
Há 20 anos estava em Macau. Lembro-me que era sábado, um tufão se aproximava do Território e as pessoas eram aconselhadas a não sair de casa.
Manhã cedo, no meu quarto da Pousada de Mong-Há, iam passando as imagens da CNN mostrando os acontecimentos numa praça da Paz Celestial (Tian an men) que se transformaria pouco depois na Praça dos Horrores. Quando a emissão foi interrompida, oscilava entre a surpresa e a esperança. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem perduram ainda hoje na minha memória.
Ignorei os avisos de tufão e fui encontrar-me com uns amigos chineses. Tinha esperança que eles soubessem mais do que eu, mas acima de tudo queria perceber como é que interpretavam o que se estava a passar. Lo Weng Keong e Lawrence Tshui tinham visões diferentes do que se estava a passar, mas ambos partilhavam da mesma opinião: na China nada seria como dantes.
Os acontecimentos dos dias seguintes, em Macau, mostraram-me que ambos tinham razão. A mobilização das pessoas manifestando solidariedade com os estudantes, o discurso destemido de Carlos Melancia, condenando os acontecimentos, a homenagem dos empresários, eram sinais evidentes de que os estudantes não estavam sozinhos e que o regime chinês iria tirar ilações dos acontecimentos.
O ocidente reage com indignação mas, poucas semanas depois, corre para Pequim a beijar a mão a Deng Xiao Ping e a oferecer os seus produtos. A Internacional Consumista não pode desprezar o mercado chinês…
Pela noite, numa tertúlia portuguesa, a discussão correu animada. Alguém dizia que o Maio de 68 chegara à China. Banho de sangue à parte, houve algumas semelhanças. Os efeitos na China é que só se começariam a fazer sentir uma década mais tarde. Antes disso, ainda assistiríamos à queda do muro de Berlim, ao desmoronar do império soviético e à queda das ditaduras chilena e argentina.
Só conheci Pequim um ano mais tarde. Quase em surdina, comentávamos os acontecimentos daquele mês de Junho e procurávamos, em Tian An Men, vestígios do massacre.
Dezoito anos depois voltei à China e a Pequim. Para constatar que a Internacional Consumista não necessitara de se sentar ao colo da democracia para invadir o país. O ocidente parece satisfeito. O importante é que, por aquelas bandas, se discutam as últimas novidades das novas tecnologias, se exibam modelos de grandes marcas do vestuário ou do sector automóvel. Essa coisa da democracia pode esperar.

Lembro-me bem do que contas. Estive com chineses universitários na China, nessa altura, e pude concluir que era tudo muito poético e inconsequente: se ganhassem, não sabiam muito bem no que pegar; se perdessem, pouco sabiam o que fazer para capitalizar. E não souberam mesmo: Pequim capitalizou mais depressa os poderes ‘capitalistas’ ocidentais e deixou que o tempo fosse decorrendo ao sabor das inevitabilidades…
E agora o ocidente reage como se tudo estivesse a decorrer em moldes democráticos…
Nem mais. É a recorrente “política de abertura” da República Popular da China, um chavão que dá um jeitão…
Quem domina sempre é a hipocrisa dos interesses, Carlos, que rapidamente encontra desculpas para fechar os olhos ao que não lhe interessa. Sempre foi assim, infelizmente, e aplica-se a todas as cores políticas.
Gostei de ler estas memórias pessoais, tão ricas.