O medo dos bárbaros


Luís Naves,

As pessoas vivem vidas confortáveis no constante receio de brotar do caos um elemento que possa virar o barco onde viajam sentadas. Devemos defender as nossas cidades e erguer muralhas bem fortes. Teoricamente, temos  pena dos pobres, até enfrentarmos um verdadeiro pobre. A miséria não é para sentir ou cheirar, é para admirar à distância, como quem observa a diversidade no jardim zoológico, lugar de exibição que apenas serve para confirmar a superioridade da nossa própria espécie. Assim, o que vemos na televisão sobre deserdados funciona como os documentários da National Geographic, a cores, em alta definição, suficientemente exótico e distante para nos interessar. Não gostamos da realidade, apenas da irrealidade. Os bárbaros são os diferentes; nós somos os indiferentes. Amontoamos belas palavras sobre a dor das vítimas, a inépcia dos desadaptados, mas queremos os nossos direitos e ficamos espantados quando os miseráveis não se levantam da sua miséria.

Assisti ontem a uma cena interessante, mas sem moral ou sentido do qual se possa tirar uma conclusão: um homem de aspecto miserável, pedinte mal-cheiroso, estendia a mão ao fundo das escadas da boca do metro, abrigado da chuva miudinha. A funcionária do metropolitano veio imediatamente e mandou-o sair dali. Que fosse estender a mão à chuva. Na véspera, aquela mesma funcionária estivera em greve, a defender os seus direitos.

0 comentários em “O medo dos bárbaros”

  1. A funcionária do metropolitano estava apenas (creio eu) a obedecer às ordens do seu patrão. Ela não expulsou o pedinte por não gostar dele, mas sim porque o seu patrão lhe mande que expulse os pedintes. Não se trata de um ódio pessoal dela nem tem nada a ver com ela ter estado em greve no dia anterior.

    1. Claro, estava a obedecer a ordens. A culpa é do patrão. Isto não tem a ver com a greve da véspera. É como refiro no texto, não podemos extrair uma moralidade desta história. Isto não nos deve incomodar.

      1. Há coisas que já desisti de explicar mas se, de repente, sinto um irresistível impulso de tentar demonstrar outro ponto de vista como, por exemplo, que somos todos culpados desta tragédia humana e a facilidade com que sacudimos a água do capote porque há sempre alguém para arcar com as culpas… enfim… voltando ao tal impulso, faça como eu… as paredes pelo menos ouvem e até fico com a sensação de que estão cada vez mais inteligentes, pelo menos, relativamente aos cérebros humanos que estão a encolher mas que, talvez para compensar, tentam, a todo o custo, pôr mais uns Gigabytes nos computadores e há quem nem se aperceba que têm um smartphone mais smart do que o próprio dono lol
        Quanto ao exercício cerebral, o desgraçado cérebro está condenado, nem o cheiro a Verão desperta a vontade de um pouco de exercício… como já uma vez referi… também vai à praia mas não precisa vestir biquini ou mostrar os bíceps lol

  2. Excelente texto
    Vivemos na irrealidade, sim, protegemo-nos na ilusão. Por isso é que programas como a Casa dos Segredos têm tanto êxito. No fundo, são o prolongamento da ilusão que criamos, é o “brincar às casinhas” dos adultos.

  3. Vou contar uma história verídica que sempre me impressionou.
    Há muitos anos fui chamado para a tropa (ainda havia guerra em África) para o curso de oficiais milicianos. Revoltava-nos, e de grande, a maneira como os oficiais do quadro nos tratavam e a disciplina, etc. Passados uns meses fomos promovidos a aspirantes e depois a alferes. Todos os meus colegas passaram a fazer aos soldados o mesmo que, no curso de oficiais milicianos, nos faziam!!!
    Excepto eu, em abono da verdade. E ficava espantado com o que os meus amigos faziam tendo em conta como reagiam enquanto soldados cadetes.
    Como não me quero gabar, mantenho o anonimato. Mas isto é verdade.

    1. Agradeço estes comentários. Quando fiz a tropa, também vi o que o senhor descreve, mas já não havia guerra em África e a disciplina, certamente, não tinha comparação

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