Notícia sem contraditório


Pedro Correia,

Hoje houve uma tourada em Viana do Castelo. Praça cheia, com mais de três mil pessoas. Alguns manifestantes – vários dos quais oriundos de outras zonas do País, como a presidente da associação Animal, que há dias decidiu chamar Mandela a um cão responsável pela morte de uma criança – protestaram contra a realização do espectáculo, devidamente autorizado pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga.

Tudo normal: uns a favor, pagando bilhete para a tourada; outros contra, do lado de fora. Pormenor a assinalar: havia muito mais gente dentro da praça do que fora.

A RTP fez uma peça equilibrada no seu Telejornal, a partir das 20.25. Ouvindo, como se impunha, cidadãos a favor e contra as touradas. Durante dois minutos – tempo razoável para o assunto em causa. A SIC antecipou-se ao canal público, pondo no ar uma peça de três minutos logo às 20.03 no seu Jornal da Noite, mas ouviu também as duas partes, o que é perfeitamente normal: esta é a regra número um do jornalismo.

Para meu espanto, nada disto foi seguido pela TVI, que entendeu dar destaque máximo no Jornal das 8 precisamente à notícia da tourada em Viana. Auscultando as duas partes? Nada disso: recolhendo apenas três depoimentos dos opositores do espectáculo. Nem um só aficionado mereceu ouvir a sua versão reproduzida em antena. Com a agravante de esta ter sido a notícia de abertura do principal bloco noticioso da estação de Queluz de Baixo, que lhe dedicou cerca de dois minutos.

Jornalismo sem contraditório não é jornalismo. Lamento muito, mas isto tem de ser repetido as vezes que foram necessárias. Seja a propósito de que assunto for.

26 comentários em “Notícia sem contraditório”

  1. A Drª Judite de Sousa… responsável pela informação da TVI… ” anda muito por baixo”

    ” — Ele há dias “:Disse ao Dr Macelo ( A propósito da inenarrável entrevista ao ricalhaço brasileiro)
    Efectivamente, há muito que ela anda ” com maus dias” !!

    Penso eu de que….

    1. JJ: Muito bom texto, e partilho da sua opinião.

      Já achei que haveria algum sentido na manutenção cultural da tourada, mas se há cultura ali, não é nenhuma que mereça ser preservada.
      O que preocupa mais não é a dor infligida ao touro, é a insensibilidade de quem assiste perante as manifestações de dor alheia. Ou seja, não preocupa tanto o que fazem à besta, preocupa mais a bestialização da assistência.
      É claro que há arte no espectáculo tauromáquico, tal como também houve assassinos que tiveram requintes de artista. O problema é quando a arte não se desliga de um mal necessário para a sua execução. A utilização da dor de um animal para fins artísticos bate no limite da humanidade, até porque sabemos que já houve tempos em que as arenas não tinham só touros, mas também cristãos, para decorar o espectáculo de massas bestializadas.

      Não são precisos números, nem ciência, para avaliar a proximidade de um animal… basta olhá-lo nos olhos. É o reflexo humano da expressão do seu olhar que determina a nossa empatia.
      “Os olhos são o espelho da alma”… será uma frase aplicável a humanos, mas é reveladora.
      Computacionalmente, a execução de bonecos virtuais, também ajuda.
      É fácil simular o olhar de um peixe ou de uma lagosta (usando o seu exemplo), e muito mais difícil de simular convincentemente a expressão de um touro, sem que pareça um boneco.
      Isto já para não falar em expressões humanas, onde passamos para um nível diferente.

      Nem é apenas uma questão de mamíferos versus os restantes… há expressões no olhar de algumas aves que são igualmente notáveis, e nada têm a ver com o habitual olhar gélido de répteis ou peixes.

      Há o habitual argumento de que a tourada salvou o touro da extinção… é talvez verdade, mas isso é uma visão socialista-zoológica que despreza o indivíduo face ao grupo, à espécie.
      O sofrimento é individual, a espécie não sofre, há apenas uma soma do sofrimento singular.

      Depois, há o argumento histórico, cultural e artístico… que poderia fazer algum sentido, se houvesse uma explicação incontornável desse mesmo significado. Mas não há… há apenas muitas lantejoulas e ali inteligente é quem manda na corneta. Talvez seja mesmo melhor nem explicar o significado ancestral, para não revelarem a triste alegoria subjacente.
      O espectáculo poderia ter evoluído, sem perder a sua história, e a necessidade de picar o touro é um detalhe secundário, uma obstinação ortodoxa.
      Pelo menos não seguimos os espanhóis na sua macabra exibição de morte em arena, mas é um pequeno consolo.

      1. Esse debate sobre o mérito ou demérito das touradas é muito interessante, mas não é isso que está aqui em causa. Não sou aficionado, tanto me faz se há ou não touradas. Em Lisboa ou em Viana ou em Campo Maior.
        O que me interessa – e me indigna – é haver uma peça de abertura de telejornal, seja sobre que tema for, que regista apenas opiniões de um lado, omitindo as opiniões contrárias.
        Não é caso isolado: repete-se vezes sem conta nos telediários portugueses. E tenciono ir dando nota disso aqui.

        1. Certo, caro Pedro, certo.
          Por isso fiz um comento ao comento, e não um comento ao postal, com que concordo genericamente.
          Neste caso não me parece muito grave, é mais grave a falha de princípio.
          Faltaria ainda mencionar a ordem de tribunal, que foi contra uma decisão política do município, votada em urnas, algo que deveria merecer mais interrogações sobre as razões para insistir naquela localização, e os meios usados para que isso se fizesse. Se o tribunal de Braga queria a corrida, que a autorizasse no distrito de Braga e não em Viana… a mistura de jurisdições, legitimidades políticas versus jurídicas, só serve um aumentar da confusão.
          Tratavam-se de festas de Viana e não de Braga. Em resposta, um Tribunal de Viana poderia decidir sobre as festas do Bom Jesus de Braga, autorizando a colocação de uma pista de carros de choque em frente ao santuário?
          Há o interesse mercantil e o interesse cultural local, acho que o tribunal de Braga fez mal em sustentar sozinho uma decisão contra o município responsável pelas festas.

          1. Caro da Maia, esses são aspectos complementares de uma peça que não existiu. Ou, se existiu, não dei por ela. Tal como também gostaria de saber que lucro ao comércio local trouxe este espectáculo – três mil pessoas numa cidade como Viana é um número relevante – e até que ponto os habitantes da cidade – não os políticos já em pré-campanha para as autárquicas nem os activistas antitourada, vários dos quais mobilizados a partir de outras cidades, incluindo Lisboa e Porto – concordam ou não com um espectáculo anual como este, sobretudo em tempos de crise económica.

          2. Tem razão, e eu já devia ter colocado o link da RTP, que fez esse serviço bem, antecipadamente:
            http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=673675&tm=8&layout=122&visual=61
            O assunto variava entre estatísticas de mais 90% contra, segundo a autarquia, via uma rádio local, a uma divisão quase metade-metade. A reportagem segue a visão equilibrada.
            O que me parece significativo é que dá ideia de não haver um movimento local a favor da tourada, terá sido mais uma movimentação mercantil exterior com apoio marginal na cidade. Pelo menos foi a ideia com que fiquei.

          3. É moda bater na RTP. Até por isso, gosto de contrariar essa ideia sempre que for caso disso. Infelizmente, a peça do canal público – tal como a da SIC, aliás – não estava assinada, o que me impediu de destacar o nome do jornalista responsável por este bom trabalho (teria feito o mesmo com a do canal de Carnaxide).

          4. A decisão veio do TAF de Braga por ser o tribunal territorialmente competente no concelho de Viana do Castelo (que não tem TAF) e é a instância para onde se recorre das decisões administrativas das Câmaras Municipais.

            Aliás, tanto no ano passado como este ano, a argumentação da câmara municipal para o não licenciamento era por causa do local de instalação da praça e não pelo espectáculo em si.

          5. Tudo isso ficou também por dizer na notícia em causa. A superficialidade, as pequenas emoções à flor da pele, a tinta a fingir de sangue – isso é que interessa. Este é um dos principais motivos que levam os consumidores de notícias a afastarem-se cada vez mais dos meios de informação tradicionais. Adoptar a linguagem e o tom das ‘redes sociais’ é uma estratégia suicida para os órgãos de informação.

  2. Não lamente, insista e não desista que é esmagadora a maioria consciente que apoia a sua atitude. Para exigir e conviver com o verdadeiro jornalismo não precisamos de cartaz para um minuto de televisão.

  3. Posso estar enganado, mas na foto que vi no Público online, pareceu-me que a manifestante que se dizia ferida estava apenas pintada com tinta vermelha, a imitar sangue.
    Quando será que a comunicação social deixa de dar importância a este tipo de manifestações, como acontece com a comunicação social de qualquer país um bocadinho evoluído?

    1. Sim, tinta vermelha. Reproduzindo as acções de rua dos nacionalistas catalães, que protestavam contra as touradas pintando-se de vermelho. Se aquela tinta fosse sangue, a rapariga estaria a necessitar de uma transfusão urgente.

  4. Nascido e criado em Santarém, com amigos ligados ao meio tauromáquico, nunca tive grande inclinação pela chamada festa brava. Respeito quem a aprecia e reconheço os argumentos de quem se lhe opõe. E no entanto não deixo de reconhecer alguma dificuldade em chamar bárbaros a personalidades como Hemingway, Picasso, Miró, Dalí e tantos outros que a enalteceram nas suas obras.

    1. E Goya. E Albertí. E Lorca. Mas, caro Fernando, prefiro colocar a questão a outro nível. Sob a óptica jornalística. Há um espantoso défice de contraditório em muitas notícias que nos chegam diariamente ao domicílio. Esta foi uma delas.

  5. A o noticia era sobre os confrontos nos arredores da praça com a policia, e esta foi ouvida.
    http://www.publico.pt/multimedia/video/tourada-em-viana-dois-feridos-em-confrontos-com-a-policia-2013818202211
    Do outro confronto dentro da praça, uma das partes,se houvesse reportagem, também não teria contraditório.

    1. Extraordinário. Há uma tourada polémica, que uns querem proibir e à qual outros assistem, aliás enchendo a praça, e você aplaude uma peça jornalística que recolhe três depoimentos antitourada e não põe no ar nenhum depoimento favorável ao controverso espectáculo – tão controverso que justificou abertura do ‘Jornal das 8’. Deduzo portanto que deve ter achado mau jornalismo o trabalho feito pela RTP e pela SIC, que se deram ao incómodo de ouvir as duas partes.

  6. É extraordinário como haja quem não tem mais nada que fazer senão inventar cenários .

    E não contentes com isso têm que os vir impingir a quem está aqui , como eu , a querer saber o que todos e cada um pensam do contraditório nos noticiários e não do que eles pensam sobre as touradas (que aliàs nunca apreciei) .

    No entanto é difícil ter uma conversa séria quando se entra na desconversa e , nesse particular , invocar o “contraditório” dos touros no caso particular do tema que o Pedro Correia aqui levantou é gozar com o pagode (no qual me incluo).

    Levante o tema que levantar vai haver sempre disto , mas ainda bem que o meu caro é dos que não se calam .

    Nos últimos dias morreram várias pessoas em choque frontais onde é bem clara a posição dos carros e o traço contínuo nas estradas : pois a culpa é das portagens !
    E eu que fiz 50 mil kms por ano entre 1992 e 2012 e agora (que me reformei) “só” faço 20 mil kms por ano e sei bem que estou vivo porque dou tanta atenção ao retrovisor como ao que vejo pelo vidro da frente passo o dia a aturar malta que só sai com o carro aos domingos (e não é todos) ou só vai ao hipermercado mais próximo .

    Abraço

    1. Este comentário a que respondo é meu e assino usualmente “rmg” .

      Mais uma vez saíu “anónimo” vá-se lá saber porquê , é a 2ª vez , talvez eu tenha disparado cedo demais .
      De qualquer modo não vejo aqui qualquer “complot” …

        1. Sempre !
          É daí que vêm “disparados” os que acham que ainda têm tempo e espaço para nos ultrapassar e que , quando finalmente concluem que não , ou enfiam pelo que vem de frente ou enfiam por nós .
          Como habitualmente acham que se magoam menos se enfiarem por nós , é essa a escolha mais frequente e só nos resta “fugir” se houver berma .
          Mas consigamos ou não magoamo-nos sempre …

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