Num mundo onde existe frustração constante perante as altas expectativas criadas pelo culto da juventude e do consumo, tornou-se um lugar comum o clima mediático negativo e pessimista. O grande papão em Portugal, nos últimos três anos, foi a espiral recessiva, mito que na altura foi impossível contrariar. Foram escritos artigos inflamados e a espiral recessiva nunca aconteceu, mas a memória é curta e agora vem aí a deflação.
Quando o preço do petróleo subia, aqui-d’el-rei que era o fim do mundo. No momento em que o preço do barril baixa, surge outra desgraça iminente. Impõe-se a seguinte narrativa: o petróleo está barato porque a economia ficou de rastos após a austeridade, as pessoas não consomem, os preços baixam e as lojas estoiram e despedem, criando assim uma espiral de queda de preços e baixa de consumo, que se poderia resolver apenas com estímulos estatais que, infelizmente, são impossíveis, pois aumentam a montanha da dívida.
Além da colisão frontal com alguns factos, pois há mais consumo (veja-se as vendas de automóveis e expansão económica em vários países) é visível um problema central neste raciocínio: o preço do petróleo não está a cair apenas devido ao estado da economia mundial e à queda da procura, mas por um conjunto mais complexo de factores. Existe o efeito da produção de gás de xisto, que reduz a dependência americana de importação de energia, mas acima de tudo o petróleo é uma arma estratégica em uso contra a Rússia e contra o Irão. A queda do preço do barril restringe as opções de Moscovo no conflito da Ucrânia e pressiona Teerão a colaborar com o Ocidente na questão nuclear e no ataque ao Estado Islâmico. A actuação da Arábia Saudita no cartel da OPEP, forçando a queda dos preços, será temporária e tem claras intenções políticas, pois os sauditas temem os iranianos.
Os Estados Unidos mandam no petróleo e mandam no mundo. Para mais, não faz sentido falar em espiral deflacionária numa economia que cresce a ritmo de 3% ao ano, sem vestígios de abrandamento. Alguns países europeus têm de facto preços em queda e economia estagnada ou em contracção, mas a redução da factura de importação de petróleo constitui para cada um deles uma evidente vantagem temporária. Portugal, por exemplo, a crescer pouco, tem aqui uma excelente notícia, pois o petróleo barato aumenta a taxa de crescimento e reduz o custo das importações.

“Alguns países europeus têm de facto preços em queda e economia estagnada ou em contracção”
E de facto, quem alerta para o perigo de deflacção só está a falar disto. E que portanto os poderes que mandam nos destinos financeiros da Europa (em teoria o BCE mas não tenho a certeza), deveriam ter como alvo uma inflacção bem superior.
há mais consumo (veja-se as vendas de automóveis
O recente aumento das vendas de automóveis não traduz maior consumo, apenas consumo adiado.
De facto, após uma grande quebra das vendas de auomóveis nos anos anteriores, o parque automóvel do país estava a ficar insustentavelmente velho e as pessoas tiveram agora que gastar mais dinheiro para repôr (apenas) parte dele.
O consumo, sob a forma de número total de automóveis em circulação, provavelmente até diminuiu bastante. Provavelmente o número de automóveis comprados em 2013 continua a ser bastante inferior ao comprado em, digamos, 2010.
concordo, é possível, mas este era apenas um exemplo de recuperação do consumo; repare nos dados sobre levantamentos e pagamentos por multibanco no Natal…
Tem de me explicar essa, Luís, que o petróleo barato aumenta a taxa de crescimento. Que ajuda a reduzir o défice da balança comercial eu compreendo, que reduz as despesas também compreendo. Mas eu não acredito que alguém sem sede beba mais água só porque a água diminuiu o seu valor.
Mais, não se esqueça que as viaturas não usam petróleo, mas petróleo transformado e não vejo que os preços desçam ao ponto de aumentar-se o consumo. E não vão descer mesmo até para conveniência das receitas fiscais.
O problema que hoje vivemos em termos de produção já não se situa na questão dos preços, mas na disponibilidade para adquirir.
Por outro lado, a questão do petróleo não se resume ao Irão e à Rússia. Esquece Angola, esquece o Brasil, esquece a Venezuela, México e tantos outros?
Mais ainda, a Rússia também tem gás e fez acordo de redução do preço para a Turquia. Acredita mesmo que os EUA têm capacidade para dominar o circuito do petróleo e da energia?
Ainda ontem a Rússia enviou armas da nova geração para a Ucrânia. Acredita que a dita força de reacção rápida controlará as decisões russas?
Gostaria de lhe lembrar a obra profética que leva o nome “As sandálias do pescador”. Não se esqueça que se fosse possível asfixiar a Rússia o mundo todo ficava a arder.
E não se esqueça também, se porventura eles forem colocados entre a espada e a parede decididamente eles optarão pela espada.
Quanto ao Irão, eles são o único país na região com capacidade para contrariar a política israelita na região, e é isso que têm vindo a fazer. O poder militar de Israel, per si, não tem capacidade de neutralizar o poder que o Irão detém.
Qualquer outro actor na região jamais substituiria o poder do Irão pelo poder de Israel.
Na região só existem duas forças que podem equilibrá-la:
1 – O bom senso,
2 – Ou o fuzil.
A Turquia tem vindo a ser pressionada a uma intervenção na Síria, mas não o fará. O bónus foi uma redução no preço da energia. Será que alguém vai impor sanções à Turquia? Não acredite.
OS EUA e a Europa ou centram suas políticas nas questões económicas e sociais, com parcerias com uma Rússia que jamais deixará a Ucrânia, ou só lhes restará vender seus activos aos chineses, que só comprarão o que lhes for útil.
Julgo que para se compreender minimamente a política internacional é preciso ter noção de que as potências possuem interesses vitais e que a respectiva defesa depende da sua força relativa. A potência hegemónica, os EUA, controlam a economia, a cultura, as finanças e as matérias-primas, nomeadamente o petróleo, produto que define os custos de energia. A Rússia pode fazer muito barulho, mas é uma potência menor, como são Turquia, Israel ou Irão. As sanções à Rússia e ao Irão estão a criar dificuldades a estes dois países, ambos envolvidos em estratégias de enorme risco: a Rússia procura ameaçar um país vizinho, em nome de um império do século XIX, e o Irão tenta (ou terá tentado) produzir bombas nucleares. Estes desafios à potência hegemónica e à ordem internacional têm limites, como bem sabem os líderes locais, que não podem esticar demasiado a corda. Há aqui elementos de bluff misturados com zelo ideológico e nostalgia imperial.
Quanto à deflação, que era o tema do post , tem óbvios perigos para os países europeus, admito até que a queda do preço do petróleo possa levar alguns deles a enfrentar uma situação complicada, mas para nós o menor custo das importações é uma excelente notícia, pois não vamos consumir mais energia, vamos pagar menos por ela.
O Luís labora num erro ao afirmar que os EUA são a potência hegemónica. Isso acabou com a era Putin. Uma superpotência define-se também pela sua capacidade bélica, capacidade energética própria e acesso a produções externas, pela capacidade de distribuição dessa energia e de influenciar essa mesma distribuição, pelo número e localização dos aliados. Como vê a Rússia possui tudo isso com uma marinha de guerra forte e portos para fundeá-la.
E com a tomada da Crimeia e a divisão da Ucrânia (esta já está dividida) eles revelaram não ser uma potência menor. E também revelam essa sua capacidade no ordenamento estratégico que levam a efeito em toda a região do médio-oriente (com especial enfoque na Síria,Turquia e Irão).
Nota: a Turquia não se preocupa em fazer uma intervenção na Síria porque conta com a acção russa, através de apoios dados, no local. E o que incomoda o Ocidente é precisamente a relação que se estabelece entre ambos.
A energia russa não é somente aquela que ela produz, mas também aquela que pode controlar através de acordos, como é o caso da energia ao largo da costa Síria.
A estratégia israelita passa sempre por enfraquecer os seus vizinhos através de intervenções americanas e até mesmo inglesas e francesas, o que não acontece com o Irão que sob o ponto de vista militar consegue ser tão eficaz quanto Israel, quer em meios aéreos, quer em meios navais, quer em meios terrestres, quer até mesmo na possibilidade de alcançar Israel através de misseis de longo alcance. O facto de Israel possuir um arsenal nuclear só é estratégico em matéria dissuasiva e não de facto. Porque em caso do uso do nuclear ele podia confrontar-se com uma reacção química tão devastadora quanto essa.
Não vejo bluff absolutamente nenhum, e não quero desviar a atenção para aspectos histórico-emocionais.
A Rússia decidiu contrariar as políticas que colocavam em causa sua segurança, e deixou claro que vai continuar assim sem qualquer recuo (tome nota deste parágrafo para o discutirmos em 2015).
Os mercados financeiros são de tal forma uma teia que ninguém pode dizer que estes pertencem ou são controlados pelos americanos. A China também sabe jogar bem forte nesta área.
Sim, eu disse isso. Para Portugal será bom, mas a economia portuguesa e dos demais não crescerá por causa deste factor, do petróleo mais baixo, só reduzirá a despesa para alguns.
Foi aqui que fiz incidir o meu comentário.
Eu, que nunca acreditei na espiral recessiva (acho que, no Delito, só mencionei a tema uma vez, e de raspão: 45687.html), só espero que estejas certo.
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/56
Errata: ‘o’ tema, obviamente.
Apoiado. Só acrescentava o alvo Venezuela(incluindo aqui Brasil e todo o quintal americano, muito rebelde agora).Esta soberba de querer passar a frente da velha albion tem que ser refreada.
“Portugal, por exemplo, a crescer pouco, tem aqui uma excelente notícia, pois o petróleo barato aumenta a taxa de crescimento e reduz o custo das importações.”
Para Portugal sim. Para o Regime Socialista Português já não.
Se o Petróleo desce , desce a receita dos impostos, não se podem pode comprar tantos votos.