que lhe são anteriores. Para além de o argumento, quando vi, me ter parecido menos consistente (mas não li ainda o original de Frank Herbert).

          De resto, confesso, eu e Lynch não temos a melhor das relações… 🙂

          1. Em termos estéticos, Dune é para mim o melhor de todos. Mas eu e Lynch temos uma relação muito amigável, pelo menos quando ele não descamba para o terror… 🙂

          2. Eu tenho um certo “trauma” com Lynch – a falha é minha, bem sei, ninguém me manda começar a ver a sua obra na adolescência, e como primeiro filme escolher Lost Highway. Já o Blue Velvet é um filme interessante.

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