Alguma esquerda blogosférica deu mais importância à campanha presidencial no Irão do que às eleições europeias. Como se tudo fosse imprevisível e em Teerão houvesse um regime democrático que permitisse a livre expressão da vontade popular. A ‘escolha’ era entre um ortodoxo da linha dura e um ortodoxo da linha dura – cada um deles avalizado pelo supremo dirigente religioso do país, que é desde 1979 uma teocracia pura e dura. O aiatolá Khameinei manda mais do que os restantes 70 milhões de habitantes do país todos juntos – incluindo o presidente fantoche, Ahmadinejad, amigo e aliado de Hugo Chávez. Khameinei, como se compreende, preferiu manter quem já lá estava, recorrendo para isso a gigantescas fraudes eleitorais, como denunciam os apoiantes do candidato preterido, Moussavi. Ele próprio participante activo da ditadura enquanto primeiro-ministro, de 1981 a 1989.
As mais elementares violações dos direitos cívicos e políticos em Teerão são hoje uma evidência até aos olhos de quantos se têm esforçado ao máximo para ‘compreender’ o regime teocrático. Mais um motivo para a comunidade internacional reforçar a sua oposição ao desenvolvimento do programa nuclear iraniano. Para que o 18º maior país do planeta, tão inimigo da liberdade como a Coreia do Norte, não siga os perigosos passos que têm vindo a ser dados pela tirania comunista de Pyongyang.
Imagem: aiatolá Khameinei, supremo líder religioso e na prática o supremo dirigente político do Irão. No fundo, o único homem que vota no país.


O Irão é uma perigosa teocracia que cilindra repetidamente os Direitos Humanos dos seus cidadãos e representa um sério perigo para a ordem internacional.
É isso mesmo, Pedro. Não pode haver complacências de qualquer espécie em relação a regimes como o iraniano, em nome do ‘multiculturalismo’ ou outro ismo qualquer.
Um abraço aí para Braga.
Uma democracia exemplar, que manda prender o candidato “derrotado” porque ele reclama da pouca seriedade dos resultados…
Apesar de o candidato ter sido sempre um ‘deles’, Ana. Que faria se fosse mesmo de oposição…
Não teria sequer chegado às urnas, nem sequer para o trompe l’oeil de abertura democrática…
A propósito do Irão, rendi-me a mais um discurso histórico de Barak Obama. Pela primeira vez desde há muitos anos vejo uma ténue possibilidade de diálogo do Ocidente com o hermético mundo fundamentalista. Talvez o facto de ter um nome árabe também ajude a estabelecer a ponte, mas a sensatez e habilidade política dele são notáveis, depois do desastre que foi Bush.
Espero bem que sim, Ana. Acredito que sim.
Para não variar, o Pedro Correia avança com uma análise extremamente perspicaz… É que, de facto, espanta a ingenuidade das leituras mais à Esquerda destas eleições. A vitória de Moussavi seria um sinal positivo? Provavelmente sim. Representaria uma abertura do regime? Nem pensar, num regime teocrático onde quem manda, na prática, são os ayatollahs.
Vir falar neste contexto de que “o mundo poderia mudar” com estas eleições é simplesmente ridículo (mas típico de quem está sempre disposto a acreditar em redenções instantâneas…). Como o Pedro bem salientou, anda ali pelo Jugular um entusiasmo exacerbado que de facto assume contornos quase patéticos…
Faz-me alguma impressão o extremo ‘benefício da dúvida’ que alguns concedem a regimes como o do Irão, José. Neste caso seria como admitir que Humberto Delgado pudesse vencer a eleição presidencial de 1958 no Portugal de Salazar. Tão só.
“Neste caso seria como admitir que Humberto Delgado pudesse vencer a eleição presidencial de 1958 no Portugal de Salazar. Tão só.”
Exactamente. Há regimes que não se reformam, só por implosão, que tem que vir do interior e da luta interna. Foi o povo que os pós lá, vai ter de ser o povo a correr com eles – se for capaz.
Pedro,
subscrevo!
dedo na ferida.
abraço
Obrigado, Rodrigo.
Abraço
Confesso que não vejo a relação entre a falta de democracia no Irão e a pretensa necessidade de o impedir de ter acesso independente à energia nuclear. Não é para mim líquido que um país não democrático não possa, por esse facto, saber enriquecer urânio.