A música pop e a idade


escafandro,

O meu consumo de música pop começou a declinar por volta dos vinte anos e qualquer coisa, cerca de meados dos anos oitenta, e aos trinta a minha ignorância na matéria já atingia proporções cósmicas. Uma desgraça para alguém que, em tempos de pré-adolescência, sabia de cor os nomes de todos os membros de muitos grupos rock, inclusive alguns que, por pudor, não ousaria hoje nomear. Ainda tentei algumas vezes, sem muita convicção, e a conselho de amigos, ouvir coisas novas, mas, tirando uma vez ou outra, não percebi ou não me interessou. Continuei a ouvir, é claro, de tempos a tempos, música que ouvia em tempos passados (os Beatles ou os Kinks, ou os RoxyMusic, por exemplo) e certas coisas novas feitas pelas pessoas que eu costumava ouvir: Leonard Cohen, Zappa, LouReed às vezes, algum Dylan – e David Bowie, em primeiro lugar. Não se nasce impunemente em 1960.

Suponho que, com estes ou outros nomes, é uma experiência comum. As pessoas crescem, esquecem, envelhecem, e depois já é tarde demais para voltar a aprender um entusiasmo ou outro.

Paulo Tunhas, no Observador.

 

Será uma experiência comum mas baralha-me há muito. Estou ciente do poder da inércia mas estranho a capitulação. Percebo que se vão adquirindo outros gostos (raras pessoas ouvem A Love Supreme, de John Coltrane, ou a oitava sinfonia de Mahler aos dezoito anos) mas confunde-me que isso suceda através de um processo de substituição. Para mais, quando este é incompleto: não se abandonam os gostos da juventude, apenas se prescinde de ganhar outros.

Nada disto ocorre no cinema: muitos podem preferir os filmes do tempo em que cresceram, ou mesmo os «clássicos», mas nenhum fã de cinema se recusa a assistir e, quando entende adequado, a elogiar os actuais. (Pelo contrário: ficar preso a filmes «antigos» é visto com estranheza.) Não ocorre também na literatura: mesmo quem pensa que todas as grandes histórias já foram escritas não se sente impelido, por desagrado ou inércia, a evitar as obras de autores contemporâneos. Em qualquer arte, conhecer trabalhos do passado (e, em particular, os que marcaram a evolução dessa arte) evita gritos extemporâneos de originalidade mas não obriga ao desinteresse. As obras que descobrimos na juventude são com frequência as mais marcantes mas não têm o poder de se impor como exclusivas. Excepto na música pop/rock.

Precisamente: falamos de música pop/rock, argumentarão alguns. Por já não constituírem desafio suficiente, filmes e livros de certos géneros também se vão abandonando com a idade, mantendo-se apenas uma relação cúmplice com aqueles que nos encantaram na juventude. Talvez. Mas será a boa música pop/rock assim tão simples e evidente? Eu arrisco dizer que pelo contrário. Que há nela uma dificuldade especial, maior do que a existente na literatura e no cinema contemporâneos, que a torna problemática para todos aqueles a quem (desculpem lá) a idade entorpece. A melhor música pop/rock recusa-se não por ser básica e repetitiva mas por – de forma algo similar à música «clássica» contemporânea – ainda conseguir ser estranha. No cinema e na literatura, a estranheza instintiva, quase epidérmica, já é rara. Tristam Shandy tem um quarto de milénio. O monólogo de Molly Bloom (depois dele, será possível estranhar alguma coisa na literatura?) aproxima-se do século. No cinema, Un Chien Andalou surgiu há quase noventa anos e depois do surrealismo de Buñuel tivemos muitos outros, incluindo o de David Lynch. O minimalismo e o grau de exigência de Bergman e Dreyer prepararam-nos para quase todos os filmes «lentos» que vieram depois e a sequência final do 2001: Odisseia no Espaço não nos permite grande surpresa quando assistimos a The Tree of Life, de Terrence Malick. Mas a música pop/rock tem uma história relativamente curta e a estranheza ainda é frequente. De tal modo que, muitas vezes, a renúncia é temporária: há bandas que são postas de lado à primeira audição mas que, anos depois, mais ou menos entradas na consciência colectiva (para não escrever no cânone do pop/rock), já se apreciam. No fundo, o que os Animal Collective (novo álbum dentro de dias) faziam por volta de 2010 não era substancialmente diferente do que David Bowie ou os Velvet Underground levavam a cabo por volta de 1970, os Joy Division por volta de 1980 ou os Nirvana por volta de 1990: moldavam sons e palavras em canções que primeiro se estranham e depois se entranham. Todavia, embora certamente recordados de quão incompreensível lhes era na adolescência a indiferença (quando não a hostilidade) dos seus pais em relação à música que ouviam, poucos «adultos» actuais se dispuseram a prestar-lhes atenção. Talvez dentro de mais uns anos.

0 comentários em “A música pop e a idade”

  1. Sim as pessoas precisam de partir para prolongarem as sensações de descoberta de quanto eram jovens. Por isso a atitude do Paulo Tunhas é estranha para mim.
    Nunca fui muito amigo de Pop – depende do que se considera Pop- e a música que se faz agora basicamente é recauchutada. Um bom exemplo é essa música que colocou: a reacção foi epidérmica já ouvi isto algures noutros tipos e não tem nada de novo.

    Por isso andei para trás. 50’s, Barroco etc

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