Nos últimos tempos, qualquer notícia relacionada com os supermercados Pingo Doce e o grupo Jerónimo Martins dá azo a reacções populares online (é onde se passa tudo hoje em dia) particularmente inflamadas. A mudança da sede fiscal do grupo para a Holanda gerou uma gritaria desenfreada, acusando o grupo de não querer pagar impostos em Portugal e de não gerar riqueza em Portugal – o que não deixa de ser curioso quando os supermercados dão emprego a milhares de pessoas num país onde até há bem pouco tempo qualquer pessoa que fugia aos impostos não se importava de se vangloriar desse acto de chico-espertice saloia. Há pouco tempo, muitos rasgaram as vestes a propósito da célebre campanha de promoções a 1 de Maio, recebida como um atentado ao Dia do Trabalhador e uma humilhação aos consumidores (como se oferecer preços mais baixos aos consumidores que voluntariamente se deslocaram às lojas fosse algo do outro mundo). Hoje, estalou a polémica por causa da decisão de os supermercados Pingo Doce deixarem de aceitar pagamentos por Multibanco para compras de valor inferior a 20 euros. Caiu o Carmo e a Trindade; foi o suficiente para os trolls – incluindo a DECO – saírem todos para a praça pública, ou seja, para as caixas de comentários online, munidos de forquilhas e archotes.
Pessoalmente, acho a decisão disparatada, e vai sem dúvida obrigar-me a mudar as minhas rotinas de compras, uma vez que na minha vizinhança o Pingo Doce é a única opção que tenho (para além de uma mercearia portuguesa e duas indianas que frequento com alguma regularidade quando não tenho outra alternativa – são mesmo muito mais caras). No entanto, isto para mim é uma mera uma questão de comodidade; se esta decisão se vier a revelar demasiado incómoda, nada me impede de procurar outras alternativas – como passar a frequentar a loja menos vezes fazendo mais compras, ou mesmo fazer compras noutros supermercados mais distantes. O Pingo Doce, felizmente, não é a única cadeia de supermercados do país; ninguém é obrigado a fazer compras lá, mesmo que tenha uma loja no rés-de-chão do prédio. E, sendo uma empresa privada, tem todo o direito de colocar este tipo de restrições, desde que legais (e nem são tão estranhas quanto isso). Quem não gosta, não frequenta as lojas. É mesmo assim tão simples.
Claro que vivemos num tempo de indignação fácil e a Internet é hoje em dia o meio privilegiado para a fúria sem fundamento. Mas talvez fosse boa ideia não exagerarmos.
(Já a teoria da conspiração difundida nos comentários de que isto é o primeiro sinal de que se avizinha uma taxa sobre todas as transacções feitas com Multibanco – levantamentos, etc. – pode merecer alguma atenção, admito. Afinal, dadas as nossas particulares circunstâncias, tal jogada não seria estranha, ainda que certamente desastrosa. De qualquer forma, não vejo como o Pingo Doce poderá ter alguma coisa que ver com isso)

João: voltamos às indignações fáceis, em cadeia, tipo pudim instantâneo. Segundo justificou hoje o grupo Jerónimo Martins, esta medida permitir-lhes-á uma poupança anual superior a cinco milhões de euros, em taxas à banca pelo serviço multibanco. Isto porque a banca portuguesa cobra das taxas mais caras em toda a Europa aos comerciantes por transacções feitas por esta via. Nos últimos quatro anos, terão sacado cerca de 300 milhões de euros ao sector da distribuição em Portugal. Isto sim, parece-me criticável.
Se a medida agora adoptada se reflectir numa redução dos preços nos supermercados pertencentes a este grupo (ouço dizer que o grupo do Jumbo se prepara para fazer o mesmo) não percebo como poderá isto prejudicar os consumidores. Tanto mais que não conheço nenhum Pingo Doce que não tenha a poucos metros, ou mesmo à porta, ou até nas próprias instalações, caixas multibanco.
Incompreensível, para mim, é a posição do secretário-geral da DECO, que em vez de se insurgir contra o absurdo das taxas cobradas pela banca portuguesa se apressou a referir que “em termos de segurança e de comodidade, não são medidas [as da Jerónimo Martins] boas para os consumidores”.
Gostaria de saber, a propósito, se a DECO reuniu os seus órgãos directivos para analisar convenientemente esta questão ou se o secretário-geral se limitou a expressar uma opinião em termos pessoais.
Enfim, o costume: estamos no Reino do Bitaite. De uma coisa estou certo: os consumidores serão os primeiros a entender esta posição.
talvez a muita indignação seja pelo facto do Sr.Pinga Doce ter mudado o supermercado para a Holanda. O “povinho” tuga sabe que já pagou muito daquele império.
À questão dos ordenados, sim é importante, mas apenas ficam cá porque, é pouca despesa e as grandes superfícies de géneros alimentares ainda são um bom negócio.
A maior parte sai de Portugal “limpinho” deixa algum na Holanda e parte para Angola, depois volta a Portugal. Já viu quem é que perde mais com isto?
Estaríamos todos melhor, então, se Alexandre Soares dos Santos “cagasse” para Portugal e mudasse tudo para a Holanda. O que não se gritava aí: que o homem era um insensível, que só queria lucro, coitadinhos dos empregados… Ah, espere, isso já se grita agora. Curioso.
“O ‘povinho’ tuga sabe que já pagou muito por aquele império”. E então? Uma vez mais: se os consumidores vão ao Pingo Doce, fazem-no voluntariamente. Até parece que o grupo Jerónimo Martins não é um negócio, mas uma ONG…
Sr. Pedro, aproveite e registe também “República dos Bananas”.
Então acham bem, que empresas operem num dado país mas não paguem impostos no mesmo, sim senhor, acho muito bem, e que se peça mais dinheiro ao BCE.
Nem sei porque nos damos ao trabalho de ir votar, mais valia acabar com isso.
Pedro: vai já registar a expressão “Reino do Bitaite”. E, por via das dúvidas, regista também “República do Bitaite”.
Sobre a DECO, não surpreende. Julgo que já estamos todos mais do que habituados aos disparates que de lá saem (sem esquecer o spam…).
É verdade, João. E falam sempre sem contraditório neste país de basbaques (aproveitando o teu conselho, vou registar esta expressão também).
Em Portugal, a maioria do povo nunca se deu bem na liberdade. Pior, nunca viu bem a liberdade dos outros, nem sabe como exercitá-la (porque o ensino e a casinha nunca educaram…).
Os débeis viram-se para a inveja, concretizada numa supremacia moral discorrida por depoimentos de testemunho de carácter. Ainda recentemente assisti a alguém que perante a “solutio” de uma dívida teorizava sobre o altruísmo e o egoísmo do pagador. Enfim, a debilidade exteriorizada exprime uma interioridade irracional. Em vez de ver o facto, vê valor (mesmo aqui não percebeu o evidente: ganhou com tal pagamento).
Os inteligentes, mas com uma preconceitualização qualquer (exemplo, aquelas mulheres bloquistas mais assanhadas), viram-se contra a supremacia relacional do grupo em face do cidadão que vai comprar um quilo de maçãs e dois iogurtes naturais e … usa o cartão.
As instituições de defesa do novo proletariado (o consumiriado) dizem que é menos cómodo, qual tal depende da perspetiva individual…
Enfim, tudo inimigos da liberdade, de corpo e alma, com nomes, …não é só nos livros de história que eles existem…
Infelizmente tenho de lhe dar razão.
Na conjuntura actual será de estranhar é que não se critique tudo e mais alguma coisa.
Não surpreende pois que a internet espelhe todas essas criticas.
Afinal não são mais do que conversas à mesa do café que vogam ao sabor das notícias.
Por exemplo: O divórcio do Tom Cruise! Ou o encosto do Luisão! Ou o jackpot do euromilhões! Ou as 7 marav.praias!
Quanto ao caso em “post”: será que as vendas com valores superiores a 20€ poderão aumentar?
Dada a tendência para a comodidade de quem vai às compras…
Deve haver mais qualquer coisa para nos preocupar!
É o que penso!
Cumprimentos!
Isso, por acaso, será interessante avaliar: se aumentam as vendas superiores a 20 euros – com os consumidores a fazerem mais compras menos vezes ou, pelo contrário, a comprarem coisas de que não necessitam para chegarem ao valor – ou se passa a existir uma maior racionalidade no consumo (se é que é necessária uma maior racionalidade no consumo. Duvido é que alguma conclusão consiga emergir da gritaria.
Como eu me revejo no que escreveu. Quando ouvi a notícia na rádio e, ao longo do dia, os respectivos comentários, fiz o mesmíssimo juízo que o JC.
Seria interessante ver, mais tarde, a sobreposição dos dois grupos (quem protesta contra os supermercados e quem vai continuar a comprar nos supermercados). O resultado seria certamente interessante.
Seja por que motivo for o Pingo Doce está constantemente a ser notícia e a ter publicidade devido a isso. Só espero mesmo é que esta medida não se generalize , digo isto, enquanto cliente e operadora de caixa
Pois, para quem trabalha nas caixas isto vai ser um inferno. Quanto à publicidade: eu não acredito muito naquela máxima de que não importa falar bem ou mal de algo. Má publicidade é má publicidade.
Veja um excerto de um texto presente num exame de filosofia deste ano.
“Esta pedra, seguramente, […] acreditará ser livre e preserverar no seu movimento pela única razão de o desejar. Assim é esta liberdade humana que todos os homens se vangloriam de ter e que consiste somente nisto, que os homens são conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam.” Spinoza, «Lettre à Schuller», in Ouevres Complètes, Paris, Gallimard, 1954.
Decidi transcrever este texto por um simples motivo. O senhor diz que no 1º de maio as pessoas se deslocaram voluntariamente. Já ouviu falar de determinismo social? Erauma das teses defendidas por Marx. Na verdade, o que se passa é que com a crise muita gente foi ao Pingo Doce nessa promoção, mas quantas dessas pessoas teriam dinheiro para comer durante todo o mês de outro modo? Quantas dessas pessoas foram lá porque na sociedade em que foram criadas a verdadeira moralidade é passar a perna a todos os outros? Se calhar, isso merece uma análise muito mais aprofundada do que o paspalho com graves tiques de hipócrisia lançar achas para a fogueira.
Tó Zé, o “senhor” talvez esteja no céu.
Está a dizer que:
1) quem de outra forma não teria dinheiro para as compras durante o mês todo aproveitou a campanha do 1 de Maio – nesse caso, excelente, a coisa já foi útil para alguém.
2) O passar a perna – quem é que passou a perna aqui? O Pingo Doce à concorrência que é livre de fazer as promoções que entender? O Pingo Doce ao comércio tradicional que invariavelmente encerra nos feriados, e a qualquer hora conveniente para os potenciais clientes? Ou terão sido as pessoas que se calhar até tinham dinheiro para fazerem compras normalmente durante todo o mês que passaram a perna a quem não tinha por decidirem poupar algum dinheiro com a promoção?
Pessoalmente, prefiro pensar que quem lá foi, fê-lo voluntariamente. O amigo prefere pensar de outro modo. Como diria uma pessoa que muito estimo, ainda bem que não gostamos todos de amarelo. De qualquer forma, isto já é off-topic.
Com passar a perna, refiro-me a pensar sempre que se é mais inteligente do que os outros e fazer qualquer coisa sem pensar nas consequências dos seus atos. Por exemplo, foram encher supermercados que passaram os custos para os produtores (de acordo com o ministério da agricultura e afins), que obrigaram vários trabalhadores a trabalhar naquele dia com certas ameaças (que como é óbvio nunca se comprovaram, tendo em conta a fortuna de Soares dos Santos; sendo também certo que se agora se comprovassem seria através de ex-trabalhadores). Se calhar o passar a perna em Portugal é mesmo “eu tenho de conseguir algo um pouco melhor para mim, não importa o que aconteça a todos os outros”.
Quanto ao aproveitamento por parte de quem não tem dinheiro, não estou contra a essas pessoas, estou apenas a questionar se foram voluntariamente ao supermercado (como o senhor disse no seu texto). Se observarmos o texto de Spinoza verificamos que não foram lá de livre vontade. Chama-se a isso mesmo determinismo e é só um dos argumentos mais fortes da filosofia que até hoje nunca foi convenientemente refutado (exceto por dois argumentos que são autênticas falácias e que até eu já refutei).
Perante a notícia não quero reclamar contra a medida do Pingo Doce. Cada um faz o que entender, desde que não estejam a infringir as leis comerciais. Eu como não gosto de andar com muito dinheiro e uso o cartão com frequência simplesmente vou a outros superes onde não exista esta restrição (se bem que os supermercados da minha zona fazem preços mais em conta, têm uma qualidade boa, ficam mais perto e aceitam cartão). Por mim, podem colocar os limites que quiserem.
bloguedomanel.blogs.sapo.pt
O que, diga-se de passagem, é bem mais sensato.
Nem mais!Concordo com tudo.
Parabéns pelo destaque no sapo blogs 😉
Isto esteve em destaque?
Boa noite,
Em relação a este post e a muito lixo que se escreve neste tipo de blogues (textos escritos, por mãos suaves, ditados por cabeças viradas para o estudo, que estão sobre os ombros de pessoas, cuja formação de vida assentou, nos bancos de escola, até terem um qualquer canudo, pago por sabe-se lá quem), só gostava de dizer que em relação a esta escolha(pois, por que não se pode chamar medida), a mim não me afecta, faço como sempre fiz, não aceita cartãozinho, não levo as comprinhas. O dinheiro (parte ainda é minha, a outra a maior é do estado) é meu gasto-o onde bem entender ( a isto chamo livre escolha), por isso acho que este tipo de post´s são lixo, para nos desviarem a atenção de assuntos, bem mais importantes, tais como: Os famosos submarinos que levaram dois alemães á prisão, mas que em Portugal levam ao desaparecimento de documentos(estranho, não acham?), à inauguração de uma unidade de saúde, e atenção, uma unidade de saúde Privada, que foi inaugurada por “Sua Excelência o Presidente da Republica”(neste caso dos bananas), quando está na cara o que se está a fazer ao SNS. Posto isto e por ter muitos mais exemplos, pouco ou nada á a comentar.
Obrigado
Caríssimo,
essa formação de vida dos bancos de escola é limitada, concedo, mas tem algumas vantagens. Por exemplo, ensina – a quem quer aprender, claro – que não se separa um sujeito de um predicado com vírgulas. Nada de relevante, é certo, mas fica sempre bem quando se quer escrever alguma coisa.
Quanto ao resto, gabo-lhe a paciência por perder tempo com lixo. Agradeço ainda os temas propostos, sugerindo-lhe que, ao invés de dizer a estranhos o que devem ou não escrever, se dedique a eles. Tanto quanto sei, isto não é um programa de discos pedidos, e nessas coisas não há nada como fazermos nós mesmos aquilo que gostaríamos de ver feito.
Cumprimentos e boas compras.
Caro Sr.
Obrigado pela correcção, mas o ficar bem ou não, a mim não me diz nada. E agora se me permite, e se calhar foi culpa minha(devido à minha falta de banco de escola), mas não entendeu aquilo que escrevi. Nunca sugeri, eu afirmei, e dei dois exemplos, o que na minha optica me parece bastante diferente de sugerir ou pedir (e claro que isto não é um qualquer programa sarnoso de discos pedidos, aqui temos a fina nata de escribas, a soldo ou não, não sabemos….).
E já agora, se por acaso o ofendi com aquilo que escrevi, peço-lhe desculpa. Mas é só a opinião de mais um cidadão cumpridor, pagador de impostos e contribuições, que começa a ficar farto de ser espoliado por uma corja bem falante e irresponsável, de meninos de familias “importantes”, colocada em pontos fulcrais da nossa sociedade e economia.
Mais uma vez, muito obrigado pela correcção.
Cumprimentos
Não percebo é as criticas das pessoas que dizem não andar com dinheiro no bolso e pagarem tudo com o cartão. Custa muito andar só com 20€ na carteira e caso a compra no PD ultrapasse esse valor, aí sim, poderiam “sacar” do cartão de credito?
Um não-assunto só para entreter esta silly season
Mas que seria da silly season sem os não-assuntos..!
Acrescento, para reflexão, só isto http://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2 012/01/voar-para-a-holanda.html#comments e mais isto http://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2 012/05/pingo-walmart-doce.html