Visito prolongadamente o cemitério do Fundão, a terra natal de grande parte dos meus familiares onde passei quase todas as férias até aos 20 anos. Lá estão sepultados os meus avós paternos e – desde há quase um ano – também o meu pai.
Um cemitério funciona como documento vivo de uma comunidade. Ver estas campas – e perceber quem as procura – ensina-nos muito. Ensina-nos que as mulheres vivem bastante mais que os homens, que são também elas que veneram com mais carinho a memória dos entes queridos, que devemos respeitar tanto os mortos como os vivos. De quando em vez, reparo na campa de uma criança, de uma adolescente, de um filho que partiu jovem. E procuro imaginar, sem o conseguir, o que terá sido a imensa dor daqueles pais que lhes deram sepultura. Fixo aqueles rostos imutáveis nas fotografias: rostos sorridentes, quase sempre. Algum deles terá pressentido que seria atraiçoado pelos macabros caprichos do destino?
Fixo os apelidos inscritos nas lápides, tantos deles de famílias muito conhecidas em toda a região. Apelidos típicos da Beira Baixa: Salvado, Taborda, Roxo Vaz, Nabinho, Boavida, Gil, Tavares, Leitão. Alguns parentes Correia de gerações remotas repousam lá para sempre. E personalidades da terra que conheci muito bem, desde garoto. O director do Jornal do Fundão, António Paulouro, e sua Mulher, Dona Cândida – falecida menos de um ano depois: tinham a mesma idade, devem ter-se conhecido desde sempre, imagino-os jovens namorados. O padre José Ferraz, grande dinamizador de obras sociais. O juiz-conselheiro Abel Pereira Delgado, que chegou a presidente do Supremo Tribunal de Justiça: recordo-me dele em nossa casa, era eu criança, tratando por tu o meu pai, seu antigo companheiro de colégio.
Vejo sepulturas de famílias nobres, com os brasões gravados no mármore: os Trigueiros de Aragão, descendentes do Conde de Idanha-a-Nova. Vejo o jazigo de Joaquim Paulo Gascão Nunes – um patriarca do reviralho na antiga vila – com o símbolo maçónico bem evidente. Homens que conheci na infância e na adolescência, gente que deixou um rasto de boa memória que perdura através das gerações. E deparo com nomes de pessoas que permaneceram décadas de relações cortadas, separadas pela política ou por alguma desavença familiar: ei-las agora ali, enfrentando a eternidade, a poucos palmos de distância, como se a morte as congregasse num grande abraço.
Tempus fugit: a parcela de existência que nos cabe é sempre escassa para cumprirmos os nossos sonhos. A morte tudo aplaina, tudo dissolve: nada mais fútil do que a esmagadora maioria das nossas ansiedades quotidianas. Saibamos valorizar o que verdadeiramente importa – e reduzir tudo o resto à sua devida dimensão. Esta é a melhor lição de vida que podemos colher num cemitério.


Terra de gente boa… Ou não fosse eu de lá.:))
Lembro-me muito bem de todas essas pessoas e de todos esses apelidos que refere. Infelizmente o Fundão está a envelhecer vertiginosamente. Já nem o mercado de Segunda Feira traz o buliço de outrora…
jm
Um abraço, patrício. Os fundanenses, de naturalidade ou de adopção, são uma tribo unida e solidária.
Bela reflexão, Pedro. Vejo que um cemitério pode ser uma teia de ensinamentos e revelações sobre as relações humanas. Aí tens uma experiência que me escapa completamente: nunca visitei os meus pais no cemitério onde estão e onde está quase toda a minha família. Não me faz falta essa visita e acho sempre que eles não estão ali. Só vou a um cemitério quando tem mesmo de ser: nos enterros dos mais íntimos.
Gostei muito de conhecer alguns cemitérios célebres, claro, como o de Génova ou o de Père Lachaise de Paris, por exemplo, mas isso foi por razões estéticas e históricas.
De facto, Ana, “um cemitério pode ser uma teia de ensinamentos e revelações sobre as relações humanas”. Descobri isso quando vivi em Macau: uma visita prolongada ao cemitério de São Miguel Arcanjo – onde se encontram, por exemplo, os restos mortais de Camilo Pessanha – ensinou-me muito sobre a presença de Portugal naquele recanto da China.
Belíssimo texto, compadre. Com a tua veia natural seguramente ainda mais inspirada pela proximidade do teu saudoso Pai, que tanto gostei de conhecer um dia.
Vai fazer agora um ano que partiu. Mas continua presente. Um abraço, compadre.
Grande texto, Pedro. Um cemitério diz muito da terra onde está, diz dos hábitos e dos modos de encarar a morte e, paradoxalmente, diz-nos quase tudo sobre a vida.
Tal e qual, Ivone. É uma evidência que muitos procuram evitar. Mas não deixa de ser uma evidência, como ainda agora confirmei.
Texto muito interessante e tocante. O final é sublime! Recentemente, fui fustigado por essa dor relativa à perda de um pai. Esses momentos decorreram em França, foram 4/5 dias cinzentos. Sem ver o sol, literalmente! Fazia muito frio junto de gente mais fria… Valeu, nesses dias, o reencontro e convívio entre irmãos que há muito não passavam tanto tempo juntos, incluindo ceias no quarto de hotel ao sabor de iguarias francesas para aquecer-nos os ânimos (como o meu pai gostaria de nos ver). Ainda não revisitei esse cemitério nas margens do rio Loire, no entanto, na semana passada, revisitei o cemitério, em Faro, onde se encontram sepultados os meus avós paternos. E vagueei por lá… Ao ler este texto, lembrei-me desses momentos de catarse recentes que acabo de descrever. Em suma, também colhi de lá essa lição de vida. Carpe diem!
É isso, Gonçalo: carpe diem. Devemos aprender bem cedo a distinguir entre aquilo que é irrelevante e aquilo que verdadeiramente importa.
Nos tempos hodiernos temos que olhar para o cemitério com outro olhar.
Foi o que fez o Pedro e no cemitério do Fundão está lá uma parte significativa da memória da nossa terra. O que o Pedro registou e outros aspectos que orgulham o Fundão. Homens que estiveram na Guerra Mundial. Mulheres de uma solidariedade enorme para com a comunidade. Homens com uma entrega total à vida das pessoas. Etc.
Também eu, quando volto ao Fundão, visito o cemitério. Para além de ser “obrigatório” são momentos de tranquilidade quando recordo . . .
Aquele abraço, Pedro
António Eduardo Correia Saraiva
Sintonia total, meu caro primo. Um forte abraço.
Belíssimo texto Pedro, este teu. E eu que sou um de híbrido de Alentejo e Beira compreendi muito bem o que contas. Obrigada!
Eu é que agradeço as tuas palavras amigas, Helena.
Demorei muito tempo a perceber o que tu tão bem descreves neste texto. Os cemitérios também nos explicam a vida e dão-nos dela uma perspectiva única. Gostei muito de te ler.
Obrigado, Teresa. Parece paradoxal mas não é: podemos sair de um cemitério sentindo-nos mais vivos. Ou melhor, sentindo uma relação mais profunda, mais verdadeira e mais apaziguada com a vida.
Os ‘defesos’ urbanos das campas e jazigos são muitas vezes dolorosos mas também muito inspiradores, compreendo-te bem. Uma cidade, aliás, é também o seu necrotério. Está lá muito para ver, se formos capazes de reparar. Na minha galeria não posso esquecer o de Génova, que visitei sem dor mas um enorme deslumbramento.
É como dizes, Laura: uma cidade é também o seu necrotério. E quem não percebe isto passa ao lado do essencial.
Pedro,
Só agora, mais de 3 anos depois de ter sido escrito, chego a este seu (para mim, comovente) texto. ‘Tempus fugit’ é talvez a grande verdade da nossa existência. Nabokov resumiu tudo em poucas palavras: «o senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva.» Em todo o caso, sendo essa luz tudo o que temos, só nos resta fazê-la brilhar forte.
Um abraço.