“Há muitos anos li, não me recordo exactamente onde, mas talvez num policial, que as esquadras de polícia de Nova Iorque entram de prevenção nos dias muito quentes. O calor, explicava o autor cujo nome já esqueci ou nunca soube, enlouquecia as pessoas, e a violência subia assustadoramente, acompanhando o termómetro.
Enquanto esses picos de calor não desciam, os polícias mantinham-se nas esquadras, à espera de mais um homicídio. E, todos os verões, o que eles previam acontecia.
Alguns anos mais tarde, ouviria muitas vezes uma formulação semelhante para explicar o feitio ou a personalidade dos habitantes da cidade em que B. nascera. Sempre que alguém se excedia, fosse por que razão fosse, por vezes pelos motivos mais banais, eu escutava a sentença fatal:
não tem culpa, nasceu assim.
E assim, curiosamente, o meu mundo dividia-se em dois, nesse tempo: as pessoas a quem era permitido dizer e fazer tudo porque o muito calor (ou o muito frio, apesar de nesses dias pouco se sair à rua e a indulgência ser menor) era o verdadeiro culpado e as outras, as estrangeiradas, isto é, eu.” O Verão de Todos os Silêncio, Maria Manuel Viana, absolutamente excelente, edições Planeta.
