
Tudo o que se está a passar hoje estava há muito previsto num livro de Samuel Huntington de 1996, denominado O Choque das Civilizações. Nessa obra, o autor denunciava já a força do Ressurgimento Islâmico como nova realidade geopolítica, considerava que existiam várias civilizações no mundo, lideradas cada uma pelo seu Estado dominante, e assegurava que a III Guerra Mundial se iniciaria por um Estado dominante não respeitar a esfera de influência de outro. Curiosamente o Autor previa que a guerra se iniciaria por os Estados Unidos não quererem aceitar a pertença de Taiwan à esfera de influência chinesa. Mas nesse ponto enganou-se: a guerra inicia-se pela subtracção da Ucrânia à esfera de influência russa.
Uma das armas dessa guerra que agora está a ser utilizada é a queda do preço do petróleo. Como é óbvio, em face da lei da oferta e da procura, face à actual procura de petróleo, a queda do preço só é possível com um brutal aumento da oferta do produto no mercado. Foi precisamente o que se passou, com a Arábia Saudita a encharcar o mercado de petróleo. Pode parecer um gesto contraproducente para um país produtor, mas numa guerra vale tudo, e relação saudita com os EUA vale mais que uma baixa do preço do petróleo.
É evidente que a força económica de países como a Rússia depende de petróleo alto, até porque têm custos de extracção muito mais elevados do que os países do golfo. São assim profundamente afectados e até pode ocorrer o colapso total da economia russa. Pareceria assim que foi uma arma de guerra eficaz. Só que há um problema: os russos têm uma história longa e estão habituados a sofrer em guerras. Entregaram Moscovo em chamas a Napoleão, obrigando-o a recuar, e sofreram vinte milhões de mortos para resistir a Hitler. Não me parece por isso que Putin apareça com a corda ao pescoço a pedir perdão ao Ocidente e a devolver a Crimeia à Ucrânia. Mais facilmente é capaz de se lembrar de carregar no botão, que muita gente parece esquecida de que ainda funciona.
Mas a verdade é que nem precisa de o fazer. Toda a gente sabe que o petróleo é um bem finito e já se atingiu o pico da exploração petrolífera. Por isso, desça o que descer agora, o preço do petróleo só pode subir no futuro. É só uma questão de saber aguentar e os russos são um povo que já demonstrou que suporta o que for preciso em defesa da sua pátria.
Só que no entretanto vai haver danos colaterais que até podem atingir Portugal. Se a Rússia é afectada com a queda do preço do petróleo, mais afectada é Angola onde o petróleo representa 66% do PIB e 98% das exportações. Já se fala na imediata entrada de Angola em recessão. Ora, a crise em Portugal só não foi pior devido ao investimento angolano nos últimos tempos. Uma recessão em Angola terá efeitos dramáticos para o nosso país.
Desengane-se por isso quem neste momento se congratula com os resultados desta guerra geoeconómica. Já não estamos nos anos 40 em que Portugal podia assistir do camarote a uma guerra na Europa sem nela se envolver ou ser por ela afectado. Hoje em dia, esperem pela pancada.

Antes de tudo o mais gostaria de transmitir ao Luís que quando se fala em investimento os apontadores indicam um aumento do PIB. O dito investimento em Portugal não se traduziu nisto, mas, entre outras coisas que o futuro desvendará, em compras de activos e contrapartida para Portugal poder operar nesses países para onde também exporta.
Por outro lado, deixe-me dizer-lhe que não existe uma guerra de civilizações. Mas sim uma tentativa de obter uma hegemonia, com premissas falsas localizadas no tempo de Reagan/Thatcher, que faz despoletar não só nacionalismos como também activa os fulminantes culturais. Aspectos estes que sempre foram o combustível para a mobilização de qualquer povo face às grandes ameaças na história.
No seu texto esqueceu mencionar um aspecto importante. A recente independência energética americana para além de constituir uma errada tentativa de vergar a Rússia colocará, por esta mesma acção, uma Europa esquizofrénica de joelhos. Pois os canais energéticos a custos mais baixos para países até à Europa Central só podem vir da Rússia (remeto para comentários que produzi no texto de Pedro Correia e Luís Naves a restante explicação).
Neste sentido, uma Europa alinhada à política doidivana da Alemanha não só subjugou este país aos EUA como toda a Europa. Significa isto que onde surgirá a verdadeira guerra civilizacional será precisamente no continente europeu. É este o continente, entenda-se os povos deste continente, que determinarão o encerramento deste ciclo de loucura.
Quanto à Rússia, uma guerra para poder ser bem sucedida necessita de duas componentes vitais: força e capacidade energética, o resto virá através de saques. E a Rússia possui isto.
No essencial estamos de acordo. Procurei precisar alguns aspectos menos esclarecidos em seu texto.
Se calhar o problema de Portugal foi justamente ter assistida do camarote à II Guerra Mundial. Em poucos anos toda a Europa ocidental estava de novo em pé e rica, e Portugal continuava a ser o país pobre que sempre foi, e com um ditador. Quem me dera que Salazar sr tivesse aliado a Hitler; como teria sido bom os tanques americanos rolarem pela Rua Augusta acima para libertar Lisboa do seu jugo. De quantas décadas de sofrimento teriam poupado o país.
Portugal que leve pancada: é o preço a pagar por querer fazer parte do mundo.
o Ressurgimento Islâmico
Não somente islàmico: há um ressurgimento de fanatismo em todas as três religiões abraâmicas. Os maluquinhos judeus e os maluquinhos cristãos também são cada vez mais.
Matam é incomparavelmente menos. E não consta que tenham planos similares ao da reconquista do chamado Al-Andaluz , ou andem já a fazer por toda a França o que se sabe, ou pretendam estabelecer um tal de Londonistão.
Um módico de bom senso nos comentários seria bem recebido.
Costa
Giro é ver o amor que os saudosistas da defunta URSS dedicam a Putin.
“Toda a gente sabe que o petróleo é um bem finito e já se atingiu o pico da exploração petrolífera.”
Não fale por mim que também sou gente… Já? ntries_by_proven_oil_reserves#mediaviewe r/File:Oil_Reserves_Top_5_Countries.png
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cou
http://en.wikipedia.org/wiki/Oil_reserve s
“Foi precisamente o que se passou, com a Arábia Saudita a encharcar o mercado de petróleo.”
Os Sauditas? Então a produção americana passa de 8 milhões de barris dia para 13 milhões em 5 anos e os Sauditas é que aumentaram!? a.cfm?fips=US&trk=m#pet
http://www.eia.gov/countries/country-dat
http://www.bloomberg.com/news/2014-07-04/u-s-s een-as-biggest-oil-producer-after-overta king-saudi.html
Quanto a Angola, duvido que os angolanos em geral sejam muito afectados já que na sua maioria também pouco beneficiaram da riqueza do seu país. Haverá uns muito poucos por cento que ficarão menos ricos, e pronto.
O investimento angolano em Portugal? LOL.