AUTOBIOGRAFIA
de Agatha Christie
Gostem ou não dela, certamente já leram algum livro de Agatha Christie. Dizem as estatísticas que praticamente só Lenine rivaliza com ela em vendas, mas tenho as maiores reservas em relação a estas estatísticas. Desde logo porque acho os livros de Christie muito mais fascinantes do que os de Lenine (já lá iremos um dia destes, camarada Vladimir), embora realmente demonstrativos da existência de uma estrutura granítica de classes sociais na velha Inglaterra, para recorrer ao jargão marxista-leninista.
Leio Agatha Christie desde sempre. Será talvez o nome das letras que leio com maior regularidade, quase sem interrupções (quase, neste caso, deve-se à década em que, quanto a policiais, apenas li os clássicos da literatura negra norte-americana, de James M. Cain a James Ellroy, passando por Ross Macdonald, que certo dia de 1981 me foi sugerido por Dinis Machado, e pelo melhor de todos eles, Raymond Chandler).
Agatha Christie é autora de dois dos melhores “policiais” de todos os tempos: O Assassinato de Roger Ackroyd e Um Crime no Expresso do Oriente. Livros originalíssimos e, decorrentemente, muito imitados. No primeiro caso, o criminoso era o narrador; no segundo, quase todas as personagens estavam envolvidas no assassínio, que terminava impune.
Como geralmente acontece a leitores compulsivos, iniciei-me em Agatha Christie com dois dos seus romances considerados “menores”: Tragédia em Três Actos e Mistério nas Caraíbas. Apenas por se dar a circunstância de estes serem então os mais recentes títulos da autora (à época ainda viva) na quase lendária Colecção Vampiro e não haver escolhas alternativas: na cidade dos trópicos onde eu morava só havia uma livraria – que aliás nem era livraria mas um grande armazém onde se vendiam produtos portugueses como latas de azeite, chouriço enlatado, barras de sabão e… livros.
Lá e em muitos outros locais, Agatha Christie foi-me acompanhando com o discreto toque de sedução que sabia pôr na sua escrita. Tenho alguma dificuldade em explicar este persistente fascínio, pois sempre considerei Hercule Poirot uma das personagens mais irritantes da história da literatura e quanto a mim os dotes divinatórios da astuta Miss Marple só conseguem convencer os mais incautos.
Este estranho fascínio por autores capazes de nos irritar e seduzir ao mesmo tempo é tema que dá pano para mangas. Mas por agora, e sem mais suspense, interessa-me falar do único livro da ‘Dama do Crime’ que abandonei antes do fim, um livro que achei interminavelmente maçador. Refiro-me à sua Autobiografia, lançado entre nós pela sua editora portuguesa de sempre – Livros do Brasil. Nada a ver, por exemplo, com o pujante testemunho humano das Memórias Íntimas de Georges Simenon, divulgado em Portugal pela mesma editora.
Christie parece ter sempre pouco para contar a seu respeito – e o pouco que conta é irrelevante e excessivo nessa irrelevância. Ficamos a saber tudo quanto não queríamos sobre a sua infância hiperprotegida numa mansão rural inglesa onde nunca faltou o chá das cinco, e depois, já ela era casada, não somos poupados às minudências da actividade do marido, arqueólogo de profissão. Esta vida sensaborona, desprovida de emoção, era compensada pelos contínuos cenários de crime concebidos pela virtuosa senhora, autora de mil vidas imaginadas para compensar uma existência banalmente insípida.
Abandonei a Autobiografia antes de chegar a meio, algures durante umas chatíssimas escavações na Mesopotâmia. Confesso: a arqueologia nunca me interessou. A arqueologia real, não a dos seus múltiplos sentidos figurados sem a qual não existia a literatura.



Pois eu nem a meio cheguei , gabo-lhe a persistência .
De resto li quase tudo o que havia para ler dela na minha adolescência e esse quase tudo foi em francês (ainda os tenho todos , da colecção “Le livre de poche”).
Na altura (há 50 anos) ou se sabia francês ou não se alcançava uma quantidade doida de autores .
Hercule Poirot e Miss Marple têm que ser vistos no contexto da nossa imaginação antes das séries televisivas e , depois delas , dos vários actores que os interpretaram .
Quanto a Lenine não me espanta nada : os livros dos outros autores não eram de aquisição obrigatória em várias latitudes nem o Estado comprava o remanescente das edições todas …
Também eu não cheguei a meio, meu caro. Chegar “a meio”, neste caso, é uma expressão metafórica: nuns casos sucedeu assim, noutros – a maioria – desisti muito antes. Mas também houve situações em que parei quase no fim, como falarei aqui um dia destes.
Gosto de muitos livros de Agatha Christie (não da sua ‘Autobiografia’) e tenho relido vários deles. Como se os lesse pela primeira vez. Saber quem assassinou quem torna-se quase irrelevante nos melhores títulos deste género de que ela é figura cimeira.
Também interpretei o seu “chegar a meio” dos livros desse modo , um ficar “algures pelo caminho”.
Acontece que neste caso específico só o folheei e nem o comecei sequer a ler .
Mas tenho-o nesta edição da “Livros do Brasil” .
De resto é exactamente como diz : no que respeita aos grandes autores policiais sempre comecei por ler o fim e saber quem era o assassino .
Ficamos assim com a mente livre dessa “preocupação” para apreciar devidamente a enorme qualidade da escrita .
Eheheh. Eu em miúdo é que fazia isso: ir espreitar logo o nome do assassino. Que nunca era o mordomo, ao contrário do que reza a lenda.
Agora prefiro o método dedutivo: a meio do livro, ou antes ainda, descubro de quem se trata. E quase nunca falha. Tenho qualquer coisa de Moita Flores – é capaz de ser isso. Qualquer dia candidato-me a uma câmara municipal.
Também sou fã de Agatha Christie, embora já tenha sentido o peso de alguns olhares supostamente intelectuais quando me confesso como tal. Já li e reli quase tudo, em português e em inglês (que delícia!), menos a autobiografia, que não me interessou minimamente. Abrimos um livro, começamos a ler e aquela sensação de prazer quase proibido vai tomando conta de nós. Flutuamos nas palavras. Não tenho dúvidas que é daqui que nasce o meu absoluto fascínio por Inglaterra.
Costumo aconselhar aos utilizadores da biblioteca que me dizem que não têm hábitos de leitura, porque “não têm paciência para ler”. A colecção está velhinha e usada, as capas estão “recauchutadas” e algumas tiveram mesmo de ser substituídas. A Asa tem vindo a editar nos últimos anos vários títulos, com uma imagem gráfica mais apelativa, pelo menos aos olhos dos novos leitores. Eu continuo a preferir a edição Livros do Brasil e a colecção Vampiro Gigante.
Saudações Leoninas, Pedro.
( não consegui evitar 🙂 )
Faz muito bem em dar esse conselho, Zélia. Tem de se começar por algum lado: o gosto da leitura não nasce de geração espontânea, necessita de incentivo.
Mantenho o gosto em ler e reler Agatha Christie, e também prefiro a colecção Vampiro, que aliás colecciono (falta-me completar a colecção, mas esse é um dos prazeres do coleccionador: nunca completar a colecção). As edições da ASA são competentes, embora em certos casos eu preferisse que se tivesse mantido os títulos originais das versões portuguesas (abusa-se entre nós do mau hábito de alterar os títulos das obras literárias já consagrados pelo uso de décadas em Portugal, como sucedeu com ‘O Triunfo dos Porcos’, de Orwell, que passou para ‘A Quinta dos Animais’, ou ‘Uma Agulha no Palheiro’, de Salinger, que passou ao feio ‘À Espera no Centeio’, ou – caso mais censurável – ‘O Monte dos Vendavais’ que chegou a chamar-se ‘O Monte dos Ventos Uivantes’).
Saudações Leoninas, com todo o gosto!
A mania de “mudar” os títulos consagrados desde sempre tem muito a ver com um certo “purismo” (não encontrei outra mas sei que esta não é a palavra ideal) .
Tem acontecido por vezes que se fazem novas traduções , muitas das “antigas” não eram sempre do original (caso típico os livros de Thomas Mann) .
E já agora , por este motivo ou não ,traduz-se mais “fielmente” o título (Animal Farm , The catcher in the rye e – vá lá … – Wuthering Heights) .
Eu também acho que “não havia nexexidade” , como diria o Diácono Remédios .
De qualquer modo quem leu Orwell , Salinger ou Brönte sabe o que tem nas mãos e não corre o risco de o levar outra vez .
Fica no entanto uma confusão desnecessária e inútil instalada a nível de fundos de catálogo , bibliotecas e algumas cabeças mais debilitadas pelos anos .
É isso, RMG. E entretanto “O Triunfo dos Porcos” tornou-se, mais do que um título, uma espécie de expressão idiomática que passámos a utilizar recorrentemente – além de corresponder ao clímax da novela do Orwell. Por mais traduções literais que prefiram (e ‘Quinta dos Animais’ é um título que, sendo literal, não deixa de ser desinteressante e frouxo), esta não deixará de circular, tenho a certeza.
Também li inúmeros policiais de Agatha Christie, e sempre com prazer. Da autora, o último livro que li não foi um policial, mas antes uma espécie de livro de viagens: «Na Síria», editado em Portugal pela Tinta-da-China; e é uma delícia.
Já anotado no meu caderno, Carlos. Costumo estar sempre atento às novidades editoriais mas esse título passou-me. Sendo a autora quem é, e tratando-se da editora que é, interessa-me seguramente.