Uma decisão inteligente


Sérgio de Almeida Correia,

obama_castro_handshake_AP.jpgQuando em 2009 o Presidente Obama prometeu conduzir a política externa norte-americana, relativamente a Cuba, numa nova direcção, o que se confirmaria desde logo com o reinício do diálogo sobre as questões da imigração que estavam suspensas desde 2003, muito poucos acreditariam que uma relação inamistosa e conflituosa que se prolongou durante quase cinco décadas, tendo múltiplos palcos espalhados pelo mundo e que perdurou para lá da Guerra Fria, terminasse da forma simples, civilizada e respeitosa que foi agora conhecida. O aperto de mão selado aquando das exéquias de Nelson Mandela, entre Raúl Castro e o seu homólogo norte-americano, obtém assim confirmação. Num raro sinal de sensatez, boa fé, inteligência e pragmatismo, os vizinhos desavindos resolveram conversar e encontrar soluções para os problemas que persistiam. Nos próximos anos a opinião pública dos dois países e das demais nações irá observar o desenvolvimento dessa relação com atenção aos mais ínfimos detalhes.

É natural que muita gente não fique satisfeita, a começar pela Rússia de Putin, a Coreia do Norte da família Kim ou a Venezuela madurista. E que outros não saibam como reagir. Mas essas são questões de somenos perante a importância do que agora se conseguiu. A simples leitura das reacções da maioria dos leitores do Gramma, jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, ao discurso do Presidente Raúl Castro, diz bem da satisfação que a decisão transporta para a maioria dos cubanos. O risco maior, para já, estará do lado de Obama, na forma como conseguirá manter os sempre difíceis equilíbrios entre as decisões da política externa dos EUA e o acolhimento das mesmas na sua frente interna, problema que desde há muito está presente nas sempre atribuladas relações em matéria de política externa entre os inquilinos da Casa Branca, o Congresso e o Senado. Recorde-se apenas Versalhes, a Liga das Nações, a Declaração de Wilson e tudo o que se passou deste então.

Ao escolher o caminho do “socialismo próspero e sustentável“, Cuba parece querer abdicar dos modelos mais radicais que conduziram muitos cubanos à pobreza e à miséria, e opta por uma via de desenvolvimento de pequenos passos do tipo chinês. 

Por outro lado, o fim do embargo a Cuba e a normalização das relações diplomáticas introduz um factor de desanuviamento e paz nas relações internacionais que constitui um excelente sinal de esperança e uma forma simpática de se chegar ao fim de um ano muito conturbado, entre outros, pelos problemas na Síria e na Ucrânia, desta vez com a perspectiva de que nem tudo foi em vão.

Oxalá que este importante sinal, que abre uma nova via no entendimento entre os EUA e Cuba, não seja destruído pelo fundamentalismo de alguns sectores mais conservadores norte-americanos, nem pelos extremismos latino-americanos, e possa constituir um modelo a seguir noutras situações – a começar pelo Médio Oriente – e um novo sopro de liberdade e progresso no golfo do México e no mar das Caraíbas.

8 comentários em “Uma decisão inteligente”

  1. Finalmente corrige-se aquilo que foi um dos maiores erros estratégicos de Kennedy. Esperemos que isto signifique uma viragem na política dos USA, e se traduza em maior respeito destes pelas soberanias de cada povo, e já agora, que signifique um maior sopro de liberdade nos Estados Unidos da América. Provavelmente será uma má notícia para as maioria dos terroristas, podem perder o seu maior apoiante e fornecedor, mas com os USA…só vendo para crer.

  2. Um texto que demonstra bem o espiríto de Chamberlain.

    Não se encontrou solução alguma, os Cubanos continuam sem Liberdade.

    Isso claro não afecta nada uma pessoa da Extrema Esquerda como Obama.

    A única coisa que se pode considerar é que não havia razões para discriminar a Ditadura Cubana quando não se discrimina a Ditadura Saudita, Chinesa etc…

    De registar como habitualmente quando se trata de Obama que não há questões algumas sobre Constitucionalidade. É o Rei Sol.

    Caso fosse um Republicano já se falaria de unilateralismo…

  3. Subscrevo o texto e fico expectante com as alterações que possam ainda e a curto prazo, serem aditadas a este acordo.
    valha-nos a inteligência para nos distinguirmos dos mentecaptos.

  4. Os norte-americanos não são burros. Aposto que daqui a uns anitos, Cuba irá transformar-se numa colónia de f+erias dos americanos!

  5. Não lhes devia estar a agradar o apoio que o Brasil está a dar ao desenvolvimento em Cuba. Se não for delirar muito acho o único país,nas americas que os anglosaxonicos acham como(possivel) ameaça é o Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *