Savater, Tony Bennett e Bénard da Costa
Não sei se convosco costuma passar-se o mesmo. Mas comigo acontece. Há certos autores — que passámos a conhecer por vezes nem nos lembramos onde nem como nem porquê — que acabam a fazer parte do nosso património pessoal. É assim que os sentimos, é assim que acolhemos cada obra deles. Passam a ser “muito cá de casa”, parafraseando a deliciosa expressão tão portuguesa, muito delicada e já muito antiga, que João Bénard da Costa de novo popularizou nas inesquecíveis crónicas que assinava nas décadas de 80 e 90 no semanário O Independente e que foram do melhor que li desde sempre na imprensa portuguesa (por falar nisto: onde param os livros dele, que tantas vezes li e reli, editados pela Assírio & Alvim? Não consigo encontrá-los…)
Um dos autores a que me refiro é o professor universitário, filósofo, pensador, romancista e polemista espanhol Fernando Savater. Comecei a lê-lo regularmente no El País, onde assina desde a década de 70 os mais estimulantes textos dados à estampa neste diário, e prolonguei a minha atenção de leitor do jornal para os livros. Que fui comprando um a um, quase sem dar por isso, à medida que apareciam e os encontrava.
Comecei pela recolha de crónicas jornalísticas (e aqui recordo novamente João Bénard), um género literário que devia ser mais cultivado pelas editoras portuguesas. As de Manuel António Pina, reunidas também na Assírio & Alvim, e as de Miguel Esteves Cardoso, com a chancela Porto Editora, são imperdíveis.
Agora que ponho os livros em ordem descubro que tenho dez de Savater. Pelo menos dez (nunca se sabe quando saltará mais algum de um caixote ainda por abrir).
São estes:
– A Infância Recuperada (Presença)
– O Conteúdo da Felicidade (Relógio d’Água)
– Livre Mente (Relógio d’Água)
– A Vida Eterna (Dom Quixote)
– O Meu Dicionário Filosófico (Dom Quixote)
– Os Dez Mandamentos no Século XXI (Dom Quixote)
– Ética para um Jovem (Dom Quixote)
– Sobre Viver (Teorema)
– Contra as Pátrias (Fim de Século)
– La Aventura de Pensar (Delbolsillo)
Gosto de todos estes livros perpassados de erudição numa linguagem quase coloquial nunca destituída de sentido de humor, uma das características que mais aprecio neste autor.
Mas a obra eleita dele, para mim, é A Infância Recuperada, fabulosa digressão pela literatura juvenil e pela chamada literatura popular, sem sombra de pose universitária. Savater confessa gostar de obras e de autores que levaram muita gente a amar o mundos dos livros à revelia dos cânones instituídos pelos putativos gurus do bom gosto.
E refiro isto para vos confessar que fui reunindo aos poucos um subgénero na minha biblioteca: o dos livros que falam sobre livros. É um pequeno mundo que não cessa de me fascinar.
Agora, que os agrupei, verifico que são mais do que imaginava. Eis alguns deles (em lista ainda provisória):
– Os Livros da Minha Vida, de Henry Miller (Antígona)
– Como um Romance, de Daniel Pennac (Asa)
– A Angústia da Influência, de Harold Bloom (Cotovia)
– Como Ler e Porquê, de Harold Bloom (Caminho)
– A Cultura Inculta, de Allan Bloom (Europa-América)
– Intelectuais, de Paul Johnson (Guerra & Paz)
– Dez Livros que Estragaram o Mundo, de Benjamin Wiker (Alêtheia)
– História Abreviada da Literatura Portátil, de Enrique Vila-Matas (Assírio & Alvim)
– Os Livros que Lemos, de Lisa Adams e John Heath (Estrela Polar)
– As Lições dos Mestres, de George Steiner (Gradiva)
– Paixão Intacta, de George Steiner (Relógio d’Água)
– A Biblioteca Privada de Hitler, de Timothy W. Ryback (Civilização)
– Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral (Guerra & Paz)
– A Consciência e o Romance, de David Lodge (Asa)
– Porquê Ler os Clássicos, de Italo Calvino (Teorema)
Acabo de comprar mais um, já reunido aos restantes: o novíssimo Como Ler um Escritor, de John Freeman, director da revista literária Granta. Com etiqueta Tinta da China.
Gosto de ler sobre livros. E estou a gostar de arrumar a biblioteca. Hoje, alternadamente, ao som mais trepidante de Chucho Valdés em Bele Bele en La Habana e mais relaxante de Bill Charlap em Stardust.
Deixo-vos aqui uma faixa deste disco. Com Charlap ao piano e Tony Bennett superlativo. Como sempre.
Até segunda-feira.



Nem de propósito! Por coincidência (sera que las hay?), sugiro hoje no meu post mais um para acrescentar à tua lista de “livros sobre livros”: “O amor da minha vida”, de Rosa Montero. Andamos sintonizados como sempre, já viste? 🙂
Vinda de ti, Ana, só pode ser uma excelente sugestão. E eu, que tanto gosto de Rosa Montero, não tenho (ainda) esse livro dela…
Sei que vais gostar. Estão lá muitos dos livros que tens aqui comentado e recomendado, e a Rosa Montero dá uma perspectiva muito original e completa de cada um deles.
Já me converteste ao livro, Ana. Ficou no topo das minhas próximas aquisições.
Devorei o livro do John Freeman assim que ele saíu…
À sua lista de livros sobre livros, acrescentararia:
– A Obsessão do Fogo, de Eco & Carrière.
– Livros-Tudo o que é Preciso Ler, de Christiane Zschirnt, com prefácio de Eduardo Lourenço.
– A Louca da Casa, de Rosa Montero.
– Incursões Literárias, de Mário Soares.
Antonieta
Obrigado pelas dicas, Antonieta. O livro de Mário Soares também está na minha prateleira: cheguei a escrever sobre ele. ‘A Louca da Casa’ tornou-se de imediato, mal o li, um dos livros da minha vida. Os outros ainda não conheço mas quero muito conhecer.
A primeira coisa que li da Rosa Montero foi um pequeno conto, perverso q.b., chamado ‘Parecia o Inferno’.
Faz parte da colectânea
‘Histórias do Mar’ da Asa, 2002.
Tem contos do Sepúlveda, Sarabia, Fajardo, Eterovic, entre outros.
Depois foi A Louca da Casa e tudo o que dela consegui encontrar…
Bom fds!
Antonieta
Já anotado, Antonieta. Com os meus agradecimentos.
Pedro, acho que estou a ser uma melga 🙁 mas
lembrei-me do ‘Retratos de Sombra’, do Mega Ferreira (Assírio, 2003), onde ele narra o encontro que teve com Borges, no Estoril, no Inverno de
1980.
Inesquecível a conversa que tive com ele (passou por aqui aquando do lançamento), éramos poucos na sala e parece que mais ninguém conhecia o Borges…
Antonieta
Não é nada melga, Antonieta. Gosto desta “troca de livros”, ainda que virtual: aprende-se sempre alguma coisa. Desconheço esse que me indica. Borges é um dos meus autores de eleição, superior à grande maioria dos nomes que costumam circular no cenáculos bem-pensantes. Talvez a maior injustiça cometida pelo Comité Nobel na segunda metade do século XX, ter recusado o prémio máximo da literatura mundial ao excelente escritor argentino que se orgulhava da sua origem portuguesa.
Sou mesmo ignorante! Nunca li nada dos autores referidos…
Vai muito a tempo, não tenho dúvida.
Então e o Cânone do Bloom? Esse é que não pode faltar. Porém, trocava mil Steiners e Blooms por esse livrinho do Henry Miller. É um texto extraordinário. Os outros autores que guarda ao lado deles são-me completamente insuportáveis, talvez dêem um fogo bonito se deitados à lareira, o Savater em especial, tem todo o ar de quem arde bem, digo eu, a biblioteca não é minha.
A canção é magnífica.
Olhe que não, Panurgo: leia ‘A Infância Recuperada’, do Savater: prefiro-a de longe a qualquer cânone que alguém pretenda estabelecer do alto dos seus pergaminhos na matéria. Embora perceba o ponto de vista do Harold Bloom e concorde com ele: por um lado não há verdadeira solidez cultural sem um conhecimento básico dos clássicos; por outro, a literatura não é um “produto de consumo” como outra coisa qualquer. Falta-me esse livro dele, que não consegui reencontrar (tenho ainda uns caixotes por abrir).
O livro do Miller é do melhor que alguma vez li sobre as confissões literárias de algum escritor. Tratando-se de quem é, com uma certa inclinação escatológica, tem até um capítulo intitulado “ler na retrete”.
(O Tony Bennett tem-me dado uma preciosa ajuda)
Fernando Savater e Manuel António Pina, dois dos meus autores de eleição. Creio ter tudo, ou quase tudo, de ambos. Adquiri um dos que refere, «A Consciência e o Romance», há umas semanas. Desde que está em casa, ainda não peguei nele, mas li dois ensaios na livraria, antes de me decidir.
(Quanto ao Bill Charlap, conhece este disco: http://vimeo.com/33557696? Não se trata de uma cantora para constar da tal lista, mas escutá-los, filho e mãe, de preferência, com a noite já bem avançada, pode ser uma experiência tocante.)
Gosto muito do Pina como cronista e poeta. Gosto muito de Savater como pensador e pelo inimitável estilo de todos os seus textos, dos filosóficos aos jornalísticos.
(Confirma-se: o seu gosto musical continua insuperável)