Leio os obituários — em regra demasiado sucintos ou previsíveis — na imprensa portuguesa de hoje sobre Pete Seeger, talvez o nome mais emblemático daquilo a que se convencionou chamar canção de protesto. Há homens cuja vida dava um filme: Seeger, agora falecido com quase 95 anos, é um desses homens. Mário Lopes presta-lhe justiça numa extensa peça que escapa aos lugares-comuns da circunstância, honrando por sua vez as melhores tradições do jornalismo cultural do Público. Um texto complementado por uma saborosa crónica de Nuno Pacheco, lembrando a actuação única do bardo da folk norte-americana em Lisboa, a 2 de Dezembro de 1983.
Há quem torça o nariz mal se escutam os primeiros acordes daquilo a que se convencionou chamar música de intervenção. Esquecendo que o nosso próprio Hino Nacional, tão vibrantemente entoado nos estádios de futebol, começou por ser um tema de protesto contra o Ultimato britânico de 1890. A Marselhesa tem origem semelhante. Exemplo de outro hino de protesto que resiste a todos os ventos e a todas as modas: Le Chant des Partisans, imortalizado por Yves Montand — o mesmo que depois filmou em Hollywood uma fita fútil com Marilyn Monroe.
Grande parte da música popular dos nossos dias tem a sua raiz na “canção de protesto” — de We Shall Overcome, popularizado precisamente por Pete Seeger, a The Times They Are A-Changing, de Bob Dylan, de Léo Ferré a Jacques Brel, sem esquecer os Beatles e os Pink Floyd.
Conheço poucas canções tão belas como Construção, de Chico Buarque — sem dúvida um tema de protesto. Ou Cálice, da dupla Chico-Gilberto Gil. José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto e Jorge Palma — todos se celebrizaram por “músicas de intervenção”. Mas nenhum parou aí. Cada um deles compôs também alguns dos temas de maior lirismo, maior sensibilidade e maior elevação artística que desde sempre se produziram na nossa língua. Para além de todos os rótulos, sempre redutores.
Como classificar, por exemplo, Endechas a Bárbara Escrava (José Afonso cantando Camões) ou Mesa (Sérgio Godinho cantando O’Neill)?
E haverá mais vibrante tema “de protesto”, sem deixar de ser superlativo em lirismo, do que o sublime Fado de Peniche (Abandono, na versão oficial) gravado por Amália, com letra de David Mourão-Ferreira? A mesma Amália que também gravou Grândola, Vila Morena e a Trova do Vento que Passa…
A voz de Pete Seeger calou-se, mas continuará a haver sempre quem questione, a cantar, para onde foram todas as flores. Mesmo na mais triste de todas as noites, mesmo em tempo de servidão.
Isto anda sempre tudo muito mais ligado do que parece.

Uma bela e justa homenagem, Pedro.
Um abraço.
Obrigado, Carlos. Um abraço.
Gostei muito. Mais um exemplo do seu gosto pela liberdade e pela intervenção (que partilho, claro).
Palavras que merecem música, Fátima. Obrigado.
Mais uma peça de propaganda escrita pelo Publico.
Um Comunista não pode ser pelos direitos civis. É uma contradição.
Logo não é contradição ter recebido prémios do regime comunista cubano onde não há direitos civis.
“John Doe” o album que acusava o Governo Americano de ser malvado ao serviço de banqueiros de querer a guerra contra a Alemanha Nazi então aliada à União Soviética pelo pacto Molotov-Ribbentrop. Tudo mudou quando a Alemanha atacou a União Soviética.
O album foi retirado de circulação.
E o “pacifista” Seeger foi para o Exército Americano combater.
A Leni Riefenshtall também seria uma cineasta de “intervenção” ?
Se o pacto Molotov-Ribbentrop ainda estivesse em vigor a resposta é sim…
Fez alguma boa música.
Pois fez, sem dúvida. Quanto ao resto: Pete Seeger abandonou a militância comunista em 1949. De qualquer modo as apreciações do mérito artístico nunca devem estar dependentes de critérios ideológicos. Isso levar-nos-ia, por exemplo, a rejeitar parte da obra de Beethoven por ele ter chegado a ser um fervoroso adepto do despotismo bonapartista. Ou a pôr no index certos escritores sulistas norte-americanos por excesso de benevolência em relação à sociedade esclavagista. Ou a riscar com lápis azul as vinhetas racistas dos primeiros álbuns de Hergé. Ou a deitar Os Lusíadas para o lixo por Camões glorificar os morticínios praticados pelos soldados do Gama na Índia.
Peter Seeger abandonou o Partido Comunista não abandonou o Comunismo.
Um bom artista pode ser tudo desde ser um canalha a boa pessoa e até ter fazes. E esse tudo quando morre também tem faz parte.
Mais ainda neste caso quando a sua arte é para servir a política.
Inversamente, um artista medíocre pode ser uma excelentíssima pessoa sem que esta sua característica seja capaz de retirar um átomo de mediocridade à sua arte.