A estratégia para o Grexit.


Luís Menezes Leitão,

Ao contrário de alguns colegas deste blogue, não penso que haja errância ou incompetência neste jogo que o governo grego tem vindo a jogar. Como aqui escrevi, acho que há uma estratégia pensada desde o início para transformar a Grécia numa nova Cuba. Nessa estratégia inclui-se naturalmente o repúdio da dívida, imitando o que Rafael Correa fez no Equador em 2007, e uma aproximação à Rússia, que Tsipras tem vindo a demonstrar todos os dias. Da mesma forma que Otelo em 1975, Tsipras aspira a ser o Fidel Castro da Europa. Para esse efeito Varoufakis fez o papel de entertainer, fazendo propostas absurdas ou discursos inflamados no Eurogrupo, o que impediu qualquer negociação séria. Mas, na altura em que se perspectivava um acordo, é anunciado o referendo onde será fácil apelar ao não, invocando as constantes humilhações a que os gregos, um povo orgulhoso, têm vindo a ser sujeitos. O referendo foi visto como um balde de água fria para os credores, mas é evidente que era o passo necessário para a saída do euro. Em que outra coisa a coligação Syriza-Anel, a extrema-esquerda com a extrema-direita, poderiam estar de acordo? A saída do euro foi seguramente desde o início o traço de união desta coligação, não admirando por isso que ambos estejam a apelar ao não no referendo, como também o faz o Aurora Dourada.

 

É por isso que a frase de Cavaco Silva, de que se a Grécia sair ficam 18 no euro, é a antologia do disparate político. Apesar das suas evidentes fragilidades, o euro neste momento é o principal obstáculo à ascensão dos extremismos em toda a Europa, pelo que é naturalmente objecto de ataque feroz por parte dos mesmos. Marine Le Pen já se intitula Madame Frexit, e muitos outros extremistas se seguirão, a dar a machadada final nesta moeda, para o que diga-se de passagem a estupidez dos líderes europeus muito tem contribuído. Tivessem Papandreou e Simitis sido tratados de outra forma e hoje não estaria a Grécia nas mãos de Tsipras e Varoufakis.

 

Estou, no entanto, convencido de que a estratégia do Syriza vai falhar, pois o sim vai ganhar no domingo. Ao contrário do que o Syriza esperava, os gregos puderam ver nestes dias o que seria ter a Grécia como a Cuba da Europa: Bancos sem dinheiro, controlo dos levantamentos, corrida aos supermercados, e filas de pensionistas para receber as suas pensões. Não me parece que a retórica inflamada e a ameaça de demissão do governo do Syriza os faça querer prorrogar mais um único dia esta realidade.

0 comentários em “A estratégia para o Grexit.”

  1. Também estou convencido que a maioria dos gregos vai dar com os pés no Syriza. Mesmo assim, aquele povo vai passar uma mau bocado, mas penso que por culpa própria e não por culpa dos outros povos da Europa. Digo isto por que vejo nas suas palavras uma maneira de desculpabilizar os gregos, o que não me parece correcto – desde há muito que a Grécia vive acima das suas possibilidades e isso era notório.

  2. Basta irem fazer um referendo sobre algo que caducou para se constatar a sua enorme competência.

  3. Penso que o Luís está equivocado: os gregos estão, somente, a tentar tratar das suas vidas! Na sua análise, esquece-se facilmente das tentativas de ingerência nas eleições gregas, de modo a impedir o Syrisa de as ganhar, usando a estratégia de sempre: o medo.

    Os estudos que estão em cima da mesa dizem todos a mesma coisa: a aplicação da austeridade nada resolveu; antes, piorou o que já estava mal (estudo do FMI) e que as medidas propostas pelas instituições fazem com que a Grécia se mantenha na corda-bamba até 2030 (segundo The Guardian, aqui citado no JN http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=4654580 ), altura de pedir novo ‘resgate’. O que os gregos vão escolher no referendo é se aceitam pelo menos 15 anos sem esperança (votando Sim) ou se aceitam os graves riscos de não ter coisas básicas (alimentação, energia, medicamentos, etc. ao escolher o Não).

    No fundo, o problema (que teve a sua origem no sector financeiro, o qual absorveu mais de metade da “ajuda financeira”) não está a ser tratado. O que parece importar aos líderes europeus é o vergar dos gregos à sua ortodoxia, a começar pelos seus líderes ‘acriançados’. Nem que, para isso, se ignore o que dizem os números…

  4. Um deputado turco falou há dia em a Turquia dar ajuda à Grécia. Isto é mera conversa ou poderá ter algum significado?

  5. Que havia uma estratégia lá isso havia. Era uma estratégia pensada, reflectida e tinha como propósito fazer com que a Grécia deixasse de ser o Biafra da Europa, pois a este estado foi conduzida quer pelos governos internos (PASOK e Nova Democracia) quer pelos governos europeus, em particular aqueles mais chegados aos ditos mercados.

    Neste sentido, dizer que os Gregos pretendiam transformar aquele país numa Cuba da Europa não só é incorrecto como pretende esquecer, por exemplo, que quem originou esta nova guerra fria foram precisamente aquelas potencias europeias que vêem os demais países da Europa não como membros efectivos e parceiros mas como um número que lhes garanta as estratégias por eles e só por eles cozinhadas.

    Tsipras/Varoufakis são a dupla que ficará na história do povo grego, mas também na história contemporânea europeia. Pois constituíram-se o impulso regenerador e transformador desta falsa União.
    E é tão verdade esta afirmação que são as ditas “instituições” que confirmam e reconfirmam agora toda a linha negocial apresentada pela referida dupla:
    http://expresso.sapo.pt/economia/2015-07-01-FMI-puxa-as-orelhas-a-gregos-e-credores-europeus

    A Grécia trará novas surpresas, e desengane-se quem pensa que qualquer que seja a votação neste referendo, e até mesmo o sim, marcará a capitulação da Grécia.

    Por último, o que os europeus puderam ver nestes dias é que na realidade os mercados são só e somente o Bundesbank e seus congéneres internacionais. Como tal o mundo ficou a saber que seus governantes não passam de marionetas e que os povos são usados como alimento de uma máquina financeira.

    Tudo o demais que foi produzido em torno desta questão em Portugal na sua maioria não passou de devaneios pseudo-políticos para preencher tempo, uma vez que ideias para preencher o vazio político, económico e social não existem quer da parte dos governantes quer da parte da sociedade.

  6. corrida aos supermercados e filas de pensionistas para receber as suas pensões

    Tanto quanto as reportagens da Grécia nos afirmam, a vida corre por lá normalmente, em particular não há quaisquer corridas a quaisquer supermercados. Quanto às filas de pensionistas para receber pensões, essas também as há em Portugal, como o LML poderá constatar em qualquer estação dos correios nas datas apropriadas. (Eu bem sei que, como advogado, o LML tem quem vá à estação de correios por ele. Pois bem, pergunte a esse alguém se não é verdade que em certos dias do mês as estações estão cheias de velhinhos que lá vão receber a sua pensão.)

  7. Concordo parcialmente com a análise, mas faço-lhe notar que escreveu antes isto:

    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sobre-o-joelho-7490477

    onde concluía então: – “A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores.”

    Sim, parece-me que houve desde o início um objectivo em sair do Euro, ainda que o percurso tenha sido suficientemente errante, onde era fácil confundir incompetência com estratégia de ganhar tempo e maior apoio interno.

    O Syriza não tinha mandato para sair do Euro, e poderia até nem ter apoio suficiente. Mas, se o “não” ganhar, terá.
    A proposta da UE é de fácil recusa para uma boa parte dos gregos, mesmo que tenham passado uma semana sem bancos. Simplesmente porque o “sim” visa o prolongar de uma agonia com parceiros europeus que se esforçaram por se mostrar inflexíveis, e assim não prometerá nenhum futuro auspicioso. O “sim” remeterá para o caminho passado de austeridade sem futuro, que uma boa maioria dos gregos recusou nas últimas eleições.
    Por isso, este plano de Tsipras estava provavelmente planeado desde quase o início, desde que os parceiros da UE zombaram da nova administração grega.

    A Albânia está ali ao lado, e foi fácil ser isolada e ignorada durante décadas, mas será muito, muito mais difícil ignorar a Grécia. Por isso, há já um conjunto razoavelmente grande de países “maus alunos”, que podem formar entre si acordos à margem do “mercado internacional”.
    É claro que podem ser classificados como “eixo do mal”, como é sempre tão simples fazer, para génios como G.W. Bush, mas será muito mais difícil fazê-lo quando um deles é a Grécia.

  8. Vale a pena ler os comentários a este post perceber como é difícil alterar as mentalidades e como pesam os preconceitos. Repare-se nestes dois exemplos: o Vento sopra sempre para o mesmo lado e o Lavoura anda sempre de passo trocado.

    1. Claro, em regra as pessoas não mudam de opinião todos os dias (salvo raras excepções como Freitas do Amaral)

      1. Eu sei que as pessoas não mudam de ideias todos os dias, mas parece-me que o Freitas do Amaral não é um bom exemplo de quem muda muitas vezes. Eu até acho que ele nunca mudou – a ideia dele é estar sempre à tona, nem que tenha de vender a alma ao diabo, como se tem visto.

  9. «O presidente do Parlamento Europeu defende que se o “sim” sair vencedor do referendo de domingo, o governo liderado por Alexis Tsipras terá de apresentar a demissão. Num cenário destes, o social-democrata alemão considera que seria necessário um governo tecnocrata de transição que assegurasse a continuação das negociações com os credores.»

    (Jornal Negócios, de hoje)

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