A América de Archie Bunker


Pedro Correia,

Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colados ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esquecerei.

 

Boy the Way Glenn Miller played

Songs that made the hit parade.

Guys like us we had it made,

Those were the days.

 

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker – uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.

 

And you knew who you were then,

Girls were girls and men were men,

Mister we could use a man

Like Herbert Hoover again.

 

Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário – "explorado pelo capital", um remediado sem horizontes -, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham "roubar-nos os postos de trabalho". Contra os negros, "delinquentes por natureza". Ou contra os judeus, que "assassinaram Cristo". Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.

 

Didn’i need no welfare state,

Everybody pulled his weight.

gee our old LaSalle ran great.

Those were the days.

 

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como "fecha a matraca" (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou "cabeça de abóbora" (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O’Connor (Archie), Jane Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.

"A ‘seriedade’ não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir", como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

29 comentários em “A América de Archie Bunker”

  1. Eu gostava quase tanto do genérico, com a imagem aérea dos arredores de Nova Iorque, como da própria série. Bons tempos!

      1. Eu não tenho, mas um dia destes compro em DVD – presumo que já exista à venda.

        (O comentário anterior foi efectuado anonimamente por lapso – não tenho esse hábito. Em todo o caso, dado o teor, é irrelevante.)

  2. Comecei a ver essa séria na Sic comédia. Era e é fantástica. A minha personagem preferida, para além do Archie, era a Edith. A mulher, que toda a gente se pergunta, como é que ela o atura, mas que do fundo da sua ingenuidade acaba por ser a “chave” de toda a série, pois contrariava com a sua lógica, a lógica conservadora e reacionária do Archie. De resto, Archie é, como o Pedro disse, um retrato talvez (ou não) um pouco exagerado de um americano comum. Tão simples quanto isso. E a simplicidade tem muita piada. É talvez uma lição para todas aquelas séries com centenas de episódios que a meio já ninguém percebe nada.

    1. Eu comecei por vê-la na RTP, depois revi-a na SIC, também já a revi na RTP Memória. Além dos vídeos que gravei. Continuo a revê-la sempre com gosto. E é como dizes, Daniela: “A simplicidade tem muita piada. É talvez uma lição para todas aquelas séries com centenas de episódios que a meio já ninguém percebe nada.”

    1. De facto, uma das melhores séries de sempre na TV. Tornou-se mesmo uma série de culto. E felizmente nunca passou a cinema, como aconteceu a tantas outras, que se estragaram por completo na viagem do pequeno para o grande ecrã.

  3. Caro Pedro!

    Fui/sou quase um “dependente” dessa série.
    Nunca mais se fez outra que se lhe compare, seja no conteúdo, seja no modo como os actores evoluíam.
    A América, por esses dias, tinha uma “ousada” visão crítica de si própria, personificada, sobretudo e como bem diz, em Archie Bunker!

    Cumprimentos.

  4. A inteligência deve saber rir – grande verdade. E mostra mais do que nunca que o é quando ri de si própria, como aconteciua nesta série feita por americanos sobre as suas próprias menoridades. Uma série inesquecível. Eu não perdia um episódio!

    1. Nem eu, Ana. E quando revi vários episódios percebi que nos proporcionavam sempre outros níveis de leitura. Sobre os estereótipos americanos e a correcção política (aquele genro, por exemplo, em certos pormenores assemelhava-se demasiado ao sogro)

  5. Ora aqui está a minha uma das minhas séries favoritas, a par da Yes Minister/ Yes Prime-Minister.

    Lembro-me, com um imediato sorriso nos lábios, das inevitáveis ‘picardias’ com o Meathead ou quando Archie descobriu que, afinal, Deus era negro…

    Hilariante.

    O mais interessante nisto tudo é que, hoje em dia, esta América de Archie Bunker continua a existir e, diria eu, está mais forte do que nunca!

      1. Caro Pedro: na qualidade de pessoa que sabe diálogos do Yes, Minister de cor (incluindo os monólogos do Humphrey) penso que é imperativo que escreva um texto sobre essa série. Ainda para mais agora 😀

  6. Que grande série.
    Quando acabava é que notavamos a dor das queixadas de estarmos sempre a rir.
    Já não se faz disto.

  7. Fabulosa série Pedro!
    As saudades que eu tenho do cabeça de atum (que se veio a revelar um criador excepcional), do retrato do típico americano que representava Archie (que azar ter um genro liberal e, ainda por cima, polaco!), da voz estridente de Edith (a esposa pouco inteligente, obediente, mas que, no fim de contas, era quem mantinha a unidade da família).
    Do melhor que vi em televisão.
    Escolha muito feliz.

    1. Há episódios delirantes, alguns dos quais revelam uma inesperada convergência entre sogro e genro, sobretudo quando ambos estendem a “asa protectora” sobre aloria… É um retrato impiedoso da América urbana dos anos Nixon. Mas, mais que isso, é um retrato da América de sempre.

  8. Rob Reiner também realizou o excelente “Stand By Me” (“Conta Comigo”).
    Quanto ao resto, está tudo dito.
    As minhas preferências: no humor, esta série, mais “Yes, Minister/Prime-Minister”, “Blackadder” (toda a série) e, mais recente, “Curb Your Enthusiasm” (“A Louca Vida de Harry”). Num outro registo, “Brideshead Revisited” (“Reviver o Passado em Brideshead”, 1981) e, claro, “Upstairs, Downstairs” (“A Família Bellamy”). Ufff… dá para muitos posts!

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