Os centros de saúde mudaram muito desde os tempos da peste bubónica, maleitoso leitor. Agora estão todos informatizados, há ecrãs, dinguedongues, apitos tipo Espaço 1999, numa palavra, eficiência. Logo à entrada das instalações, dou com um monitor táctil (note que o facto de estar à entrada já transmite uma ideia de planeamento e funcionalidade que seria impensável vinte anos atrás, quando o teriam instalado no bar em frente com abertura às dez da noite, peça a chave no intervalo do show à menina que dança no varão e não se esqueça de lhe pagar uma bebida pelo trabalho). Por motivos claramente arbitrários, o monitor exibe meia dúzia de opções. A primeira permite “Obter receituário”. A segunda, “Obter credenciais e receituário”. A terceira não pode ser reproduzida na presença de menores. Escolho a primeira opção. Vou clicando aqui e ali, admito que de forma aleatória, até ao ponto em que me é solicitado o cartão de cidadão. Este deverá ser introduzido na ranhura (disponibilizada) para que uma espécie de cópula informática tenha lugar. Durante este processo, “o sistema” ficará a saber tudo sobre mim, até porque estarei com todos os meus dados pessoais à vista. Mas não há química entre o meu cartão e a ranhura (disponibilizada) e sou informado de que serei obrigado, afinal, a “introduzir manualmente”. Semicerro os olhos, aponto as cataratas na direcção das formiguinhas no cartão e digito no teclado numérico, piscina de bactérias patogénicas (nada contra, não sangram elas também quando as picam etc.), o meu número de utente. Sucesso! Surge uma mensagem informando-me de que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Várias horas depois (note: tenho fraca noção da passagem do tempo, uso a bateria do iphone para contar os minutos), torna-se óbvio que a senha *não está* a ser impressa.
Então a senhora que se segue a mim na fila entende explicar-me, passo a passo, como proceder para obter receituário. Faz exactamente o mesmo que eu havia feito, incluindo tentar que a ranhura (disponibilizada) e o meu cartão mantenham uma relação estável. Durante todo o tempo explico timidamente que já havia feito tudo aquilo. Mas eis que, sucesso! – surge uma mensagem dizendo que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Algumas horas depois (ler nota acima) torna-se evidente que a minha senha *não está* a ser impressa. É este o momento em que o segurança de serviço decide oferecer os seus préstimos. “Qual é o seu problema?”, pergunta com a doçura possível num homem de 120 quilos que só deve ter conseguido o emprego após ameaçar o futuro patrão de que se o não contratasse lhe furaria os pneus do Toyota Celica, incluindo o sobressalente. Explico-lhe tudinho. “Isso acontece”, diz fazendo uma boquinha de selfie, “porque não escolheu a opção ‘Obter credenciais e receituário’”. Humildemente protesto: não quero obter credenciais, apenas receituário. Ele faz uma pausa para respirar fundo, revira os olhos e pergunta-me: “Sabe por que razão deve escolher “Obter credenciais e receituário?”. Admito que não, não sei, peço desculpa mas não sei. “Porque”, explica-me com paciência de Job, “a opção ‘Obter receituário’ não está a funcionar”. E como que para tornar ainda mais óbvio o quanto teria sido simples resolver a questão se eu não estivesse determinado a complicar a vida dos utentes que fazem fila atrás de mim, pressiona a tecla correspondente a “Obter credenciais e receituário”. Sem mais nada, sem um ruído, sem um queixume, o monitor expele uma senha com os dizeres “D071”. Sinto na nuca o olhar odiento dos restantes utentes. Julgo que um deles chega a dar-me um calduço por cima do cachecol. Orgulhoso do seu desempenho (jornalistas, por favor, parem de dizer “performance”!), o segurança vira costas e vai fazer algo verdadeiramente útil, no caso ler o Record. Sento-me e olho (como uma vaca olhando o prado, é como me sinto, que quer) para o ecrã de chamadas. Ignoro os AA, os BB e os CC. A senha D corrente é a 019. Após vinte minutos sem qualquer alteração, começo a suspeitar de que o dia não vai ser fácil – mas nada, nada me fará voltar a passar pelo segurança sem o receituário na mão.

O Bandeira pode ter inventado esta estória, mas, digo eu, é assim que acontece, frequentemente, em muitos serviços públicos. E, quanto mais sofisticado for esse serviço, mais inconcebíveis são as situações caricatas com que nos deparamos. Todos os dias.
Só não é todos os dias que alguém escreve de forma tão encantatória, denunciando uma dessas situações. Parabéns, portanto.
Tiro ao Alvo, obrigado. Arrojei-me a algumas liberdades poéticas, mas no essencial a coisa passou-se assim. E houve mais peripécias, mas paro por aqui
Quanto à sua história, uma palavra apenas
Quanto aos Cartões de Cidadania, um dia, não sei onde, houve alguém, não sei quem, que me disse, após introduzir o dito, eu não existir. Respondi-lhe: Surpresaaaaaa!!
Mas que o cartão impressiona os estrangeiros, isso impressiona 😉 Abraço!