Da inevitabilidade do labirinto


convite,

Estraguei um casaco hoje no supermercado. O dia começou acinzentado e eu decidi pôr sobre os ombros um casaquito leve. Teria sido uma boa ideia se me tivesse apercebido de que, ao debruçar-me sobre uns alhos franceses, uma ponta solta no canelado do cós se tinha prendido a sei lá o quê. Não dei por nada e segui o meu caminho. Só quando levantei o braço para os iogurtes é que vi um longo fio azul que saía de mim e se perdia ao longo do corredor. Tivesse eu algum juízo e cortaria o fio, seguindo em frente. Mas quem diz fio diz labirinto e eu sou lá pessoa para deixar em aberto uma possibilidade daquelas. Fui, então, guiada pelo fio, ao longo do corredor dos lacticínios, entrei na zona da fruta, virei para o lado dos legumes e lá encontrei o princípio do fim do punho do meu casaco. Dei-me, então, conta de que reentrara num labirinto (ainda que imaginário) para procurar uma resposta e dela retirar um ensinamento: ter cuidado ao debruçar-me sobre alguma coisa, não vá estragar-se o que tenho em mim.

O mito do fio de Ariadne tem assumido, sob as mais variadas representações artísticas, tantas e tantas versões que, desde os antigos (Homero, Hesíodo, Apolónio de Rodes, Apolodoro, Diodoro Sículo …) até aos modernos e contemporâneos, é possível encontrar um descomunal leque de interpretações, concomitantantes ou não.

Teseu, o herói, depois de ter matado o Minotauro no labirinto em Creta, viu-se em dificuldades para sair lá de dentro. Apaixonada ou não por ele, o certo é que Ariadne, a jovem princesa cansada daquelas zoomórficas complicações familiares, decidiu que ao ajudá-lo se ajudava a ela. Ajuda-te a ti mesma, deve ter pensado, que o conhecimento viria depois e para alguma coisa lhe havia de servir ser neta do Sol. Os poetas já deram mil e uma explicações para o facto de Teseu ter abandonado Ariadne na ilha de Naxos. Quando Marguerite Yourcenar escreveu a peça Qui n’a pas son Minotaure?, mostrou-nos um Teseu fragmentado em busca de uma íntima unidade, de um absoluto pessoal, busca na qual Ariadne é, ao mesmo tempo, auxílio e objectivo. “Si j’ai voulu vivre, c’ést pour sentir de nouveau l’odeur de miel des cheveux d’Ariane.” O odor de mel dos cabelos de Ariadne está para além dela e dos seus cabelos, é a procura incessante de mais qualquer coisa, de outra coisa a ultrapassar. Que é destino do herói ser heróico e Ariadne não pode deixar de ficar em Naxos.

Muitos pintores a representaram chorosa sobre o areal ou junto às rochas da ilha. A convivência com Dédalo, o engenhoso arquitecto do labirinto, deve tê-la tornado uma rapariga prática. E as raparigas práticas sabem que o melhor sítio para chorar um homem é o ombro de outro. Melhor do que o ombro de um homem, ah pois!, só o ombro de um deus:  foi, com certeza, a conclusão a que chegou quando Dioniso lhe apareceu, disposto ao amor e aos seus excessos.

Faz muito tempo que tudo isto se passou. Até porque tudo isto se passou antes do próprio tempo começar.

O labirinto, esse repetido percurso entre a intimidade da sombra, não é apenas uma marca inapagável na condição humana. Existe, exige e é anterior a nós.

6 comentários em “Da inevitabilidade do labirinto”

  1. Enrolaste-me, Ivone. Coisa que eu, estando num dia em que me sinto uma rapariga muito prática, não tencionava permitir. Desconfio que de tanto te passeares pelo olimpo aprendeste a enlear os incautos que se passeiam nas tuas prosas. Está lindo, este texto. Parabéns!

  2. Muito bom.
    Estamos sempre entre o “antes” e o “depois”… às vezes sem conjugar os dois.
    Teseu representará aí o “depois”, o abraçar novos desafios, procurando encontrar-se num devir em que se vai esquecendo do que foi “antes”.
    Já Ariadne parece ter querido parar o tempo num “antes”, num “antes isto que pior”… cristalizou a sua meia-parte e aceitou um “depois” externo, definido por Dionísio.

    Terá faltado casar os dois, o “antes” e o “depois”, Ariadne e Teseu, e certamente teríamos rebentos que não fossem apenas bacorinhos de Baco/Dionísio.

    Por isso, cara Ivone, se o “depois” estragar o “antes” é porque esse antes que parecia sólido era afinal frágil, e só o destrói se quiser esquecer do “antes”.

    Não vale a pena construir barragens demasiado altas que sequem os rios, nem secar as fontes. Barragens demasiado altas colocam em perigo a própria estrutura, e secar as fontes destrói o ciclo da água.
    A água acabará no grande oceano, seja pelos rios, seja por outro nível, pela evaporação solar, que aglomera nas nuvens e provoca chuva.

    Por isso, barrando o fluir do conhecimento apenas nos sujeitamos mais a inundações, ou quicá, dilúvios.

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