Encontros e desencontros


Pedro Correia,

 

Foi uma sensação estranha, estar pela primeira vez numa Feira do Livro, nesta tarde de sol, do outro da barricada. A dar autógrafos, em vez de os pedir. Durante muitos anos, fui acumulando autógrafos de escritores – e tenho alguns preciosos, pelo menos para mim. Dos que solicitei e obtive em tempos idos no Parque Eduardo VII talvez nenhum tão precioso como um de Agustina Bessa-Luís, na sua caligrafia clara, cuidada e compreensível: quem sempre se interessou por grafologia, como eu, fica atento a estes pormenores.

Ia pensando nisto durante a tarde, sentado (à sombra) junto ao pavilhão da Guerra & Paz, enquanto escutava o anúncio, pelos altifalantes, de que noutros pontos da Feira os mais diversos autores compareciam para sessões de autógrafos. Gostaria de ter passado por lá, mas mantive-me no meu recém-estreado lugar de autor: vendo chegar gente amiga, como a Patrícia e o João Campos, conhecendo pessoalmente leitores com quem já mantivera muitos diálogos virtuais aqui no blogue, falando de tudo um pouco com o Manuel S. Fonseca, meu editor, e o professor Alexandre Castro Caldas, meu parceiro na colecção “politicamente incorrecta”.

 

Uma das celebridades que hoje acorreram à Feira foi o chileno Luis Sepulveda, de quem li há vários anos um livrinho que me fascinou: O Velho que Lia Romances de Amor. Eis um escritor de quem gostaria de ter um autógrafo.

Gente a subir, gente a descer. Cada vez mais gente, aproveitando a tarde ao ar livre já a cheirar a Verão. Inicialmente poucas pessoas com sacos de livros na mão, mas o número aumenta visivelmente à medida que as horas passam. Chega um amigo que há muito não via, pede um autógrafo. Outro amigo, com a família, chega também com um livro para eu assinar. O altifalante anuncia mais celebridades noutras parcelas do Parque: Fernanda Serrano, Santana Lopes, Pacheco Pereira, Urbano Tavares Rodrigues.

 

Ainda quis ir dar um abraço à nossa Helena, mas já não a encontrei quando retornei à condição de simples leitor, calcorreando os pavilhões. O abraço acabou por ser dado ao Francisco José Viegas. Edmundo Pedro, figura quase mítica da oposição ao salazarismo, andava por ali. Muito discreto, acompanhado de familiares, também o historiador António Borges Coelho. Maria Inês de Almeida, sorriso radioso estampado na face, assina livros: poucos vão publicando tanto como ela. Um veterano fotógrafo da Gente espreita rostos conhecidos que lhe permitam bons instantâneos. Vejo Rentes de Carvalho, mais adiante José Luís Peixoto, cheio de tatuagens e de leitores em fila de espera para o autógrafo. Mais numerosa só a do público que acorre ao encontro de Fernanda Serrano, que conta como saiu vitoriosa de uma luta contra o cancro num livro que constitui, até ao momento, o maior sucesso de vendas do ano.

Reencontro e cumprimento autores e editores que fui conhecendo em fases diversas e por quem tenho muito apreço: Ernesto Rodrigues, Guilherme Valente, José Adelino Maltez. Passa por mim Daniel Sampaio. Reparo em Ricardo Araújo Pereira, recém-premiado, também na Feira como autor: estranhamente, não parece muito procurado pelos caçadores de autógrafos.

 

E chego-me aos escaparates. Os Contos Completos, de Fernando Pessoa, estão como livro do dia na Antígona: sete euros e meio, nem hesito em comprar. Mais contos, mas de Rosa Montero: Amantes e Inimigos, com a chancela da Presença. Cinco euros, também não hesito. No pavilhão da Cavalo de Ferro, deparo com Khadji-Murat, de Tolstoi. “Aquela que considero ser a melhor história do mundo, ou pelo menos a melhor que li até hoje”, comentou Harold Bloom, no seu Cânone Ocidental. Quanto custa? Sete euros e meio, tanto como os contos do Pessoa. Marcha também para dentro do saco das compras. Tal como Fome, de Knut Hamsun, da mesma editora. No espaço da Leya, cada vez mais policiado e atulhado de mirones à cata de “famosos”, deparo com a obra completa de Nuno de Bragança – seis títulos – por apenas dez euros. Quem saberá hoje quem ele foi?

E eis que se cruza comigo Luis Sepulveda, acompanhado do seu editor português. Despede-se da Feira, pelo menos por hoje. Um dia hei-de conseguir enfim um autógrafo dele…

20 comentários em “Encontros e desencontros”

    1. Nem é preciso procurar muito. Eles vêm ao nosso encontro com facilidade. A obra completa do Nuno de Bragança por dez euros é possivelmente um recorde desta Feira (ou de qualquer outra).

        1. Este ano foi instituída a chamada ‘hora H’, entre as 22 e as 23h, durante a qual todos os livros ficam ao preço do chamado ‘livro do dia’.
          Além disto há redução dos preços dos livros em Lisboa para não perderem (ainda mais) clientes enquanto dura a Feira. Uma decisão muito acertada, em termos comerciais.

  1. Eu não quero ser do contra, mas a minha ida à feira foi uma má experiência, não vi Livros, não lhes consegui chegar. Dei um abraço às minhas amigas, Ana Pereirinha, Patrícia Reis e Cristina Carvalho. Dois beijinhos à “minha” querida Helena Sacadura Cabral (amigas do coração do Robert Redford e do Jeremy Irons – descobrimos ontem), finalmente tive o gosto e o prazer de a conhecer e o resto não correu bem. As farturas, um lounge do Ribatejo, pratos de couratos, copos de vinho tinto, cachorros quentes, mais de trinta graus (por extenso), muita gente e muitas vedetas…O meu 1,53 a recuperar de uma operação, foi mal pensado. Voltarei quando a Fernanda Serrano estiver na televisão e grande parte da população na casa “mais visitada do país”. O que trouxe eu da feira? Uma dor de cabeça, dois beijinhos da Helena (apesar de não ser chique),o colo das minhas amigas e uma ENORME vontade de lá voltar. Não foi tudo mau, pois não, mas havia pipocas e copos de vinho a mais. Coisas minhas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *