Em flagrante dislate


Pedro Correia,

Vivemos submersos em diluviões de retórica suscitada pelos mais irrelevantes temas. Ontem, ao  que me dizem, o dia nas redes sociais foi preenchido por refregas verbais em torno das declarações de um popular cantor a um canal de televisão que ninguém ouve nem ninguém vê. Rasgaram-se as vestes e flagelaram-se as carnes a propósito de uma frase polémica da pessoa em causa como se tivesse sido proferida na véspera. Acontece que eram extraídas de uma entrevista de 2010. Os responsáveis do dito canal, em concorrência directa com a RTP Memória e conscientes de que bastam duas semanas bem preenchidas com política e futebol para dissolver lembranças colectivas, decidiram ressuscitar o morto – isto é, recuperar a entrevista de há seis anos e devolver-lhe honras de antena, fomentando a ilusão de que se tratava de matéria nova.

E tudo aconteceu como se assim fosse. Alguém por engano espreitou aquilo e lembrou-se de incendiar as redes com afrontamentos de indignação. Logo as labaredas varreram essa pradaria que a todo o momento perverte o nobre adjectivo “social”, sem ninguém se interrogar sequer se havia justificação para envolver palavras velhas com erupções de fúria nova.

O resultado não tardou: muitos daqueles que em Janeiro de 2015 se apressaram a pôr a mão no peito dizendo que eram “Charlie” estiveram agora na primeira linha do apedrejamento em rede ao tal cantor, esquecendo as efémeras juras de fidelidade eterna à liberdade de expressão formuladas há menos de ano e meio também em coro afinadinho. Na linha daquele sindicalista que, confrontado há dias pela primeira vez com uma farpa análoga às saraivadas de palavras que costuma disparar contra terceiros, ergueu o dedo virginal em riste mandando anunciar que iria recorrer aos tribunais para reparar o orgulho ferido.

A este, que também andou armado em “Charlie”, recomendo a leitura de um estimulante artigo de Francisco Teixeira da Mota sobre a amplitude do direito à crítica nas democracias liberais. Aos outros, que apelam ao linchamento reputacional de figuras públicas apanhadas em flagrante dislate, limito-me a sugerir que apliquem a estas questões a banalíssima regra dos iogurtes: reparar na data antes de consumir. Evitando palrar primeiro e só pensar depois.

0 comentários em “Em flagrante dislate”

  1. O que vale é que eu sou/não sou cid dura apenas um fogacho.
    O que penso ser um mau habito e que é dar tiros nos pés, é trolls, blogers e infelizmente jornalistas terem por temas ataques pessoais, a pessoas e jornais; gostava que dirigissem os seus post aos factos e argumentos e deixassem o diabo do mensageiro. Aliás até é cretino acusar um media de ser isto ou aquilo, quando trabalham lá 40 ou mais pessoas, com muitos credos e filhos de muita mãe.

  2. A maioria das páginas disfarçadas de sátira no Facebook são de esquerda, algumas BE, muitas PCP e outras do PS. É claro que também há de direita, mas como em Portugal a direita não é bem vista, não se dá a ser humorista (não tem licença) nem pode satirizar, poucas são as que colhem e sobrevivem. Como e que eu sei isso? Qualquer pessoa que espreite o conteúdo dos posts repara que eles são altamente tendenciosos para um dos lados (contra a direita) e noutros, além desses alvos, também temos os partidos do espectro esquerda a abater (as páginas dos amigos do PCP batem muito no BE por exemplo).
    Todas elas fingem ser amigas do povo a denunciar “os políticos” – só alguns – e os desmandos do país (só os que interessam). Agitam a luta de classes e fomentam a conspiração. Pode-se menosprezar, mas é graças a elas que diariamente milhares de posts são partilhados com desinformação, acusação e propaganda. Alguns exemplos.

    https://www.facebook.com/Yronikamente/?fref=ts

    https://www.facebook.com/UmaPaginaNumaRedeSocial/?fref=ts

    https://www.facebook.com/ostruques/?fref=photo

    1. Obrigado, Fernando. Cada vez me distancio mais destas indignaçõezinhas ‘à la carte’ que levam demasiada gente a consumir energias com irrelevâncias em vez de as guardarem para aquilo que realmente importa.

  3. “O tolo não tem a coragem dos sábios e teme as sombras que lhe aparecem como portas fechadas sobre o mistério. Abrem todas para dentro. Nos instantes de curiosidade, espreita pelo buraco da fechadura, retira os olhos espantados e orneia etéreos disparates que os outros gericos não entendem. O tolo irrita-se contra os asnos, muito vaidosos da sua albarda e do pedaço de asno que os monta. Os burros perfeitos não pertecem á Humaidade. O homem não é um todo; é um pedaço; uma orelha de burro desenvolvida e adaptada às formas dum ser completo. Mas, no ìntimo, não é mais do que uma orelha, onde arde a perisca de um cigarro, para que o triste miserável trote, salte, escoicei, meta o focinho entre as pernas e se empolinhe e rebole no chão, com as patas no ar desesperado!
    Eis o homem e a sua tragédia. “

    (O Pobre Tolo) 1924

  4. Declaração de interesses: sou transmontano.
    E porque nunca fui charlie (registei-o aqui na 1ªa hora), passo ao comentário:
    1. “Vivemos submersos em diluviões de retórica suscitada pelos mais irrelevantes temas.”
    Os diluviões de retórica sobre o AO e a comparticipação pública dos colégios privados não são menos irrelevantes.
    2. “… um canal de televisão que ninguém ouve nem ninguém vê.”
    Eu vejo, oiço e recomendo. E desde quando as audiências são critério de qualidade?!
    3. “Acontece que eram extraídas de uma entrevista de 2010.”
    Por acaso sabe quantos espetáculos entretanto ele deu por cá? Em cada um deles ele ofendeu quem lhe pagou e quem o aplaudiu. Sabe-se agora. Porque ninguém pode dizer o que ele disse acerca da gente para quem, a seguir, vai cantar. Pelos vistos, não cantou – deu música. E as pessoas daqui levam muito a sério o ditado: quem se não sente não é filho de boa gente.
    4. “… reparar na data antes de consumir.”
    Eu sei que vivemos num mundo de consumismo.
    Acontece que, por estas bandas, o respeito e a boa educação não se consomem nem têm prazo de validade.

    1. O meu amigo é transmontano?
      Muito me espanta. Os transmontanos que eu conheço costumam assinar as opiniões que emitem. E – já que pretende emitir lições de etiqueta – mandam o respeito e a boa educação que não se entre em casa alheia com o rosto velado e a identidade incógnita.

    2. Irrelevante, portanto, a denúncia da vergonha indefensável do AO90 . Há gente que convive bem com o esterco demonstradamente mais repugnante (é mera retórica e irrelevante essa demonstração). Dir-se-ia até que se revigora nele. E, é de temer, levará a sua avante.

      Aliás nivelar por baixo é que é missão patriótica e progressista.

      Costa

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