Já li o livro e vi o filme (191)


Pedro Correia,

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  AMOR DE PERDIÇÃO (1862)

Autor: Camilo Castelo Branco

Realizador: Manoel de Oliveira (1979)

A mais célebre novela de Camilo, centrada na trágica paixão entre dois adolescentes da nobreza provinciana da primeira década do século XIX, Teresa Albuquerque e Simão Botelho, originou uma das mais controversas longas-metragens do cineasta de Aniki-Bóbó. Entre livro e filme, prefiro ler. E reler.

5 comentários em “Já li o livro e vi o filme (191)”

  1. No tempo em que os animais falavam, havia uma micro-biblioteca municipal no jardim do Campo Grande. Consistia em meia-dúzia de armários metálicos pintados de verde, embebidos na única parede de um abrigo com mesas e cadeiras. (Já foi tudo demolido duas ou três vezes, ainda não tiraram o estaleiro da última.)

    Além de revistas de banda desenhada, nomeadamente o Falcão e o Mundo de Aventuras, onde se podiam seguir as proezas do Major Alvega e outros, havia uns quantos livros essenciais do currículo, Camilo incluído.

    À época, preferia de longe os quadradinhos. Mas imbuído de um espírito ingénuo de “nihil alienum puto”, lá fui ao Camilo. Que estucha, senhores. Aquela gente tinha o complicómetro ligado no máximo.

    E foi assim que perdi o respeito ao romantismo. (Depois o Werther do Goethe foi o prego final. Ack, pftt.)

    Felizmente que agora os anunciantes de sabões pagam histórias com muitas bombas e tiros, em vez de lamechices.

    Viva o progresso.

  2. Eu acho curioso que hoje leiamos histórias sobre a nobreza provinciana de há dois séculos e o seu modo de vida. Quero dizer, isso são coisas que devem ter interesse para um historiador, não para um leigo. É que, os valores morais e o modo de vida dessas pessoas de há dois séculos eram fundamentalmente diferentes dos valores morais e do modo vida de hoje. Para as pessoas de hoje, aquilo são coisas quase incompreensíveis.
    Atrevo-me a palpitar que, quando Camilo escreveu o seu romance, o escreveu para os leitores daquele tempo, nunca para os leitores de dois séculos mais tarde.
    É curiosa esta adesão que a sociedade europeia mostra aos valores do passado. Na China, por exemplo, o passado é uma coisa para se deitar fora – o que interessa é o presente.

    1. Apague-se a a memória, desprezem-se as raízes, ignorem-se os estágios da nossa evolução, do que nos fez chegar aqui, como povo, como comunidade, como nação, como estado. Despreze-se a literatura, a pintura, a música, a arte enfim que tenha mais do que uma meia dúzia de décadas (se tanto). Isso é para um punhado de seres bizarros, enfiados em arquivos bolorentos ou escavações lamacentas, que insistem em frequentar cursos e manter vivas áreas do saber – nem isso, porque manifestamente um diletantismo inútil, improdutivo, devorador de recurso e obstáculo estéril para as fornadas de “gerações mais bem preparadas de sempre” – que o novo tempo, ou tempo novo (ou lá o que é) a seu tempo porá corajosamente fim.

      A História é, no mínimo, uma gigantesca inutilidade. E com a Cultura é um perigoso incómodo, bem se sabe. As raízes, essas, um instrumento do mais odioso reaccionarismo.

      O antigo não é origem, alicerce. É velho e é lixo. Não interessa. Aliás a China é um exemplo brilhante, por estes tempos, de civilidade. Do ambiente aos direitos humanos.

      Sigamo-la pois!

      Costa

  3. Terá sido mesmo, como alguns alvitram, a transmissão antecipada da versão em seriado desta obra, a preto e branco e numa linguagem inadequada ao meio televisivo, a origem do mito da intragabilidade do cinema de Oliveira?

    Já outros assinalam a ante-estreia do filme em Paris como o início do “verdadeiro” mito da sua sublimidade aclamada além-fronteiras…

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