Raios de luz


escafandro,

A prisão de José Sócrates, do amigo e do motorista está felizmente a destruir várias ideias-feitas. Por exemplo: que um político de topo nunca seria preso; que valores como a amizade estão hoje mais fracos do que no passado; que empregadores e funcionários já não se protegem mutuamente; que a única opção para uma pessoa com rendimentos moderados usufruir de motorista é apanhar um táxi; que enviar dinheiro entre países é uma operação impessoal, implicando não mais de um par de minutos diante de um computador; que residir no interior significa estar-se mais longe dos acontecimentos importantes; que, no plano turístico, apenas algo de espectacular  poderia fazer concorrência às ruínas de um templo romano ou a uma capela forrada a ossos; que um animal feroz definha em cativeiro; que já não se escrevem cartas (hoje saiu mais uma); que a televisão permite chegar a audiências muito superiores à palavra escrita. Honestamente: obrigado, pá.

10 comentários em “Raios de luz”

  1. Pois! O mundo está de facto a mudar… quem é que dizia? Habituem-se!
    Mas há sempre aqueles que se dizem progressistas e defendem a mudança, mas sente-se agora que é na condição que lá no fundo tudo fique como antes e ultimamente têm-se mostrado bastante indignados.

  2. Mas eu ando muito infeliz. Desde as declarações de Soares, segundo as quais toda a gente acredita na inocência do inginhero, deixei de ser gente. Hoje, perante a carta escrita a vermelho (escrever a vermelho não é mandar o destinatário àquela parte?) deixei de ser decente. E vá lá que não sou político, professor de direito, jornalista, guarda…

  3. Sem entrar nas questões sobre as causas de sua detenção, quero dizer que Sócrates tem o condão de nos mostrar que na condição em que se encontra pode estar espelhado o modelo político, social, judicial e governativo que apodrece com as frutas penduradas na árvore que foi plantada no pomar.

    A prisão de Sócrates não pode fazer esquecer o todo, nem fazer-nos esquecer que também somos parte desse todo.
    Para isto gostaria de avivar memórias e trazer várias afirmações, estudos e debates:

    https://www.youtube.com/watch?v=BXSNgfYQgk4#t=557

    https://www.youtube.com/watch?v=AyRGCzYQJnk

    https://www.youtube.com/watch?v=yHMmvzy0zJI

    Espero que Sócrates não se torne um cordeiro sacrificial que é imolado pelos pecados de todos, dos que fazem e dos que deixam fazer.

    1. Sócrates não é, evidentemente, nascente e foz de todos os males. Mas, juntamente com outros casos, espero que seja pelo menos o início de um período de maior e mais imparcial escrutínio por parte da Justiça – a qual, nos tempos em que ele foi primeiro-ministro (mas também antes e, em parte, talvez ainda agora), esteve completamente amordaçada (ao ponto de os magistrados só terem como via de acção – numa espécie de descarregar de frustração – fazer notícias para a comunicação social).

      Quanto aos vídeos, pessoalmente receio um pouco todos aqueles que se outorgam o papel de paladinos de uma posição eticamente irrepreensível (até por frequentemente ajudarem a misturar planos de gravidade muito distinta, gerando confusões pouco construtivas em que são todos iguais – e não é bem a mesma coisa um ministro aceitar dinheiro para desbloquear um processo ou, num dia em que tem o carro particular na oficina, usar o de serviço para ir buscar os filhos) mas, até ver, Paulo Morais tem desempenhado um papel mais positivo que negativo. Quanto a Manuel Monteiro, no vídeo misturam-se muitos conceitos e realidades – sendo que uma me parece quase anedótica: se 70% da legislação não é feita cá, ou a UE a elabora mal ou as possibilidades de a usar como forma de favorecimento deveriam ser menores – e mais facilmente escrutináveis.

      1. No primeiro parágrafo estamos de acordo, mas a justiça não funcionou para muitos outros. Eu disse justiça e não tribunais. Os tribunais são os locais onde se dirimem conflitos e não onde se produzem leis. Nunca entendi esse dito de que uma decisão podia depender da convicção de um juiz. Se a aplicação da lei passa pela convicção de um juiz então essa lei é arbitrária, porque juiz só tem mesmo de aplicar o que a lei determina.
        Costumo dizer que Hitler também agiu por convicção, isto é, que errou muito. Logo, a convicção jamais poderá ser uma matéria jurídica e/ou de aplicação jurídica.

        Com os vídeos que anexei pretendi somente chamar a atenção para aquilo que se designa por sistema. E o que vemos em centros de decisão políticos reflectem o carácter de uma sociedade.
        Quero com isto dizer que ninguém se julgue impune ou limpo com os casos mediáticos que hoje conhecemos. Ou porque muitos o praticam ou porque tantos o aceitam, cada um à sua escala.
        Importa sim que a sociedade se transforme por forma a que a lei resulte. Há uma lei natural que também deve ser discutida.

  4. O que devia mudar mas cristaliza antes de mudar é a opinião sobre a justiça (corrupção ou outro tema qualquer) que fica preso ao ser dos nossos ou dos deles.
    O valores importantes não deviam ser tão variaveis, não podem se não queremos ter uma sociedade como a mexicana ou italiana; e quem puder faz bem em ir lá e conferiri se é aquilo que quer – as viagens lowcost estão mesmo baratas.

    1. Sim, o «campeonato de futebol político», como Rui Ramos lhe chamou:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/do-campeonato-de-futebo-politico-a-6886418
      Esperemos que os últimos tempos – com os casos GES, vistos gold, Sócrates – indiciem, se não uma mudança na lógica de defesa ou ataque ao sistema de Justiça por parte dos partidos consoante os seus elementos são poupados ou atacados por ele, pelo menos uma maior capacidade dos magistrados e juízes para agirem de forma verdadeiramente independente. Sendo que, se os partidos não aprenderem rapidamente a lição, o maniqueísmo pode sair-lhes caro – como saiu em Itália, onde os partidos tradicionais desapareceram (apesar de tudo, com resultados não propriamente brilhantes).

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *