José Silva Peneda
Falta alguém com sensibilidade social em Belém? Pois aí têm essa pessoa: o presidente cessante do Conselho Económico e Social, que nesta qualidade assinou alguns dos documentos mais contundentes contra a austeridade que ficaram a marcar a era da tróica em Portugal.
Conotado com o cavaquismo puro e duro, amigo do ainda inquilino de Belém, José Silva Peneda foi um discreto ministro do Emprego e da Segurança Social em dois governos de Aníbal Cavaco Silva. Mas soube compensar esse período de ausência das manchetes jornalísticas pelas suas mais recentes funções: era rara a semana em que os críticos do Governo PSD/CDS não citavam um parágrafo produzido pelo CES. E quase fizeram de Silva Peneda o seu herói.
Este nativo do signo Gémeos, de 64 anos, está na reserva da república. Mobilizável a qualquer momento, como se dizia no tempo dos nossos egrégios avós.
Prós – O mediatismo dos últimos anos: agradou a uma certa esquerda sem desagradar em excesso a uma certa direita conotada com o catolicismo social. Opõe-se ao aborto ortográfico. Silva é um apelido que o liga ao cidadão comum enquanto Peneda lhe confere uma aura de solidez.
Contras – Suavizou o pendor crítico do CES quando começou a constar que figurava na lista dos proto-candidatos a comissário europeu. Na altura, chegou a transmitir essa ambição de forma talvez demasiado franca. Preterido por Carlos Moedas, trocou o CES por Bruxelas, a convite de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia – um dos ramos da tróica, por sinal.

![silva_peneda[1].jpg silva_peneda[1].jpg](http://3.fotos.web.sapo.io/i/B3e11d2b9/18332500_Ju6ze.jpeg)
Sim, um cavalheiro que escreve cartas pessoais a Wolfgang Schäuble é homem, sei lá (e perdoe-se o mau gosto), para o fazer levantar da cadeira de rodas, coisa de que Gaspar se revelou incapaz.
Já agora, quanto irá ganhar e a que popó terá direito como burocrata em Bruxelas? Mera curiosidade doentia da minha parte…
Mas parece-me que ao centro-direita há um problema e dos bicudos – MRS tem alguma piada (mas bastante gasta) como comentador, e apenas isso (no último Domingo, além de ter oferecido em directo mais um bolo(!), de se ter referido detalhadamente ao caso Jesus-Lopetegui, foi responder à pergunta “Acha normal que o motorista de um governante ande com droga no carro?” — como já é hábito, vem torrando a paciência do espectador falando, ainda por cima sem conhecimento concreto, de toda e qualquer irrelevância), Rio não é manifestamente fadado para o cargo e Santana Lopes tem o passado de flops que todos conhecemos.
Laborinho Lúcio (estará definitivamente posta de parte a sua candidatura?), Silva Peneda ou mesmo Fernando Negrão não me parecem hipóteses a rejeitar.
(Já quanto aos problemas de Costa ter em Belém um baladeiro, isso é outra conversa).
Fica a minha promessa: daqui a oito textos termino esta série. Meia centena já permite muita escolha. À esquerda e à direita.
Como este há centenas, talvez milhares, em Portugal. Gente incapaz de se impor, incapaz de rupturas, sempre preocupado em agradar a gregos e a troianos.
Ninguém antipatiza com ele precisamente por isso. Porque também ninguém simpatiza especialmente com ele.
Como diz o povo, não é carne nem é peixe.
Não passa de um muito respeitável “comissário”.
E tem um defeito imperdoável: é amigo do que “lá está”…
Juncker parece ter apreciado os méritos deste proto-candidato presidencial que chegou a ser pré-candidato a comissário europeu.
Já deu o que tinha a dar……..
Quase. Esta série ainda tem mais oito “presidenciáveis”.
Tive de contactar com ele numa conferência em que participámos. Tipo detestável.
Que te fez ele, António? Mandou-te um sms insultuoso à meia-noite?
Se mandou, não vi. De resto, um congresso internacional em Lisboa, na antiga FIL. Convidaram-me e eu disse que não, mas depois houve mais alguns contactos e eu acabei por ir. Na sessão em que participei era só gente conhecida a intervir; o único desgraçado era mesmo eu. Ele moderava. Tratou-me sempre como o desgraçado no meio daquela gente ilustre. Vê-se muitas vezes – pisa quem está abaixo, lambe as botas de quem está acima. Não é só na política e nos meios empresariais (era o caso daquele congresso). Uma vez, na Casa Fernando Pessoa, Luis Sepúlveda fez exactamente o mesmo. Um debate com estrelas e eu pelo meio. Ele moderava. Tratou as estrelas como estrelas e o jovem de Monchique (eu ainda era um jovem nessa altura) como se fosse um criminoso nem cheguei a perceber de que crime. Eu estava lá porque me tinham convidado, não tinha pedido para ir. Como procuro tratar toda a gente da mesma forma, correctamente, este tipo de coisas faz-me sempre confusão.
Fica descansado, António. O Sepúlveda não passará nesta série dos presidenciáveis.