Cai o pano


Sérgio de Almeida Correia,

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Se a convocação do referendo por parte de Alex Tsipras podia ser compreendida à luz das regras democráticas, a que os Estados dominantes da União Europeia têm fugido sempre que possível quando se trata de confrontar as suas decisões com a vontade dos povos, já o mesmo será difícil de dizer da errância de que tem dado mostras. Seguramente que não é fácil gerir um país na situação grega, sendo certo que o estado a que a Grécia chegou não foi fruto da irresponsabilidade dele ou de Varoufakis, mas sim de um conjunto de factores que vão da irresponsabilidade dos governos anteriores, tanto do PASOK como da Nova Democracia, que foram encanando a perna à rã, aldrabando as contas aos credores e disfarçando reformas, como foi também da ganância dos agiotas que, podendo ir acompanhando o que não ia sendo feito permitiram o arrastamento da situação através de sucessivos financiamentos, enquanto viam o défice crescer e as reformas necessárias eram trocadas por juros cada vez mais altos.

Para quem foi fustigado ao longo de meia dúzia de anos com sucessivos, e cada vez mais gravosos, pacotes de austeridade, com o dinheiro, as poupanças e as pensões de reforma a desaparecerem, o apelo do Syriza e a folha limpa que os seus líderes apresentavam em termos governativos aparecia como uma janela de esperança.

Volvidos estes meses é a própria esperança que se esvai. O pouco capital de credibilidade que ainda poderia possuir, Tsipras alienou-o da forma mais tonta e grotesca que se poderia imaginar. Porque em atenção às propostas que levaram o Syriza ao poder, se era legítimo que o referendo fosse convocado, independentemente do facto de isso já dever ter sido feito há mais tempo, isto é, logo que se apercebeu de que não conseguia lograr os seus intentos e que a continuação da negociação implicaria a rejeição do contrato eleitoral, não poderia fazê-lo revelando a incoerência de apelar ao voto no “não” e, ao mesmo tempo, continuar a negociar os termos da capitulação que entretanto aceitara. Para quê uma nova carta depois de dizer não aos credores e de ter anunciado o referendo?

Tsipras e o Syriza perderam a credibilidade. E, mais do que isso, perderam a razão. Que era não só a deles mas também a do povo grego, entregando-o à sua sorte, que em caso de vitória do “sim” no referendo, a meu ver previsível nas actuais circunstâncias, será igualmente a misericórdia dos credores. O desfecho, na linha da tradição dramática grega, não podia ser mais trágico.

Para a dignidade de um povo a vergonha do enxovalho por incompetência e espalhanço do mandatário é bem pior do que uma situação de incumprimento por carência objectiva de meios. Pode ser que a lição possa servir a outros, incluindo aos portugueses.

0 comentários em “Cai o pano”

  1. Creio que lhe faltou observar um pormenor que altera completamente a sua reflexão.

    Os ditas instituições e/ou credores sabiam que a Grécia entraria em incumprimento a 30 de Junho e dias subsequentes. Tendo conhecimento desta situação tudo fizeram para subjugar quer a nação grega quer os representantes gregos aos seus objectivos.

    Neste cenário, que é verdadeiro, a convocação do referendo foi uma ideia adulta, ponderada e inteligente.

    Qualquer que seja o resultado do referendo, e o não, não obstante as últimas notícia (eu disse notícias e não as sondagens reais), será o mais provável, ninguém pense que a Grécia capitulou e que a Europa não mudou.

    Curiosamente, são as ditas instituições que vêm agora corroborar toda a linha de pensamento e negociação de Tsipras/Varoufakis:

    http://expresso.sapo.pt/economia/2015-07-01-FMI-puxa-as-orelhas-a-gregos-e-credores-europeus

    1. Vento por favor caia na real !

      A Europa vai mudar, vai ser ainda para pior, agora que já tem um exemplo para servir de espantalho.

      Eu que até não percebo nada de jogos penso que Tsipras e Varoufakis deveriam ter levado a sua mão até ao fim ainda que só tivessem um par de duques.

      É esta falta de cojones tipica desta “esquerda” que nunca lhe permitirá governar e obter resultados palpáveis para as populações.

      Em Portugal o exemplo mais flagrante desta esquerda titubeante é o PS e o BE , ás vezes até falam grosso mas quando lá chegam ou não sabem fazer e dividem-se porque são muito heterogéneos ou então voltam o bico ao prego como de certeza irá fazer o PS de Costa se for governo.

      P.S. – Nunca senti empatia por Seguro porque ele quis viver uma paz podre e não foi capaz de “sangrar” o PS quando tal era necessário para o bem dele, do PS e de Portugal.
      Obviamente Costa esteve sempre em stand-by , urdindo na sombra e esperando o desgaste de Seguro que aconteceu pela sua inabilidade em dar murros na mesa, blindou os estatutos e pensou que isso chegava mas como toda a gente sabia menos ele não chegou.

      1. Meu caro William,

        você vem fazer campanha, mas eu estou noutra neste comentário. Também sei fazer isso.

        Quanto aos jogos, o que o William pensa é o que o William pensa. Só neste sentido, o de pretender dizer o que pensa, respeito seu comentário.

        O que proferi está proferido e só no fim do jogo é que se saberá o resultado.

        Não gosto de me repetir.

        Não, não o despacho. Despacho-me somente neste comentário.

  2. Também fiquei muito desapontado nesta recta final com a sugestão de negociações enquanto não chega o referendo. A Merkel neste caso tem razão. Não faz sentido negociar antes da realização do referendo.

  3. Sem dúvida de acordo !
    Tsipras ao sair das negociações afirmando que estava a ser chantageado, conseguiu sair bem, apesar de toda a contra-informação veiculada pelos eurocratas e o FMI.

    Ao convocar o referendo ganhou ainda mais ” elan ” para os gregos e a sua causa no entanto enviou ontem aquela carta que o FMI prontamente exibiu e a partir desse momento selou a sua completa derrota e a dos gregos.

    Eu que sempre aqui disse que os gregos pretendiam morrer de pé e com a razão do seu lado (porque a têm na minha opinião) fiquei de pé atrás e como já disse num post abaixo, não são governos desta esquerda que nos vão salvar da irresponsabilidade que é posta em prática todos os dias pela Europa.
    Tsipras e Varoufakis não os tiveram no sitio (e só precisavam de aguentar 5 dias) e a sua derrota já foi selada.

    1. Meu caro,

      você anda desatento e pede aos outros para caírem na real.

      A carta por eles enviada dizia respeito a uma negociação em curso e tinha uma contraproposta. Mais uma vez o acordo não foi alcançado.

      O William parece que saiu das dúvidas eternas em que permanecia para as certezas absolutas, e começa a “espalhar-se”. Pode ser efeito de contágio.

      Mas continuemos para a substância e com dados fidedignos:
      http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11712094/Alexis-Tsipras-refuses-to-bow-in-the-face-of-threats-to-shut-down-Greeces-banking-system.html

      1. O governo Grego abandonou as negociações na Sexta-Feira passada após ter visto recusada uma proposta que já englobava bastante austeridade, na minha opinião a sua saída foi mais que lógica e permitiu-lhes SAIR POR CIMA (negrito) e o posterior anuncio do referendo foi o golpe mais certeiro que poderiam ter dado para recuperarem a iniciativa de modo muito amplo.

        O que não compreendo é que após terem dito que não negociavam MAIS (negrito) até ao resultado do referendo terem dado o dito por não dito PERDENDO (negrito) assim toda a vantagem que tinham e sujeitando-se a mais indefinição o que só favorece o outro lado que de certeza ia amochar a bem de nós todos.

        É o que penso.

        Quanto á sua outra resposta, só tenho a dizer-lhe que se algum dia fizer campanha aqui no DdO será pelo PCP (não sou comunista) pois é o único partido de esquerda que tem fibra e não vacila ou caso apareça algum partido de centro direita e Soberanista composto por pessoas idóneas e inteligentes e que queira começar a limpar o lodo em que Portugal está metido.

        P.S. – Creio que já me lê á tempo suficiente para perceber que sou uma pessoa que não vai em modas e tento ser o mais isento possível, tal como eu lhe reconheço essas qualidades apesar de eu achar que põe muita fé neste PS, mas até isso é bom pois ainda existem pessoas com ESPERANÇA (negrito).

        1. William,

          eu compreendo o que pensa. O que eu penso é que se novas propostas foram apresentadas pelo Eurogrupo, então, havia que as analisar. Sucede que da última proposta por estes apresentadas eles, os gregos, colocaram um SE e fizeram depender as condições na carta que referiu, e que eles escreveram, a esses pormenores.

          Não sendo aceite tudo voltou ao início. Não vejo contradição alguma.

          Por último, deve fazer campanha por quem entende ser o mais adequado. Olhe, é bom que faça campanha pelo PC e até mesmo que vote no PCP. Portugal necessita do PS, do PCP, do BE e de todos os de boa vontade, com excepção para PSD/CDS, incluindo os democratas-cristãos. Sejam eles católicos, ortodoxos, baptistas, evangelistas, testemunhas de Geová…

          E volto a afirmar, o PS vai ter mesmo de mudar as linhas com que também se coseu no passado. Mas neste momento quem está a julgamento é esta extrema direita fascista/estalinista representada pelo PSD/CDS-PP.

          Chegou a hora de nos unirmos contra o diktat e seus mordomos.

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