… não estou aqui, imagino que não estou aqui, estou numa cama de um hospital, a cama 306, já não tenho a inteligência ligada à saúde, tenho só o corpo ligado a tubos e a esperança ligada à vida, imagino que os médicos se enganaram, ou que não previram tudo, que tenho mais do que dois meses de vida, imagino um milagre, eu, finalmente entre a morte e a fé, imagino o meu neto que nascerá dentro de três meses, aquele abraço que devo, o muro que não acabei de mandar abaixo, a novela a que só me falta um capítulo e mais umas coisas que o meu sentimento de eternidade foi adiando; imagino que me vieram perguntar, um senhor muito gentil, muito, muito compreensivo, do economato, se não me importava de morrer no prazo certo, ou se possível mais cedo, pois gastam comigo fortunas devidas à dívida soberana. Não estou aqui, estou numa cama de um hospital, público, português, corre Setembro de 2012, já não tenho a inteligência ligada à saúde, apenas rezo, eu, que sempre achei a oração como um desperdício da razão, para que os médicos se tenham enganado, o que às vezes acontece, ou haja um milagre, o que também não é raro, ou então para que me apague como uma pessoa e não uma rubrica do Orçamento de Estado.
Cama 306
modosdever,

As decisões de prolongar ou não a vida deveriam ser orientadas sobre critérios rigorosos e humanos, e nunca sobre quaisquer outros, de outro tipo qualquer. A vida e a morte são uma complementaridade dentro de um único corpo, e merecem, ambas, respeito. Sempre que se materializam deixam de fazer sentido, ambas, e seja em que situação for.
Disse tudo, Carla. Nada a acrescentar.
e esta gente que faz este tipo de propostas deve ter a inteligencia ligada à zona que fica ao fundo das costas. sá assim se perceb que daquelas cabeças saiam tantas ideias de mer…,desculpe a expressão
Pior, Jorge: esta gente tem a inteligência ligada a recursos que a maior parte de nós não tem.
É inenarrável! Repito as palavras de Primo Levi: Se isto é um Homem…
Assino.
O que dizer-lhe que não seja:
Homem, morra de uma vez!!!!
Aliás, se todos os reformados, os indigentes, os doentes e os desempregados morressem de súbito, (enfim e para não gerar entupimentos nas funerárias, fosse um súbito pelo espaço de 30 dias), isso ajudaria a tal dívida soberana?
Então à que matá-los! À morte!! À morte!!
A chatice é encontrar voluntários; sobretudo voluntários que estejam dispostos a pagar as próprias despesas fúnebres. Porque “este povo” é mal agradecido e não reconhece quando lhe querem fazer bem!
Cumprimentos.
É verdade, Stressssstress. Como o António Arnaut dizia esta manhã estamos perante uma aberração.
Os recursos do SNS nunca foram ilimitados. Há anos que, com os velhos, em doenças oncológicas, é praticada uma “eutanásia consentida”.
… e provavelmente não só contra os velhos com doenças oncológicas, Fernando
Quando chegar à morgue avise sff, para lhe ofecermos o funeral.
Funerária de S. Bento & Belem, SA
Obrigado. Pelo menos assim não tenho que pagar o IVA.
Tenho algumas dúvidas que não me permitem manifestar claramente a minha opinião sobre este assunto.
Mas este texto amargo é muito humano e toca na questão fundamental que é a relatividade do tempo. Para alguém que tem pouco tempo de vida, um dia pode fazer muita diferença.
… coloquemo-nos por instantes na alma de um doente, grave, que quer continuar a viver e acredita que isso é possível. Pode bem ser amanhã o nosso caso.
Já passei por uma situação dessas, Fernando. Cada dia é precioso e imprescindível. Mas penso que o que queres fazer notar aqui é o perigo da desumanização dos cuidados de saúde por causa dos cortes nas despesas, e a violência que isso significa para quem está numa cama de hospital. Tens razão, ainda que sejam inevitáveis alguns cortes. Imagino a sensação de injustiça que um doente fragilizado e com medo deve ter, ao ver como tem sido mal gasto o dinheiro neste país a ponto de não poder socorrê-lo ou, pior ainda, de fazê-lo sentir-se um peso incómodo.
Não é a racionalização das despesas da saúde que me preocupa, Ana, é o racionamento dos cuidados ou dos fármacos, e por fim dos direitos, à saúde ou mesmo à vida, que foi o que defendeu o Miguel Oliveira da Silva.
Sim, eu percebi. E concordo inteiramente contigo.
Aplauso incondicional ao teu texto, Fernando. Um abraço.
Um abraço, Pedro.
E eu estou com o Pedro no aplauso, Fernando. Beijo
Beijo também. Resiste aos noticiários da manhã. Deixaste-me preocupado.
Por maioria de razão – talvez… – junto o meu aplauso aos que aqui te enviaram pelo teu texto. Por maioria de razão – sinto… – não poderia estar mais “dentro dele”…
Eu sei. Eu sei. Eu sei.
Belo texto. Tomei a liberdade de o “linkar” no meu blogue (Quinta Emenda) a propósito do tema .
Obrigado, Eduardo. Escrevi-o por todos nós.
na verdade, o parecer ainda vai mais longe mas talvez seja esta a parte mais imediatamente repugnante. Todo ele, todavia, é um rol de considerações pseudo éticas e pseudo morais verdadeiramente aterradoras. se estes senhores são a nata da classe médica estamos entregues em boas mãos.
parabéns pelo seu texto. diz tudo: já passei por isso e sei que assim é.
temo por tantas famílias/tantas pessoas sem voz…
É como dizes, Marta. Há que ficar de olho no cavalheiro. Há que esperar tudo dele. Não está de facto à altura das circunstâncias. E portanto da ética.
Obrigado pelo texto e por o ter partilhado.
Rosa Maria
Vivemos um tempo em que não podemos ficar calados, RM.