A América vista ao espelho


Pedro Correia,

No momento em que os Estados Unidos acabam de reeleger o primeiro Presidente com raízes africanas, vale a pena determo-nos um pouco sobre um dos melhores romances editados nos últimos anos, que nos fornece o pano de fundo desta América aparentemente recém-convertida à harmonia racial. O romance intitula-se A Mancha Humana (The Human Stain, 2000), foi escrito por Philip Roth, um dos grandes ficcionistas da actualidade, e fala-nos da mais insidiosa forma de racismo: a que faz um indivíduo sentir vergonha do seu próprio tom de pele.

A novidade aqui é que esse indivíduo é uma pessoa instruída, letrada, pertencente à elite universitária norte-americana. Coleman Silk, especialista em estudos clássicos, uma autoridade em Homero e outros autores da Grécia antiga, um transmissor de conhecimentos – alguém que poderíamos apontar como um pilar da sociedade.

“Ninguém sabe a verdade de uma pessoa, e com muita frequência a própria pessoa menos do que as outras.” Palavras de Roth, visando Silk, a figura central deste romance que disseca como nenhum outro os labirintos da América contemporânea.

O professor universitário, figura respeitável e até reverenciada, é afinal alguém que vive mergulhado há décadas num ciclo interminável de mentiras que o levou a quebrar os laços com a família de sangue em benefício da ascensão social. Branco filho de mulatos negros por capricho da genética, percebe durante a juventude, vivida na próspera América de Truman e Eisenhower, que jamais deixará de ser um cidadão de segunda se não renegar as raízes negras.

É já no fim da vida que Coleman se confronta com esta marca indelével do seu passado, ignorada pela mulher e pelos quatro filhos – fortuitamente de pele clara, como ele. “Este homem idealizado de acordo com os mais convincentes e credíveis traços emocionais, este homem benignamente astucioso, suavemente encantador e aparentemente viril em todos os aspectos, tem, no entanto, um segredo imenso.” Assim nos surge este anti-herói de Roth na excelente tradução portuguesa de Fernanda Pinto Rodrigues (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004).

 

Toda a ilusória solidez deste edifício se desmorona quando o professor, por um inesperado golpe do destino, é confrontado com uma absurda acusação de discriminação racial por parte de uma aluna negra, logo protegida pelo establishment universitário. Este episódio, que o leva a demitir-se da faculdade, funciona como um choque vital para o velho professor com genes negros que toda a vida se comportou como um ser despigmentado. “Pensas como um prisioneiro. É verdade. És branco como a neve e pensas como um escravo.”

Esta América ainda cheia de fantasmas acaba de se pronunciar pelo voto. A América de Barack Obama, que é também a América de Coleman Silk – a América onde muitos alimentam a suave ilusão de que o racismo se apaga por efeito automático de um boletim eleitoral. O próprio Roth parece vislumbrar uma luz de esperança: “As pessoas envelhecem. As nações envelhecem. Os problemas envelhecem. Às vezes envelhecem tanto que deixam de existir.”

E no entanto deste romance memorável desprende-se uma visão desencantada da condição humana que nenhum apelo festivo à mudança é capaz de redimir: “Nós deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, sémen. Não há outra maneira de estar aqui.”

Não nos deixemos iludir excessivamente pelas manchetes dos jornais, que se limitam a reflectir a espuma dos dias. Sob a América de Obama, esconde-se a América de Silk. Imóvel, dúplice, secreta, manchada pelo preconceito. Essa América que se viu ao espelho através das urnas. Gostará desse retrato de si própria? 

 

Texto reeditado, com referência inicial à reeleição de Obama e uma hiperligação no último parágrafo a uma recente sondagem da AP que demonstra haver hoje 51% de americanos racistas, mais 3% do que em 2008

 

8 comentários em “A América vista ao espelho”

  1. É um Oreo?
    Basta 95 dos pretos votarem em Obama para se perceber que a América é racista e tal é aceite e incentivado pelo establishment. É já um complexo de exploração política racista. E assim vai continuar.

        1. A maioria dos eleitores negros e ‘hispânicos’ votou Obama, o que não surpreende. Tal como a maioria dos eleitores brancos votou Romney. E houve mais mulheres que homens a votar Obama. Faz parte da dinâmica própria de uma sociedade aberta.

  2. Convirá não esquecer que Obama nada tem a questão dos negros dos Estados Unidos.
    Obama é filho de um queniano de nacionalidade britânica, estudante universitário, bolseiro nos Estados Unidos nos anos 60, e de uma norte-americana de origem europeia.
    Que Obama, produto do establishment politicamente correcto – do mesmo politicamente correcto que liquida Silk – eis o que não é a menor das ironias.

    1. Obama é afro-americano – termo entretanto banalizado, sem rigor, mas que no caso dele se aplica com propriedade. Independentemente das suas origens, cumpriu a missão histórica de completar o que Lincoln iniciara, na década de 1860: dar corpo às aspirações cívicas de todos os descendentes de escravos. Uma acção integradora que tarda no entanto em mudar mentalidades, como esta sondagem da Associated Press bem revela: em 2008, 48% da população dos EUA confessava-se racista; agora são 51%.

  3. O que refere em seu texto já foi levado ao cinema há alguns anos. Não me recordo do título mas já vi o filme sobre esta matéria.
    Há algo que pouco é conhecido do grande público, é o racismo entre os próprios negros. Sobre o racismo entre brancos, a Europa é campo fértil, e não só na região dos balcãs. Mas há outras formas de racismo, que também tem sua expressão nas artes, o denominado racismo cultural.
    O gene do Homem novo é a consciência, mas desengane-se quem pensa que esta é fruto da educação ou que se adquire pela lei. Não é, é fruto da vontade. Mandela é o exemplo Universal.

    1. Mandela é um exemplo, sim. Infelizmente com poucos seguidores.
      Como diz, o romance deu origem a um filme. Em 2003, com o mesmo nome. Anthony Hopkins e Nicole Kidman encabeçaram o elenco. Bom filme: gostei muito.

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