Acontece que para os gregos, o euro não é apenas uma moeda a que a sua economia esteja mais ou menos adaptada. É um projecto político, um ideal: é a possibilidade de, um dia, viverem num país onde o Estado, dominado por interesses de todo o tipo (sindicais, empresariais, corporativos, clientelares, etc.), não abuse da moeda para servir esses interesses à custa de todos os outros cidadãos. É isso que os exercícios de análise económica não apanham, nem o discurso corrente da integração europeia, que reduz tudo a uma questão técnica: como conter, numa união monetária, economias divergentes e políticas contraditórias.
Não somente para os gregos. Para os portugueses também. De resto, não será apenas coincidência que, em Portugal, não obstante as incapacidades próprias do governo, as mil e uma obstruções que enfrentou e os interesses corporativos dos partidos que o formam, os últimos anos tenham revelado uma progressiva «limpeza» na relação entre o Estado e outras entidades. A forma como não se salvou o grupo Espírito Santo, a profusão de casos judiciais contra políticos e empresários, a limitação do (ou, pelo menos, a pressão pública contra o) poder discricionário de conceder favores (veja-se a polémica actual sobre o planeado perdão da autarquia de Lisboa a uma entidade com tantos fãs como o Benfica) são também efeitos de uma moeda que deixou de ser um fantoche nas mãos dos políticos.

Muito bem. Concordo, absolutamente.
(Não quer dizer que isso que os gregos e os portugueses querem seja de facto alcançável. Tal como recentemente se viu no caso grego, em que o povo primeiro votou no Syriza e depois foi a correr tirar o seu dinheiro do banco, os gregos e os portugueses querem e não querem ao mesmo tempo: querem um dinheiro sólido por um lado, mas não o querem por outro. São, ao fim e ao cabo, como as mulheres, que gostam alternadamente de dois tipos de homens absolutamente opostos.)
Sim, o euro parece-me um projecto político sem política definida. O euro para ser projecto político tem de se apostar numa política de equilíbrios e não de subsidiação que retira dividendos para uns através dessa mesma subsidiação. Significa isto que os que andam para aí a apregoar que as transferências (para mim subsídios) são para ciar equilíbrios estão errados.
O único equilíbrio possível resultará de uma política claramente definida de localização da produção (agrícola, industrial, extractiva, tecnológica e de serviços) e fazerem-se transferências para onde forem necessárias. Só assim o Euro originará equilíbrios.
O Rui Ramos como bom Europeista que é, quer é que a Grécia siga o exemplo do Portugal Judaico, venda os seus activos estratégicos e o resto que sobrar de soberania transferir para Bruxelas! Privatizações…
Concordo com os dois.
É necessário fazer análises a aspectos que os técnicos normalmente descuram, como é o caso da atitude dos gregos reformados, que querem continuar a receber o valor das suas pensões em euros, dos comerciantes gregos que vivem do turismo, que entesourarem as notas que recebem, em euros, dos seus vizinhos alemãs e por aí adiante, assim como da mudança que se verificou em Portugal, relativamente à condenação pública da corrupção, bem espelhada na naturalidade com que o nosso povo vem seguindo a evolução do caso Sócrates.
A grande maioria é Capitalista com o seu dinheiro e Socialista com o dinheiro dos outros.
A Democracia tal como está cada vez se resume mais a João votar em António para tirar – com o monopólio da violência do Estado – a Pedro.
Quando mais de 50% do que as pessoas realizam passa pela política essa passa a ser uma característica central do desenho de uma sociedade, a possibilidade de tirar ao vizinho por via política.