Então ninguém fala da Finlândia?


Sérgio de Almeida Correia,

Quando esta manhã dei comigo a olhar para o resultado das eleições na Finlândia, país que vai a caminho do quarto ano de recessão, cujo rating baixou, que tem assistido a um aumento dos custos do trabalho, a uma diminuição da sua população e ao esvaziamento de algumas empresas-bandeira, não tendo uma pesada herança socialista, só pensei o que faria o nosso Presidente da República se fosse o Presidente da Finlândia. Recorde-se que a Finlândia tem um sistema parlamentar unicameral, que a sua Constituição foi revista em 2000, que também aí vigora a representação proporcional com recurso ao método de Hondt e que o partido mais votado nas eleições obteve 21,1% dos sufrágios válidos, correspondentes a 49 deputados num Parlamento de 200. 

Se em Portugal há quem diga que o país é ingovernável sem um entendimento entre os principais partidos, e se o Presidente da República não está disposto a dar posse a um governo minoritário, que diriam da nossa democracia se acontecesse verificar-se entre nós uma situação idêntica à da Finlândia, com um sistema multipartidário bastante fragmentado e onde se prevê que as negociações para a formação do próximo governo durem várias semanas?

Para os que apregoavam o exemplo nórdico, à direita, e se preocupavam tanto em ter sempre um orçamento aprovado a tempo e horas, num país arrumadinho e obediente, às direitas, os resultados das eleições finlandesas e a abertura de mais uma frente de incerteza na Europa deveria ser motivo de preocupação. Não é por nada, mas uma situação destas é cada vez mais um cenário possível em Portugal para depois do Verão. 

Para Cavaco Silva, que teimosamente recusou antecipar as eleições para se proteger da borrasca, seria um final de segundo mandato em grande, antes de ir tratar dos medronheiros. Um final em beleza a coroar a sua brilhante passagem por Belém.

Results with 100% of votes counted
Centre: seats: 49 (+14) 21.1%
Finns: seats: 38 (-1) 17.6%
NCP: seats: 37 (-7) 18.2%
SDP: seats: 34 (-8) 16.5%
Greens: seats: 15 (+5) 8.5%
Left: seats: 12 (-2) 7.1%
SPP: seats: 9 (0) 4.9%
CD: seats: 5 (-1) 3.5%
Other: seats: 1 ( 0) 0.6%

0 comentários em “Então ninguém fala da Finlândia?”

  1. (1) Estes resultados nada de anormal têm para a Finlândia. Nesse país, é normal haver muitos partidos parlamentares, e todos os governos são de coligação. Uma tradição diferente da portuguesa.

    (2) Pode ser mais fácil formar uma coligação quando há muitos partidos, como na Finlândia, de que quando há poucos, como em Portugal. Porque com muitos partidos há muitas opções de coligação e porque sobrará sempre alguém para fazer oposição.

    (3) O sistema político português tem a pecha de ter 20% do eleitorado (aqueles que votam no PCP e no BE) que não está interessado em coligar-se com ninguém. O sistema político finlandês não tem nada desse género.

    Por estas 3 razões, não é um drama para a Finlândia ter estes resultados eleitorais.

  2. Se o mal chegar ao pior há sempre um Sampaio, com mais ou menos neblina, perdão, névoa, e a coisa chega ao contento de alguns. Isto apesar de um especialista na matéria, Manuel Braga da Cruz, ter escrito no Observador que “Em nenhuma democracia consolidada vemos oposições a reivindicar na rua demissões de governos democraticamente eleitos, a meio do mandato. Nem se convocam eleições antecipadas com apoios maioritários parlamentares em vigor”. Mas esta opinião claro está, é para as finlândias desta Europa.

  3. Num país, Portugal, onde se confunde rigor e eficiência com policiamento e estrangulamento não é de estranhar o silêncio. Depois da Suécia estava à vista que, em matéria de economia, viria a Finlândia (agravando-se com a perda do mercado Russo) e, por acréscimo, o “inland” alemão.

    Mas não só estes, também a China já começou a espernear.

    Os traços sobre a situação que vivemos hoje já existiam antes da bolha de 2008, por causa da exposição da dívida americana à China e também ao Japão, que se encontrava numa situação terrível. Tudo isto para dizer o que aqui afirmei: quando a Alemanha despertar tem a bomba em cima. Ela já despertou, mas continua a acreditar que o dinheiro que tem fora é recuperado por via da rigorosa e eficiente austeridade.

    Em Portugal ainda temos quem pense que nestas circunstâncias a economia vai projectar-se como gente grande. É de sonhadores que precisamos para confundirmos sonho com esperança. Nada melhor para adormecer isto tudo.

  4. Eu sei de quem é a culpa disto tudo, desta fragmentação eleitoral.
    É da recessão.
    (E da austeridade a sério que ainda nem começou.)
    E de quem é a culpa da recessão (e da futura austeridade)?
    Dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), em especial da Grécia e da sua teimosia em ceder em toda a linha.
    Nada disto tem que ver com a globalização (que rebentou com a Nokia) nem com as TIC (que desmaterializaram a comunicação em geral), que ajudaram a rebentar com a indústria do papel de que a Finlândia era uma potência mundial, muito menos com o conflito na Ucrânia (que impôs restrições ao comércio com a Rússia).
    A culpa é dos PIGS e do seu despesismo.

      1. Senhor JAA:
        Nem pensar, Samsung e a Google (através do Android) chamam-se autarcia, tinha-me esquecido.
        Não competem a nível global, só nos mercados nacionais.
        Nota: Eu não sou contra a globalização, não sou comunista nem aparentado (e mesmo que fosse, o que adiantaria?), a globalização é uma inevitabilidade.
        O que acho é que nos acordos globais os grandes blocos devem defender os seus interesses, não fazer tratados leoninos para uma das partes.
        E também acho que devemos compreender a que se devem as crises por que passamos e não atribuir culpas a quem as não tem.

      2. “não tendo uma pesada herança socialista”

        Não? O Estado controlar 50% da economia é o quê?

        ———————
        É pior, o M.S. nem conheceria a Nokia se não existisse Globalização.

        Com 5 milhões de habitantes a Finlândia só nunca faria a Nokia relevante no mundo.

        1. Você não passa de um analfabeto completamente ignorante.
          Nem percebe o que lê.
          Vá tirar a 3.ª classe, pelo menos.

  5. Sugestão em voz baixa , e com bons modos : olhar a Finlândia, i.e. , os Finlandeses, à luz da “Guerra de Inverno” e esquecer , por momentos, os “indicadores de mercearia”.
    Disclaimer : tenho setenta anos e conheço a minha mui amada Suomi desde o ano de 1968, pelo que aceito merecidíssimas acusações de parcialidade…

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